“UMA CERTA HARMONIA” – por Clara Castilho

 
 
  
  
  
  
 

No passado mês de Junho o pedopsiquiatra Pedro Strecht lançou mais um livro, com ligação aos seus anteriores

mas aventurando-se para um outra área. Intitula-se “Uma certa harmonia – notas sobre arquitectura, urbanismo e saúde mental infantil”, da sua fiel editora, a Assírio e Alvim e com prefácio de Siza Vieira. Foi um momento especial, num fim de tarde abafado, na sala que a Assírio tem no Chiado, cujas janelas dão precisamente para o Chiado reconstruído e onde a presença de Siza Vieira nos fez sentir num “nicho” que gostaríamos de partilhar com outras pessoas que pudessem ouvir e ler o quanto importante ali se falou.

 

Um dos primeiros parágrafos do livro diz assim: “Há cidades que tornam as pessoas mais inteligentes” referiu o filósofo português José Gil e outras que as deixam “tristes e doentes” como ensinava o arquitecto Le Corbusier”.

 

E aqui temos o mote de todo livro.

 

Transportados para a cidade onde se quebraram as ligações fundamentais, onde o homem é anónimo, onde permanece um desejo de fuga e onde a saída mais fácil para a agressão que sente é tornar-se um novo agente agressor. Onde o prazer de existir anda longe…

 

O autor relembra o livro de Bauman “Confiança e Medo na cidade” (2009) onde cita: “A cidade transformou-se num território de medo e insegurança. A arquitectura das metrópoles é cada vez mais defensiva e agressiva: bairros fechados, grades, muros e mecanismos que restringem o contacto com o outro…” Faz a ponte com outro autor, Marc Augé e a sua definição de “não-lugar” para “caracterizar estes espaços incapazes de dar forma a qualquer tipo de identidade, pois um não-lugar não é relacional, não é identitário e também não é nem será nunca histórico…”

 

Debruça-se depois sobre quatro casas projectadas por quatro arquitectos, relacionando-as com as vidas e infâncias de cada um, passando pela importância da música, da água e de outros elementos.

 

Pedro Strecht acaba: “As casas são pais e mães do desejo, da vontade de existir e de uma certa ilusão de, afinal,
sermos eternos. Somos sempre pais e filhos delas, mesmo quando, um dia, temos de mentir para que não se afastem do nosso coração”.

 

Um livro que nos faz apetecer pegar numa picareta e derrubar muito do que vemos à nossa volta! Mas também um livro em que entramos, nos sentimos confortáveis e percebemos melhor muitas das nossas emoções.

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