Biografia de ALEXANDRE O’NEILL, Poeta: 1924 – 1986, por Fernando Correia da Silva

 

(Continuação)

 

  OUTROS AMORES

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O’Neill casa e descasa. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O Vasconcelos diz-me que o O’Neill casou com Noémia Delgado em 1957 e descasou em 1971. A união teve um rebento: Alexandre Delgado O’Neill que irá revelar-se grande fotógrafo. Por esquecer em casa a bombinha salvadora, o Xana irá morrer mais tarde durante um estúpido ataque de asma…

Mas estamos a falar de amores, não de filhos… Pergunta-me o Vasconcelos:

– Tu sabes que, para ganhar a vida, eu sou bancário?

– Claro que sei. No Banco Português do Atlântico, não é?

– Isso mesmo, na Secção de Informações. E sabes quem é o Dr. Gouveia?

– Não faço ideia.

–  É um dos administradores do BPA. Cheio da massa e reacça como o caneco. Pois um dia o Dr. Gouveia pediu-me que eu recolhesse todas as informações possíveis a respeito de um tipo chamado Alexandre O’Neill. Deu-me vontade de rir: era o poeta a fazer-se ao piso da Teresa Patrício Gouveia, a filha do Dr. Gouveia… Casou com ela o ano passado. Está bem lançado o poeta. Se armar em reaccionário, dinheiro por ali não falta…

– E como é essa Teresa?

– É uma grande lasca, uma estampa de mulher.

– Ó Vasconcelos, és um má língua do caraças. Tenho a certeza que o poeta não se rendeu nem à fortuna, nem à ideologia do pai, mas à beleza da filha. Tu vais ver.

Não sei se vai ou não vai. Irei eu.

 

 

A TEIA SALAZARENTA
   

O Vasconcelos regressa a Portugal. Apetece-me recordar os tempos em que fui mosca apanhada pela teia salazarenta, eu também. Releio os livros do O’Neill. Está lá tudo. Está lá o medo que se perfila: 

Perfilados de medo, agradecemos
o medo que nos salva da loucura.
Decisão e coragem valem menos
e a vida sem viver é mais segura.  

Aventureiros já sem aventura,
perfilados de medo combatemos
irónicos fantasmas à procura
do que não fomos, do que não seremos.  

Perfilados de medo, sem mais voz,
o coração nos dentes oprimido,
os loucos, os fantasmas somos nós.

Rebanho pelo medo perseguido,
já vivemos tão juntos e tão sós
que da vida perdemos o sentido…
 

Também o medo a cantar ópera:

O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera 
sessões contínuas de espiritismo 
milagres 
cortejos 
frases corajosas 
meninas exemplares 
seguras casas de penhor 
maliciosas casas de passe 
conferências várias 
congressos muitos 
óptimos empregos 
poemas originais 
e poemas como este 
projectos altamente porcos 
heróis 
(o medo vai ter heróis!) 
costureiras reais e irreais 
operários 
(assim assim) 
escriturários (muitos) 
intelectuais (o que se sabe) 
a tua voz talvez 
talvez a minha 
com certeza a deles 
(…)  

Está lá a vida de cão que levámos, com ou sem poesia:

Cão formal da poesia
cão estouvado de alegria
cão moído de pancada
e condoído do dono
cão de gravata pendente
e remexido rabo ausente…

Está lá a “vidinha” que aceitámos:

A poesia é a vida? pois claro!
Conforme a vida que se tem o verso vem

– e se a vida é vidinha, já não há poesia
que resista. O mais é literatura,
libertinura, pegas no paleio;
o mais é isto: o tolo de um poeta
a beber, dia a dia, a bica preta,
convencido de si, do seu recheio…
A poesia é a vida? Pois claro!
Embora custe caro, muito caro,
e a morte se meta de permeio.

Está lá a Pátria que nos pariu:

Ó Portugal, se fosses só três sílabas,
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra,
(…)

Ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!
(…)

Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós…

E ainda:  

País engravatado todo o ano
e a assoar-se à gravata por engano.

Por tudo isto não me espanta que o Alexandre O’Neill afirme:

António Nobre, embora seja muito em inho,
é o grande Só que somos nós,
por isso gosto dele (ai de mim, coitadinho ! )

 

  SECREÇÃO
   

Em Maio de 74 já estou em Lisboa a surfar na crista da onda revolucionária. Noto e estranho a ausência do O’Neill naquelas corridas loucas, ventania e muito sal. Por mero acaso, em 76 encontro-o no restaurante Faz Frio, ali ao Príncipe Real. O longo abraço, a evocação dos tempos idos. Apresenta-me Ruy Cinatti, timorense e bom poeta. Pede-me que eu lhes diga (ou rediga) o meu poema de pesar pela morte do Estaline.

– Já pedi licença aos organizadores do XX Congresso e eles consentem, não levam a mal. Portanto, tovarich O’Neill, toma lá, apara!

E recito, de forma apalhaçada, o poema que publiquei no primeiro e único número de A POMBA.

Galhofa, copos, camaradagem. Voltaremos a cruzar-nos pelas ruas de Lisboa, breves instantes, recordações, melancolia. Mas conviver não convivemos mais, passámos a trilhar trajectórias divergentes.

Teresa dá à luz um rapaz, o Afonso, teu segundo filho. Separas-te dela em 81. Optas por um novo amor, Laurinda Bom, que ficará contigo até à tua morte em 86, doença cardíaca. Entretanto escreverás vários poemas, entre os quais O Rato e o Anjo, como se nada de novo tivesse acontecido desde Abril de 74:

(…)
Rato rói,
até na orelha.
Anjo dói
de outra maneira.  

Mas eis que, nestes enredos,
há dois a mais, um a menos. 

Cai ao anjo a pena,
ao rato o pelame.
Um regressa ao seu enxame,
o outro à sua caverna.

E o português, desanjado,
já se vê desratizado.
Chora.

Abril em refluxo e o sarcasmo outra vez a acomodar-se à vidinha. Condoído, porém acomodado.

O’Neill, ó poeta, ó amigo, espera aí por mim que eu já não tardo muito! Entretanto, cá por baixo, quando releio os teus poemas apanho sempre um susto: afinal o salazarismo não terá sido agressão contra o nosso povo, mas apenas secreção natural dos portugueses. Malcheirosa, malcheirosa…

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(*) MUD JUVENIL – Entenda-se: a ala juvenil do Movimento de Unidade Democrática, organização antifascista liderada pelos comunistas.


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