“O euro tal como a Europa está à beira do abismo”. Entrevista com Jacques Delors. Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Aos visitantes, aos leitores de A viagem dos Argonautas

 

Depois do texto  de Harald Hau, um texto de Jacques Delors a que se seguirão outros, sobre o mesmo tema, sobre a mistificação operada pelos nossos políticos quanto à crise, sobre as suas causas, sobre as suas necessárias respostas. Um caminho a percorrer aqui vos proponho se quisermos entender o que em nosso nome nos estão a tramar. 

 

Um documento a não poder ignorar, a presente entrevista concedida por Jacques Delors ao jornal suíço Le Temps


Fala-nos da  Europa em ruínas, da Europa à beira do abismo, da Europa conduzida por homens politicamente incompetentes  que correm  o risco de fazer recuar a Europa décadas atrás. Mas nesta terrível hipótese não podemos esquecer que os tempos não são os mesmos e que em tal caso a fragmentação da Europa fará dela um continente de segunda ordem e à ordem quer dos mercados financeiros, mais ainda, quer das novas potencias que desta forma emergirão ainda com mais força.  Se nos fala de homens politicamente incompetentes, diremos que a subordinação destes à dinâmica dos mercados, com os efeitos devastadores que se estão  a ver, mostra que estes mesmos dirigentes tecnicamente não são ainda menos incompetentes. Basta ver o tempo que levaram para ajudar a Grécia. Deixaram depois, isolar a Irlanda. Deixaram depois, isolar Portugal. Deixaram depois isolar a Espanha. Deixaram depois isolar a Itália. Deixaram depois isolar as instituições financeiras francesas, levando-se à proibição, temporária apenas (!) e  deixaram a seguir  ameaçar a França que respondeu prontamente estar disposta satisfazer as pretensões dos mercados, mesmo que ninguém saiba quem eles são nem quais as   suas pretensões imediatas. Passo a passo, a caminho da Alemanha, então. Que  chamar a esta inércia? Crime, maldade, ignorância, oportunismo? Responda quem souber.


Que dirão desta entrevista, que dirão deste texto, os  nossos Durão Barroso, Passos Coelho, Cavaco Silva, Jean-Claude Juncker, Presidente do Eurogrupo e personalidade política importante de um paraíso fiscal, outrora siderurgia da Europa, o Luxemburgo,  que dirão dela, homens como  Teixeira  dos Santos e Santos Silva ideólogos  neoliberais de vertente dita socialista (?) que bem se cansaram a justificar o injustificável, que dirão dela os 95 por cento dos delegados do PS que com o pais moralmente em ruínas conduzido pela mão do seu primeiro ministro de então, José Sócrates, votaram de pé a sua reeleição, que dirão dela aqueles que agora se bateram pelos dinheiros públicos dos cargos da Caixa Geral dos Depósitos, sem que ninguém até questionasse as remunerações das banca que afinal todos nós pagamos, que dirão dela, deste socialista profundo que é Jacques Delors, a quem a Faculdade da Economia da Universidade de Coimbra concedeu o doutoramento honnoris, todos aqueles que agora querem conferir em Lisboa o mesmo grau ao Durão Barroso, ou será que a incompetência ou o crime de  a Europa estar a deixar destruir já é passível de doutoramento Honnoris causa? Proposto no tempo de Mariano Gago, dado que este está para as Universidades como Durão Barroso para a Europa, coveiros ambos  bem assumidos,  então nada nos espanta.  Mas uma pergunta: face a este texto que nos dirão os proponentes de Durão Barroso para esse tal título a que o propõem?


A terminar,  que nos  dirão ainda  deste texto  todos aqueles que  trabalham e que sentem que lhes estão a roubar o futuro até dos seus próprios filhos, que dirão dele, então,  todos os que pensaram e pensam  ainda numa Europa dos cidadãos?   


Portugal, Agosto de 2011.

Júlio Marques Mota

Entrevista a Jacques Delors:


 

 

 

“O euro tal como a Europa está à beira do abismo”

 

Por Richard Werly Bruxelas


Para Jacques Delors, “o euro tal como a Europa estão a beira do abismo”. Para Jacques Delors os dirigentes europeus continuam a ignorar o precipício que ameaça a moeda única e a construção da Europa. Recusar, nestas circunstâncias, uma indispensável cooperação económica reforçada abrirá o caminho para a desintegração do projecto comunitário.

