(Continuação)
| OUTROS AMORES | |
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O’Neill casa e descasa. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.
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O Vasconcelos diz-me que o O’Neill casou com Noémia Delgado em 1957 e descasou em 1971. A união teve um rebento: Alexandre Delgado O’Neill que irá revelar-se grande fotógrafo. Por esquecer em casa a bombinha salvadora, o Xana irá morrer mais tarde durante um estúpido ataque de asma… Mas estamos a falar de amores, não de filhos… Pergunta-me o Vasconcelos: – Tu sabes que, para ganhar a vida, eu sou bancário? – Claro que sei. No Banco Português do Atlântico, não é? – Isso mesmo, na Secção de Informações. E sabes quem é o Dr. Gouveia? – Não faço ideia. – É um dos administradores do BPA. Cheio da massa e reacça como o caneco. Pois um dia o Dr. Gouveia pediu-me que eu recolhesse todas as informações possíveis a respeito de um tipo chamado Alexandre O’Neill. Deu-me vontade de rir: era o poeta a fazer-se ao piso da Teresa Patrício Gouveia, a filha do Dr. Gouveia… Casou com ela o ano passado. Está bem lançado o poeta. Se armar em reaccionário, dinheiro por ali não falta… – E como é essa Teresa? – É uma grande lasca, uma estampa de mulher. – Ó Vasconcelos, és um má língua do caraças. Tenho a certeza que o poeta não se rendeu nem à fortuna, nem à ideologia do pai, mas à beleza da filha. Tu vais ver. Não sei se vai ou não vai. Irei eu.
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| A TEIA SALAZARENTA | |
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O Vasconcelos regressa a Portugal. Apetece-me recordar os tempos em que fui mosca apanhada pela teia salazarenta, eu também. Releio os livros do O’Neill. Está lá tudo. Está lá o medo que se perfila: Perfilados de medo, agradecemos Aventureiros já sem aventura, Perfilados de medo, sem mais voz, Rebanho pelo medo perseguido, Também o medo a cantar ópera: O medo vai ter tudo Está lá a vida de cão que levámos, com ou sem poesia: Cão formal da poesia Está lá a “vidinha” que aceitámos: A poesia é a vida? pois claro! Está lá a Pátria que nos pariu: Ó Portugal, se fosses só três sílabas, Ó Portugal, se fosses só três sílabas Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo, E ainda: País engravatado todo o ano Por tudo isto não me espanta que o Alexandre O’Neill afirme: António Nobre, embora seja muito em inho,
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SECREÇÃO |
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Em Maio de 74 já estou em Lisboa a surfar na crista da onda revolucionária. Noto e estranho a ausência do O’Neill naquelas corridas loucas, ventania e muito sal. Por mero acaso, em 76 encontro-o no restaurante Faz Frio, ali ao Príncipe Real. O longo abraço, a evocação dos tempos idos. Apresenta-me Ruy Cinatti, timorense e bom poeta. Pede-me que eu lhes diga (ou rediga) o meu poema de pesar pela morte do Estaline. – Já pedi licença aos organizadores do XX Congresso e eles consentem, não levam a mal. Portanto, tovarich O’Neill, toma lá, apara! E recito, de forma apalhaçada, o poema que publiquei no primeiro e único número de A POMBA. Galhofa, copos, camaradagem. Voltaremos a cruzar-nos pelas ruas de Lisboa, breves instantes, recordações, melancolia. Mas conviver não convivemos mais, passámos a trilhar trajectórias divergentes. Teresa dá à luz um rapaz, o Afonso, teu segundo filho. Separas-te dela em 81. Optas por um novo amor, Laurinda Bom, que ficará contigo até à tua morte em 86, doença cardíaca. Entretanto escreverás vários poemas, entre os quais O Rato e o Anjo, como se nada de novo tivesse acontecido desde Abril de 74: (…) Mas eis que, nestes enredos, Cai ao anjo a pena, E o português, desanjado, Abril em refluxo e o sarcasmo outra vez a acomodar-se à vidinha. Condoído, porém acomodado. O’Neill, ó poeta, ó amigo, espera aí por mim que eu já não tardo muito! Entretanto, cá por baixo, quando releio os teus poemas apanho sempre um susto: afinal o salazarismo não terá sido agressão contra o nosso povo, mas apenas secreção natural dos portugueses. Malcheirosa, malcheirosa… ______________________________ (*) MUD JUVENIL – Entenda-se: a ala juvenil do Movimento de Unidade Democrática, organização antifascista liderada pelos comunistas. |


