(Continuação)
b) As dificuldades dos países mediterrânicos
É esta realidade que numa grande profundidade conheceram numerosos países do Mar Mediterrâneo: alguns pertencendo à União Europeia, outros não, como os países Balcãs a Oeste ou ainda como alguns países da margem sul; as actividades têxteis, por exemplo, que abandonaram a Europa do centro e do norte para a periferia do sul da Europa tiveram tendência, elas também, a irem-se exilar para longe, para a China…
É significativo que os produtos artesanais, outrora produzidos pelo artesanato tradicional e que encontram à venda nos mercados do Cairo, nomeadamente para os numerosos turistas que visitam a capital do Egípto, são agora já produtos “made in China[1]”; e este facto não é de modo algum um caso isolado pois verifica-se igualmente nos outros países do Mar Mediterrâneo como a Tunísia ou como Marrocos. Assim, ao mesmo tempo que a China capta certas actividades produtivas destes países, inunda-os com os seus próprios produtos: nada de surpreendente que os países do Mediterrâneo meridional como os da margem norte, de resto, se arrrastem com défices comerciais recorrentes cada vez maiores quando não têm sequer a possibilidade de poder dispôr de recursos naturais que dão lugar à percepção de rendas como a Argélia ou Líbia.
A consequência de tudo isto é a existência de um desemprego e de um subemprego latente cada vez mais considerável que vai corroeendo o equilíbrio social das suas populações respectivas, que agora e face também à crise se sentem adicionalmente cada vez mais desestabilizados. É significativo que as duas revoluções árabes recentes que aparecem como tendo “tido êxito” até agora são as da Tunísia e a do Egipto: países que não dispõem de recursos petrolíferos ou do gás em quantidades significativas e nos quais se deu um forte desenvolvimento da instrução pública; estes países conheceram pois revoluções efectuadas por classes médias que não vêem futuro para a sua respectiva juventude.
Os países do Mediterrâneo que não pertencem à União Europeia estão numa situação muito difícil, com excepção feita “aos rentiers”: em consequência dos seus défices externos, os seus orçamentos estão, eles também, em défice de modo que terão imperativamente que conseguir colocar títulos das suas dívidas soberanas nos mercados financeiros que adicionam às taxas de juro um prémio de risco considerável, prémio que pode ser entendido genericamente como o valor do CDS para esse país e para essa maturidade de títulos.
Nestas condições, estes países são obrigados a voltarem-se para a Europa vizinha pedindo a obtenção de garantias para os prestamistas para assim poder limitar os prémios de risco exigidos; uma solução apenas no plano imediato, pois nada se resolve de estrutural, nada disto resolverá seja o que for de forma douradoira : a única via de saída que existe, para estes países (como para os países da União Europeia), será a via do restabelecimento do equilíbrio do seu comércio externo; deste ponto de vista, têm “a possibilidade” de poder proceder à desvalorizações das suas moedas respectivas, ao contrário dos países do Sul da eurozona.
(Continua)
[1] Em Portugal poderemos dizer o mesmo, por exemplo com a tapeçaria de Arraiolos. De modo mais simples, até os martelos para o alho porro das festas de S. João no Porto são, na sua maioria, também eles “made in China”