 

Ângela Merkel e Nicolas Sarkozy poderão rever a sua obra: para o ex-Presidente da Comissão Europeia (1985-1994) que foi quem iniciou a criação do mercado único, a Chanceler alemã e o Presidente francês continuaram, na terça-feira em Paris, a formularem respostas insuficientes e nada claras sobre as questões colocadas pela crise. E isto, enquanto um forte e imediato aumento de cooperação, inclusive sob a forma de um mutualização parcial da dívida soberana na UE, é essencial para restaurar a calma e a confiança dos mercados.


P: Delors, será que acredita no futuro “governo económico” do euro, proposto por Ângela Merkel e Nicolas Sarkozy?


Jacques Delfos: Do que é que estamos a falar? De um empenho total e geral? De um novo dispositivo intergovernamental destinado a mostrar um mínimo de cooperação e a limitar qualquer transferência implícita de soberania? Desta maneira exactamente, isto não vai a lado nenhum. Prossegue o diálogo franco-alemão e disso eu estou contente, mas Merkel, mais uma vez, não fez nenhuma concessão sobre o fundo da questão. A outra ideia em voga, a de um ministro das Finanças da área do euro, é da mesma laia: Este seria uma criação sem qualquer interesse, um verdadeiro gadget. A diplomacia europeia funciona ela melhor desde o estabelecimento, pelo Tratado de Lisboa, de um pseudo “Ministro dos Negócios Estrangeiros da EU”? Abramos os olhos: o euro e a Europa estão à beira do abismo. E para não cair, a escolha parece-me simples: os Estados-Membros acordem realizar uma bem mais estreita cooperação económica, o que eu sempre reclamei, ou então transfiram competências adicionais para a União. A segunda opção foi rejeitada pela maioria dos vinte e sete, e resta portanto a primeira opção.

 

-Reforçar esta cooperação, quer isto dizer tomar decisões urgentes?


-Sim, em mutualizar parcialmente as dívidas dos Estados até 60% de seu produto interno bruto, o limite em conformidade com o Tratado de Maastricht. Isso deve ser feito ao nível dos 17 países da moeda única. Os Estados envolvidos estariam assim, cobertos por uma garantia parcial da União Económica e Monetária, com a consequência automática de fazer descer as taxas de juro. Eu sempre disse que o sucesso da Europa, no plano económico, assenta num triângulo: a concorrência que estimula, a cooperação que reforça e a solidariedade que une. É necessário passar ao plano dos factos. Porque se não o fizermos, os mercados continuarão a duvidar. Denuncio os rumores que fazem agitar as bolsas, mas sempre fui pragmático. No entanto desde o início da crise, que os dirigentes europeus têm estado a passar ao lado da realidade. Como podem eles pensar que os mercados vão acreditar na promessa da Cimeira da zona do euro, de 21 de Julho, se é necessário esperar até ao final de Setembro para ver resultados na prática?


Que responde aos apoiantes de opção inversa: uma reestruturação dura da dívida grega e uma eventual saída dos países mais vulneráveis da área do euro?


– Quem é o culpado? A Grécia sozinha? Não, não é verdade. Isto seria muito simples. A responsabilidade recai sobre os Ministros das Finanças da zona euro, que não solicitaram as contas públicas às autoridades em Atenas ou não solicitaram as necessárias auditorias reforçadas ao nível das estatísticas. Porque permitiu que a Espanha tenha deixado crescer o seu endividamento privado ou a Irlanda tenha favorecido indevidamente os seus bancos? Deviam ter sido tomadas medidas e não o foram, enquanto ao mesmo tempo, as instituições comunitárias, a começar pela Comissão Europeia, tem sido cada vez mais enfraquecidas. Sair a Grécia da zona euro teria, neste contexto de disfunção generalizada, minado ainda mais a moeda única. Quanto aos partidários, nos países mais afectados, de um retorno à moeda nacional este seria sinónimo de inflação e de desvalorizações, mas compreendo a sua posição e a sua esperança numa competitividade reencontrada. Mas quem pode prever que o dracma grego reencontrará uma boa situação de equilíbrio? Eu estou convencido de que o empobrecimento generalizado que resultaria da saída da moeda única será maior do que os benefícios desta mesma saída. Por fim acrescento uma declaração política: o euro é uma aventura. Aventura colectiva, Esta foi mal gerida, Que esta seja então corrigida, mas que continuemos juntos.

