“Os Estados Unidos precisam de uma revolução”, disse Ray Bradbury, que hoje faz 91 anos – por Carlos Loures

 

 

Ray Bradbury, o grande Bradbury, faz hoje, 22 de Agosto, 91 anos.

 

Há cerca de um ano, em entrevista ao jornal Los Angeles Times, disse – “Acho que o nosso país precisa de uma revolução”, declarou o autor de The Martian Chronicles (Mundo Marciano, 1950) e Fahrenheit 451 (1953). “Há muito governo actualmente. É preciso lembrar que o governo deveria ser do povo, pelo povo e para o povo”, acrescentou.

 

O escritor também disse que os Estados Unidos deveriam “voltar à Lua” e reprovou o facto de o presidente Barack Obama ter renunciado ao projecto.:”Não deveríamos ter desistido disso. Deveríamos ir à Lua e instalar aí uma base, para lançar um foguete com destino a Marte; depois, ir a Marte e colonizá-lo”, estimou. “Depois disso, viveríamos eternamente”, concluiu Bradbury.

 

Paradoxalmente, o homem que escreveu vários clássicos de ficção científica não é um defensor ardoroso da tecnologia: “Temos muitos telemóveis, muita internet. Deveríamos desembaraçar-nos imediatamente dessas máquinas”, disse.


 

Há tempos, numa entrevista a um jornal europeu, prestou declarações muito interessantes, nomeadamente sobre a sobrevivência do livro, do velho livro impresso, face às novas tecnologias da informação. «Tudo é amor», disse, «Escrevo por amor e esse é o meu único conselho – ama o que escreves e escreve sobre o que amas».

 

Na sua obra «Fahrenheit 451», aquela que François Truffaut magistralmente passou ao cinema, Bradbury exorciza um fantasma da sua adolescência, quando viu fotografias e os documentários de «actualidades» que passavam nos cinemas antes do filme principal, mostrando os nazis queimando livros considerados malditos pela nova ordem. No Portugal anterior à revolução de Abril, o filme de Truffaut foi acolhido com entusiasmo, pois era imediata a conotação política que se estabelecia entre aqueles «bombeiros» que queimavam livros e os censores salazaristas que mandavam apreender livros e publicações considerados subversivos.

 

Apesar dos seus 91 anos, Ray Bradbury continua a manifestar uma inquietação de adolescente. O corpo atraiçoa-o e mostra os vestígios de uma idade que lhe limita os movimentos – a vista está praticamente perdida e o ouvido falha também. Todavia, usa as suas deficiências como truques – a falta de vista desculpa-o de não ter lido alguns livros mais recentes e aproveita surdez para evitar dar opinião sobre alguns dos seus contemporâneos. Habilmente, transforma as desvantagens e as traições que a velhice lha vai fazendo em coisas vantajosas.

 

Seria um lugar-comum o dizer-se que, apesar da sua avançada idade, ele mantém um «espírito jovem». É que não sei se lhe estaremos a fazer um elogio. Quando vemos grande maioria dos jovens de idade seguir obedientemente aquilo que o marketing lhes dita, comportando-se como um rebanho disciplinado, ficamos sem saber se «ter o espírito jovem» é uma coisa boa. Eu diria antes que Bradbury, cujas funções vitais se encontram diminuídas pelo avanço da idade, mantém a inteligência e o carácter criativo e visionário que sempre o caracterizou – logo aos três anos disse que queria ser escritor, começou a escrever aos doze e não parou até hoje. Na realidade, a inteligência (tal como a estupidez) não escolhe idades. Wernher von Braun, o pai da corrida espacial, diz que Bradbury, ao qual a vista agora vai faltando, «foi capaz de ver tudo antes de acontecer».

 

Aqui ficam algumas imagens do filme Fahrenheit 451,  realizado por François Truffaut   em 1966.

 

 

 

 

 

 

 

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