Síria – a situação é mais séria do que parece – por Carlos Mesquita

(Publicado no ClariNet em 26-08-2011)

 

A situação interna na Síria não é clara; manifestações populares reprimidas tendo causado muitos mortos, ou operações militares contra grupos armados que querem provocar um clima de tensão e violência? Provavelmente aconteceram as duas coisas, a aceitar os relatos facciosos a que temos direito.

 

Para melhor entender a envolvência deste novo conflito que já tem 5 meses, teríamos de ir à história da Síria e a sua relação com a Turquia, o pan-arabismo do partido Bass, o conflito palestiniano e a guerra com Israel, o Hamas, o Hezebollah, o Líbano, os Estados do Golfo e a Arábia Saudita com os acordos com a NATO, e a “primavera árabe” de flores de campa, semeadas pelos Estados Unidos e a Europa para colher frutos imperiais. Mas como seria longo, só um alerta.

 

Não falta gente a propagar que a situação na Síria está madura para uma intervenção externa. Seria uma aventura que poderia levar a uma guerra que ultrapassaria o âmbito regional. Ao contrário da Líbia, isolada do mundo árabe e das potências mundiais, com relações privilegiadas com a África sem capacidade militar, ou acordos de defesa mutua; a Síria tem desde 2010 um tratado com o Irão de colaboração militar e defesa, e a Rússia tem uma base naval no noroeste do país. Além disso faz fronteira com Israel (ainda em guerra devido aos Montes Golan), Líbano, Jordânia, Turquia e Iraque, lenha seca à espera de fósforo.

 

Ao contrário da Líbia, entalada entre os países do Magreb e o Egipto, e em cunha por África, a Síria está no centro do vulcão do médio oriente. Estabilidade política regional ou instabilidade passa pela Síria, como passa também o fundamental vale do Eufrates e os trajectos principais dos gasodutos e oleodutos. A Rússia dispõe de mísseis hipersónicos cuja disponibilidade torna impraticável os voos da NATO. A recente noticia posta a circular sobre o fornecimento russo dos mísseis S-300 à Venezuela para posterior entrega ao Irão, faz lembrar a crise dos mísseis de Cuba/1962. Andam a brincar com o fogo.

 

É necessário denunciar a escalada bélica que os papagaios da comunicação social difundem, preparando o clima emocional para a intervenção militar arrogante, em países soberanos, sob a pretexto da defesa dos direitos civis e da democracia.

 

As imagens que vejo na televisão, de cadáveres de líbios com as mãos atadas atrás das costas, não são a expressão dos direitos humanos.

 

O intervencionismo, à revelia ou não da ONU, está a somar casos de barbárie perpetrados por países ditos civilizados. O belicismo como solução de problemas políticos não pode continuar.

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