 

-Outras propostas estão em cima da mesa, tais como o reforço da capacidade de empréstimo do fundo europeu de estabilidade financeira ou a criação de euro-obrigações…


-O Fundo de estabilidade, que se tornará permanente em 2013, é uma coisa boa e eu também apelo fortemente para o lançamento separado das euro-obrigações para financiar somente projectos portadores de futuro. Imagine-se o que um grande empréstimo de 20 mil milhões de euros dedicado à inovação poderia trazer à Europa como um estímulo! Mas nós estamos, mais uma vez, hoje, à beira do abismo. É preciso bombas de incêndio e arquitectos para a reconstrução. A mutualização parcial das dívidas, é a bomba para apagar o fogo e para dar um sentido à cooperação comunitária. Os Estados-Membros, devem simultaneamente levantar as suas últimas objecções para os seis projectos de orientações sobre a governação económica, de que o Parlamento Europeu logicamente endureceu o conteúdo para tornar mais automáticas as sanções para os casos de derrapagem orçamental


– Isto não impede: os decepcionados do euro são hoje Legião, os alemães não estão dispostos a pagar. A desintegração é perceptível. Esta realidade inquieta-o?


-Repito: a responsabilidade por esta crise é colectiva e, portanto, é necessário, para sair dela, uma vontade e uma força de ferro. O risco actual é de que os 17 países membros do euro, em que a atenção se concentra, paralisem o projecto europeu. A Europa tem enormes desafios: o modelo das suas futuras relações com os Estados Unidos ou com a Rússia, as negociações comerciais globais, a implementação de um novo modelo de crescimento “verde”, o seu alargamento nos Balcãs, as discussões com a Turquia à qual  sempre senti que ele não se deveria nunca dizer “um não definitivo “. Não se enfrenta uma tal situação com meias medidas. Também é necessário saber, como eu tinha a reputação de saber, bater com a porta e dizer “basta!” Os outros dirigentes europeus, começando pelo Presidente da Comissão, têm de lutar, têm de se bater por estas cooperações reforçado no plano dos factos, como a mutualização parcial das dívidas, de que Ângela Meckel não quer ouvir falar e Nicolas Sarkozy não tem a coragem de pedir para sobre isso ser ouvido. É necessário, especialmente, falar aos alemães e compreendê-los. Eu gosto da Alemanha. A sua economia social de mercado, o dinamismo globalizado das suas PME, o seu regime parlamentar avançado, o seu federalismo que se impõe, como na Suíça, a subsidiariedade e gera uma democracia ” ao alcance da mão” são hoje referências. Mas isto não é uma razão para recusar as concessões necessárias para se continuar a viver juntos.


-Pior cenário: o seu apelo não ser entendido. A Europa cai no abismo?


– Eu não posso afastar este risco. É real. Tentar-se-á salvar a face, substituindo a actual União por uma grande zona de comércio livre. Teremos um grande mercado – com buracos! – em vez de uma grande Europa. Eu bem sei naturalmente, ao dizê-lo, que me responderão que as circunstâncias mudaram desde a minha partida. Com o que eu concordo. A minha estadia em Bruxelas foi mais fácil. Não havia, como há hoje, este fortíssimo e problemático aumento do individualismo que põe em causa as aventuras colectivas, este confronto entre o local e o global que alimenta os medos e os nefastos nacionalismos, ou esta ditadura do instantâneo que não tem em conta o tempo político necessário. De acordo. Mas que fiz eu, senão convencer os meus interlocutores Helmut Kohl, François Mitterrand ou Margaret Thatcher? A minha proposta, face ao declínio europeu, foi a de propor um mercado único para estimular as economias. E foi um verdadeiro estímulo para o crescimento e para o emprego. É imperativo, para evitarmos o abismo, manter uma visão geopolítica para um arco de tempo até 2050, propor um projecto mobilizador e especialmente querer uma Europa forte e unida no mundo.

 

© 2011 Le Temps SA

 

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