A crise, a Europa, e o Mediterrâneo . 8 – Jean-Paul Guichard (traduzido e enviado por Júlio Marques Mota)

(Continuação)

 

b) As dificuldades dos países mediterrânicos

 

É esta realidade que numa grande  profundidade   conheceram numerosos países do Mar Mediterrâneo: alguns pertencendo à União Europeia, outros não, como os países Balcãs a Oeste  ou ainda como alguns países da margem  sul; as actividades têxteis,  por exemplo,  que abandonaram a Europa do centro e do norte para a periferia do sul da Europa tiveram tendência, elas também, a irem-se  exilar  para longe, para a  China…

 

É significativo que os produtos artesanais, outrora produzidos pelo artesanato tradicional e que encontram à venda nos mercados do Cairo, nomeadamente para os numerosos turistas que visitam a capital do Egípto, são agora já produtos  “made in China[1]”; e este facto não é de modo algum um caso isolado pois verifica-se  igualmente nos outros países do Mar Mediterrâneo como a Tunísia ou como Marrocos. Assim,  ao mesmo tempo que a China capta certas actividades produtivas destes países, inunda-os com os seus próprios produtos: nada de surpreendente que os países do Mediterrâneo meridional como os da margem norte, de resto, se arrrastem com  défices comerciais recorrentes cada vez maiores  quando não têm sequer a possibilidade de poder dispôr de recursos naturais que dão lugar à percepção de rendas como a Argélia ou Líbia.

 

A consequência de  tudo isto  é a existência de  um desemprego e de um subemprego latente cada vez mais considerável que vai corroeendo o equilíbrio social das suas populações respectivas, que agora e face também à crise se sentem adicionalmente cada vez mais desestabilizados. É significativo que as duas revoluções árabes recentes que aparecem como  tendo “tido  êxito” até agora são as da Tunísia e a do  Egipto: países que não dispõem de recursos petrolíferos ou do gás em quantidades significativas e nos quais se deu  um forte desenvolvimento da instrução pública; estes países conheceram pois revoluções efectuadas por classes médias que não vêem futuro para a sua respectiva juventude.

 

Os países do Mediterrâneo que não pertencem à União Europeia  estão numa situação muito difícil, com excepção feita “aos rentiers”: em consequência dos seus défices externos, os seus orçamentos estão, eles também, em défice de modo que  terão  imperativamente que conseguir  colocar títulos das suas dívidas soberanas nos mercados financeiros que  adicionam às taxas de juro  um prémio de risco considerável, prémio que pode ser entendido genericamente como o valor do CDS para esse país e para essa maturidade de títulos.

 

Nestas condições, estes países são obrigados a voltarem-se para a Europa vizinha pedindo a obtenção de garantias para os prestamistas para assim poder  limitar os prémios de risco exigidos; uma solução apenas no  plano imediato, pois nada se resolve de estrutural, nada disto resolverá seja o que for de forma douradoira : a única via de saída que existe, para estes países (como para os países da União Europeia), será a via do restabelecimento   do equilíbrio do seu comércio externo; deste ponto de vista, têm “a possibilidade” de poder proceder à desvalorizações das suas moedas respectivas, ao contrário dos países do Sul da eurozona.

 

(Continua)

 


[1] Em Portugal poderemos dizer o mesmo, por exemplo com a tapeçaria de Arraiolos. De modo mais simples, até os martelos para o alho porro das festas de S. João no Porto são, na sua maioria, também eles “made in China”

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