Europa que dá de presente 200 mil milhões aos seus ricos, por Harald Hau. Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

 

Aos visitantes, aos leitores de A viagem dos argonautas

 

Não perguntem a Durão Barroso, não perguntem a Nicolas Sarkozy, não perguntem a Cavaco Silva, não pergunte a Herman van Rompuy, Presidente da União Europeia, não perguntem a Jean-Claude Juncker, Presidente do Eurogrupo, como se limpa a Europa da crise, perguntem às rãs do meu país ou de um outro atingido pela crise como se limpam a águas estagnadas e estas dir-nos-ão que se limpam com mais água, mas limpa.

 

Depois de Eva Joly, uma série de textos para percebermos o leque variado de mentiras com que os nossos políticos de aqui e de outras capitais da Europa estão a destruir politicamente este nosso continente, justificando o roubo sistemático que nos fazem dos frutos do nosso trabalho do dia-a-dia, deixando que os mecanismos que a crise geraram continuem em plena actividade, mesmo que por um período curto as vendas a descoberto sobre um dado conjunto de estabelecimentos financeiros tenha sido proibida. Mas transitoriamente apenas!

 

Desses textos, o primeiro deles.

 

 Europa que dá de presente 200 mil milhões aos seus ricos

Harald Hau, Le Monde

 

Com o anúncio da conclusão de um acordo sobre o novo plano de auxílio à Grécia, a Chanceler Ângela Merkel insistiu sobre a participação do sector privado nesta operação. Enquanto os contribuintes europeus serão implicados em 109 mil milhões de euros adicionais, os credores privados devem participar na reestruturação da dívida no valor de 37 mil milhões de euros ao aceitarem um desconto de 21% sobre os empréstimos feitos à Grécia.

 

O acordo alcançado em Bruxelas dificilmente poderia ser mais desfavorável para o contribuinte, uma vez que a depreciação da dívida grega estava já em cerca de 50% no mercado secundário! Para além da possibilidade de trocar os seus títulos antigos contra os novos títulos, os investidores privados, eles, também beneficiarem igualmente das novas garantias do Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (FEEF). Dado que o Estado grego continua endividado num valor para mais de 130% do seu produto interno bruto (PIB), uma nova redução nitidamente mais drástica é inevitável a médio prazo – que será integralmente repercutida nos impostos.


Os credores privados também não o ignoram e tomarão parte na reestruturação “na base do voluntariado”. A participação do sector privado é, portanto, claramente uma fraude, e o dito plano de resgate é sobretudo um verdadeiro donativo para os banqueiros e outros detentores de dívida grega.


Os comentários de Nicolas Sarkozy, que viu no acordo a que se chegou em Bruxelas o primeiro passo para um governo económico europeu, espantam quando se considera um aspecto político do acordo particularmente vergonhoso: as ajudas públicas para a Grécia – cujo total poderá ascender a 200 mil milhões de euros – cairão substancialmente nos bolsos de 5% das famílias mais ricas da Grécia (sabe-se nos Estados Unidos e em todo o mundo também que os 5% das famílias mais endinheiradas possuem cerca de 70% do capital financeiro). A socialização da dívida grega, por conseguinte, é equivalente a uma transferência generosa para benefício dos mais ricos.


Em princípio, os governos estão numa posição de força para negociar com os investidores privados. Contrário a uma empresa, um Estado não pode ser posto em liquidação. No caso da insolvência deste último, o credor privado encontra-se, portanto, em situação de inferioridade. Desde então interrogamo-nos porque razão são estes, os credores privados, que são poupados no processo de reestruturação da dívida grega?

 

Lorenzo Bini Smaghi, membro da Comissão Executiva do Banco Central Europeu (BCE), chegou mesmo a declarar que uma participação financeira do sector privado seria uma solução ainda mais cara para os contribuintes. Naturalmente, a insuficiência de capitais próprios dos bancos europeus induziu um risco no caso de incumprimento drástico da dívida grega. Mas este problema pode ser resolvido de maneira muito mais directa e benéfica por meio de uma recapitulação (forçada) dos bancos. A última crise financeira mostrou que os governos foram capazes de prevenir crises no sector bancário, ao tomarem medidas enérgicas. Em troca de ajuda financeira, o Estado pode obter dos bancos novos títulos graças aos quais o contribuinte pode mesmo ficar a ganhar a longo prazo.


