A distinção entre direita e esquerda, ainda se justifica? – por Carlos Loures

 

Foi em 26 de Agosto de 1789 que na Assembleia Nacional Francesa foi aprovada a Declaração dos  Direitos do Homem e do Cidadão. Apresentámos já uma tradução desse importante documento, de há 222 anos, que continua a não ser aplicado a uma grande parte da Humanidade. E isso leva-me a colocar em dúvida a pertinência de uma afirmação muito em voga, segundo a qual já não faz sentido a divisão entre esquerda e direita. Estas designações tiveram origem nas assembleias anteriores e posteriores à Revolução de 1789.

 

Por mera casualidade, os conservadores sentavam-se à direita da mesa da presidência e os mais radicais à esquerda. Na Assembleia Nacional (1789), a expressões «gauche» e «droite» eram aplicadas a republicanos e a monárquicos; na Convenção Nacional (1792), o termo usou-se para distinguir jacobinos, defensores dos sans-cullotes, os deserdados, dos girondinos. deputados que representavam a burguesia ilustrada, hesitante entre a monarquia constitucional e a República.

 

 

 

 

O campo semântico dos termos foi-se alargando e especializando, incorporando contributos e empréstimos vindos de diversas áreas do conhecimento. De localização casual de duas facções nos hemiciclos da França de 1789, o conceito de direita e esquerda passou para as lutas sociais e políticas. A minha definição de esquerda resulta de uma frase de Rimbaud: «é preciso mudar a vida» e de outra de Marx, que proclamou a necessidade de «transformar o mundo». Mudar a vida e transformar do mundo significa uma coisa – Revolução. A direita, com contributos vindos também de vários quadrantes do conhecimento, procura conservar o que considera como valores intemporais – reage mal à mudança da vida e pior a todas as transformações do mundo que não se traduzam na conservação de privilégios.

 

Desde que, na prática, PS e PSD se fundiram num bloco de interesses paralelos e que chegam a ser comuns, há esta tendência para afirmar que os conceitos de esquerda e de direita deixaram de fazer sentido. Subsiste o mito de que o PS é um partido de esquerda. Mais correcto seria, talvez, dizer que o PS é um partido de direita onde há alguns militantes de esquerda. O colapso do chamado «socialismo real», associado à esquerda,  privando as pessoas de uma das suas referências básicas,  conduziu à ideia de que  coisas de que se falou muito depois de 1974, nomeadamente a luta de classes, tinham tido o seu acto final. Se, num mapa, não tivermos a indicação de onde se situa o Norte, nunca encontraremos o Sul. Era, dizia-se, o fim da História e o fim da Política.

 

A conclusão de que já não faz sentido a dicotomia esquerda/direita, ouvi-a a políticos profissionais, comentadores e analistas políticos, politólogos, gente com responsabilidade. Na realidade, o fim do conceito de esquerda e direita, o fim da concepção da luta de classes, a extinção do conceito de classe, são tudo coisas que interessam muito à direita e à falsa esquerda. Porém todos esses conceitos só deixarão de fazer sentido quando a vida tiver mudado e o mundo se tiver transformado num local onde não existam desigualdades sociais; onde a fome, a miséria, a doença. todas as chagas sociais, tiverem sido erradicadas.

O «fim» dos dois conceitos, já era, desde há anos, tema de discussão por essa Europa fora. Em 1994 foi publicada a edição portuguesa de um ensaio do italiano Norberto Bobbio, Direita e Esquerda (Destra e Sinistra), com o subtítulo Razões e significados de uma distinção política. Definindo as palavras que constituem o título, diz Bobbio: «Os dois conceitos – «direita» e «esquerda» – não são conceitos absolutos. São conceitos relativos. Não são conceitos substantivos ou ontológicos. Não são qualidades intrínsecas do universo político. São locais do «espaço» político, representam uma determinada topologia política, que nada tem a ver com a ontologia política: Não se é de direita ou de esquerda, no mesmo sentido em que se diz que se é «comunista», «liberal» ou «católico». Por outras palavras, «direita» e «esquerda» não são termos que designam conteúdos definitivamente assentes. Podem designar conteúdos diferentes, de acordo com as épocas e as situações». Isto parece-me correcto – a generalidade dos oposicionistas à ditadura do Estado Novo eram considerados «de esquerda», vindo-se a revelar depois da Revolução que uma boa parte deles passou, pelas opções político-partidárias que fez, a ser considerada de «direita».

 

 

 

 Hoje, dia 26 de Agosto de 2011, 222 anos após a sua aprovação pela Assembleia Nacional Constituinte de uma França mergulhada desde o mês anterior numa Revolução, a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, continua a não ser aplicada. No seu artigo primeiro, afirma: «Os homens nascem e são livres e iguais em direitos.» São as primeiras palavras de um documento com mis de dois séculos. Estão por cumprir estas belas intenções – revolucionárias da perspectiva da direita, de senso comum para quem for de esquerda. Quando a generosa Declaração de 1789 for integralmente aplicada, talvez se possa deixar de falar de esquerda e direita. Antes, nem pensar.

 

 

 

 

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