E A CRIANÇA, O QUE PENSA DA CIDADE? – por Clara Castilho

 

A imagem que a criança tem ou possa ter da cidade é sempre o resultado da vivência, do envolvimento físico e emocional com os espaços urbanos, e da participação na vida da mesma.

 

Numa tese de mestrado defendida em Julho de 2003, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, a que tive o prazer de assistir, com o título “A criança e a cidade – independência de mobilidade e representações sobre o espaço urbano”, Maria João Malho estudou o ponto de vista da criança sobre este assunto. De um artigo publicado na revista Noesis (nº83 (Out.-Dez.2010), p.52-57) retirei as informações que partilho.

 

A investigação teve por base a criança como actor social e a cidade como cenário social. Os métodos da pesquisa partiram da “construção da realidade” feita pela criança, expressa pela escrita. Essa construção não se efectua pela relação directa em que as crianças se encontram envolvidas (a sua própria vida), mas sim na percepção e na representação dessa realidade, na verdade do mundo infantil, que não é senão uma “construção da realidade” e não apenas uma “representação dessa realidade” (Bronfenbrenner, 1996:10). A criança foi a “unidade de observação” e foi considerada como “mediadora de informação” (Qvortrup, 1998; 2000). Isto porque, como refere Gomes-Pedro (1999:327), a vida urbana actual desafia o “limiar da adaptabilidade infantil”. Assim, é pertinente e justificado estudar as crianças, os seus mundos, as suas dinâmicas de vida, ou seja, as “culturas infantis” (Sarmento e Pinto, 1997).

 

Foi perguntado às crianças “O que é para ti uma cidade?” e pedido a 53 crianças (dos 9 aos 12 anos), de duas escolas da zona de Lisboa, que escrevesse um texto livre. Para além disso, foi aplicado um inquérito por questionário, composto por quatro partes, com um total de 62 perguntas, abertas e fechadas, respondido pelas próprias crianças e que abordava a identificação e caracterização sócio-familiar da criança, as suas rotinas de vida (gestão do tempo, das actividades, dos espaços e das actividades informais), a mobilidade da criança em meio urbano e a percepção e a representação dos espaços da cidade. xxxx ¤ A vida na cidade não possibilita a interacção pais-filhos em termos de brincadeira. Nos dias de escola, 49,5% das crianças refere “nunca brincar” com a mãe e com o pai, enquanto 43,4 % menciona “brincar às vezes”. No fim-de-semana, há 24,5% das crianças que afirma “nunca brincar” com a mãe e 20,8% dizem o mesmo em relação ao pai.xxxx ¤ As actividades mais realizadas em companhia da família são “passear e fazer compras de alimentos/ roupas”, para 56,6% das crianças; “passear” apenas é mencionado por 20,8%; e 13,2% vão às “compras de comida e roupas” e não passeiam.

 

 Quanto ao local onde gostariam de ir ao fim-de-semana, o mais referido é “parque de diversões”, para 15,1%, seguido, e com peso idêntico, por “passear” e ir à praia/piscina”; há 11,3% que afirmam querer sair de Lisboa; ir a “casa de família” e ir a “casa de amigos” é citado pelo mesmo número de crianças, com um valor igual a 9,4%. ¤ Relativamente ao convívio com amigos, 62,0% das crianças tem amigos da escola a viver perto da sua própria casa, mas, apesar desta realidade, apenas 37% convivem. A razão dada para o não convívio de 25% das crianças está relacionada com a não autorização dos pais e com o facto de ninguém as poder levar.

 

Os locais de eleição para a brincadeira e o jogo, nos dias de semana, são o recreio da escola e, ao fim-de-semana, o espaço doméstico. As meninas brincam mais durante todo o dia e os meninos têm uma maior variedade de comportamentos e escolhas lúdicas. As práticas desejadas estão relacionadas com o “ar livre” e com o “movimento corporal”. Mas estas não são iguais nos meninos e nas meninas. Enquanto estas preferem actividades de lazer e brincar, os meninos escolhem actividades desportivas e actividades que exijam mais força física. Independentemente do sexo, as crianças andam pouco a pé, conhecem a cidade através da viatura da família, brincam pouco durante a semana, quase não brincam na rua, o “brincar à descoberta”praticamente não acontece. Como refere Neto (1997, 1999), está a criar-se uma criança “corporalmente passiva”.

 

 

Bibliografia: Gomes-Pedro (1999). Stress e violência na criança e no jovem. Bronfenbrenner, Urie(1996). A ecologia do desenvolvimento humano: experimentos naturaise planejados. Porto Alegre, Artes Médicas Qvortrup, Jens (1998). Crescer na Europa – horizontes actuais dos estudos sobre a infância e a juventude. Braga, Instituto de Estudos da Criança, Universidade do Minho. Sarmento, Manuel & Pinto, Manuel (1997). ‘As crianças e a infância: definindo conceitos, delimitando o campo’. In Manuel Pinto e Manuel Jacinto Sarmento (Coord.), As crianças – contextos e identidades. Braga, Centro de Estudos da Criança, niversidade do Minho (7-30). Neto, Carlos (1999). ‘As crianças, o lazer e os tempos livres’. In Manuel Pinto & Manuel Sarmento (Coord.), Saberes sobre as crianças – Para uma bibliografia sobre a infância e as crianças em Portugal (1974-1998). Braga, Instituto de Estudos da Criança, Universidade do Minho (85-107). Golombek, Sílvia Blitzer (1993). A sociological image of the city through children’s eyes. New York, Peter Lang, American University Studies, series XI, Anthropology and Sociology, vol. 58. Lynch, Kevin (1982). A imagem da cidade. Porto, Edições 70.

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