Porque é que esta solução, no entanto, significativamente mais perene, não foi mencionada uma só vez sequer? A razão é política: uma tal opção seria contrária aos interesses superiores dos grandes bancos, mesmo se a crise actual é o resultado da negligência da política de crédito destes mesmos bancos. Os decisores políticos têm tido uma dupla incapacidade nas suas negociações com o sector privado: para começar, devido à sua reconhecida incompetência e às informações dispersas, os ministérios das finanças têm tido uma extrema dificuldade em desenvolverem planos de emergência e, por seu lado, a vontade política tem-se progressivamente enterrado na cultura do segredo de um sector bancário que não tem nenhuma disposição em colaborar.


Em seguida, é necessário não subestimar o lobby dos bancos, que dissuade muitos dirigentes políticos de assumirem riscos que sejam favoráveis para os contribuintes. Enquanto a própria gestão – em grande parte desastrosa – dos riscos durante a crise financeira deveria desacreditar muitos banqueiros no seu papel como conselheiros, ao contrário, a sua influência política permanece totalmente intacta.


Perguntem às rãs o que é que aos seus olhos será o melhor método para secar as águas estagnadas e elas responderão que será acrescentar mais água. No mesmo sentido, é o Presidente do Deutsche Bank, Josef Ackermann e o Instituto Internacional de Finanças que foram encarregados de organizar o plano para o resgate da Grécia. È como se o governo tivesse colocado o Ministério da Saúde sob a tutela da indústria do tabaco.


A incapacidade da política em agir sobre o sector privado é explicada também pelo fraccionamento do poder político entre um grande número de Estados-Membros. Em 1982, o Secretário do Tesouro (dos Estados Unidos), James Baker, estava em condições de recusar categoricamente qualquer socialização das dívidas contraídas pelos bancos latino-americanos. Qualquer solução política é agora submetida à conclusão de um compromisso europeu, a posição da Chanceler Angela Merkel é nitidamente muito mais desconfortável.


Enfim, através de uma luta enérgica contra o envolvimento do sector privado, o BCE contribuiu, também, para exercer pressão sobre os líderes políticos alemães. Um certo número de representantes do BCE deu, assim, a impressão de se preocupar mais com os interesses da elite financeira dos seus países de origem do que com os contribuintes e com os cidadãos europeus.


Se o último plano de resgate até agora elaborado marca um primeiro passo para um futuro governo económico europeu, a questão é agora a de se saber a quantas decisões deste tipo a zona do euro será capaz de sobreviver. Infelizmente a Europa tem de enfrentar a próxima vaga de crise sem ter alcançado um progresso real em matéria de economia política.


Para isso é necessário que os políticos vão frontalmente contra os superiores interesses dos bancos e imponham uma recapitalização drástica dos estabelecimentos europeus, o que francamente nada parece anunciar. A socialização da dívida grega não desendividará verdadeiramente este país não fazendo mais do que aliviar inutilmente aqueles que terão, na mesma, que suportar a inevitável redução da dívida.

 

Traduzido do alemão por  Jean-Baptiste Bor © Harald Hau

 

Harald Hau, professor na Universidade de Genebra, e no  Schweizer Finanzinstitut (SFI) , publicado por Le Monde, 16 de Agosto de 2011

1 Comment

  1. Como cidadã repudio veementemente dirigentes que tentam resolver os problemas das grandes potências europeias – porque os países pequenos pouco lhes importam – à custa da destruição, da invasão e do saque de países fora da Europa, como a Líbia, onde Sarkozy anda, neste momento, a participar na pilhagem para resolver os problemas financeiros da França. Obrigada, mas não é assim que queremos a recuperação da Europa.

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