A crise, a Europa, e o Mediterrâneo . 6 – Jean-Paul Guichard (traduzido e enviado por Júlio Marques Mota)

(Continuação)

 

Todos nós sabemos  que a situação da Grécia e Portugal é delicada; os bancos franceses e alemães estão fortemente comprometidos nestes países: é isso que  explica talvez o apoio comunitário actual de que estes países beneficiam para fazer face aos seus prazos de pagamento. Contudo os bancos europeus não são certamente os únicos credores da Grécia, da Espanha, da Itália, de Portugal[1] … e de outros países  da União, e também não são apenas  os bancos americanos[2].  O  principal credor da Europa tomada como um todo, não é outro senão  o Estado chinês.

 

A situação da França, a esse respeito, é interessante; a dívida pública é equivalente a 1.800 mil milhões de dólares dos quais os dois terços são detidos por credores estrangeiros[3], ou seja 1.200 mil milhões de dólares; uma boa parte destes títulos é detida por credores europeus, americanos, japoneses, ou sauditas… no entanto, sabendo que a China detem o equivalente de 900 mil milhões de dólares de títulos públicos europeus será então  provável que destes, 200 mil milhões se refiram  à  dívida francesa (ou seja  aproximadamente 10% desta dívida).

 

Além disso, o serviço da dívida bem como o défice corrente do actual orçamento obrigam a emitir  novas obrigações, em 2011, por um montante que deve ser de aproximadamente de 200 a 300 mil milhões de dólares: junto de quem é que a França se poderá  endividar  assim, se não for junto dos que têm dinheiro a colocar?  E a  China está na  primeira fila destes investidores soberanos: é muito  possível que  a China venha a comprar cerca de uma centena de mil milhões de títulos públicos franceses em 2011. Tais ordens de grandeza indicam efectivamente a importância da dependência crescente dos estados no que diz respeito à China. Seria um grande erro crer que esta permanecerá um credor “passivo” , que não procurará tirar  proveito  da situação cada vez mais vantajosa em que a China  se  encontra.

 

Existe uma vasta literatura sobre “os défices gémeos”: défice do comércio externo, défice das finanças públicas. São  numerosos os  analistas  ou os políticos  que avançam a ideia que o défice orçamental, pelo excesso de despesa interna que suscita, provoca o défice do comércio externo. O caso dos países “deficitários” desde há dez ou quinze anos (Estados Unidos, Grã-Bretanha, Europa do Sul) está   aí   para nos mostrar  que esta concepção é falsa: é o défice do comércio externo que provoca o défice orçamental, e não o inverso! É a forte peso negativo que o défice do comércio externo constitui para o crescimento económico que levou diferentes Governos a adoptar políticas favoráveis ao endividamento, quer  esta seja privado  ou público. A crise actual  é uma crise do endividamento:  este  só poderá  cessar  quando  que se puser termo ao défice do comércio externo.

 

Entretanto, os países da União Europeia estão perante um temível dilema; ou recusam continuar a ajudar a Grécia e Portugal e estes países tornam-se então rapidamente verdadeiras colónias da China na Europa;    ou continuam a ajudar estes países, com dinheiro emprestado… à China: neste caso, a União preserva a sua unidade mas ao preço de uma dependência acrescida!

 

(Continua)


[1] Os famosos « PIGS » (Portugal, Itália, Bgrécie e Espanha) segundo uma certa imprensa anglo-saxónica.

 

[2] Lembremo-nos das duras críticas das autoridades chinesas a propósito da dívida grega e do papel desempenhado  por Goldman Sachs, como se o único responsável do endividamento público dos países ocidentais  fosse  a finança dos países ocidentais; é uma forma de ocultar o facto de que a China é o principal credor  e que é   ela que pelos seus excedentes comerciais  assentes na sua taxa de câmbio  obriga os países ocidentais a endividarem-se.

[3] O Tesouro francês recusa comunicar a lista dos seus credores: curiosa democracia na qual os cidadãos são mantidos na ignorãncia da identidade dos credores junto dos quais o seu Estado osterá  endividado!

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