A crise, a Europa, e o Mediterrâneo . 19- Jean-Paul Guichard (traduzido e enviado por Júlio Marques Mota)

(Continuação)

 

c) A situação crítica da Europa

 

Estes últimos países  tem estado a ter  fortes défices do seu comércio externo, em que muito dificilmente  se vê por que meios , dentro da eurozona, poderão estes défices serem reabsorvidos. Estes défices determinam, por seu lado,  défices orçamentais cada vez mais marcados e uma dívida externa considerável e a tal ponto que  este facto foi tomado como uma razão de ser dos ataques especulativos, uma das razões que alimentaram  a desconfiança dos mercados: os credores começaram claramente a perceber  que não podiam continuar a financiar mais a dívida grega! Muito classicamente, a política de austeridade instaurada e as restrições orçamentais não resolvem coisa nenhuma , conduzindo antes a uma degradação  da recessão  que por seu lado reduz as receitas públicas e condena assim à ineficácia todo e qualquer  plano suplementar de restrição orçamental. de plano de austeridade para plano de austeridade e numa sequência  que parece não ter fim, como se tem visto. Muito classicamente também, os credores exigem “fazer-se pagar sobre o burro de carga ” e  pedem que o Estado grego privatize  certos activos públicos para poder honrar as suas dívidas[1] .

É de facto necessário ver que, nas condições actuais, a eliminação dos desequilíbrios macroeconómicos  da Grécia é rigorosamente impossível devido à sobre-avaliação da  sua moeda  (o euro: relativamente relativamente à todas as moedas em geral e em particular relativamente  ao dólar e, com mais força de razão, ao yuan); a Grécia encontra-se assim na mesma situação que a Argentina nos anos 1990 que tinha, na  época, um sistema de paridade fixa  com o dólar, inscrita aliás na Constituição, em que um peso tinha o valor de um dólar : esta situação tinha colocado  o país numa espiral infernal  de défice comercial externo e défice orçamental, com o primeiro défice a ser a causa determinante do segundo défice, o défice público; conhece-se a sequência: a Argentina tinha de reestruturar da sua dívida e tinha que  renunciar ao seu regime de câmbio para reencontrar o seu crescimento. Fala-se já, para a Grécia, de uma reestruturação mais ou menos disfarçada da sua dívida: chegará necessariamente um momento em que será  necessário reexaminar a sua taxa de câmbio, ou seja, de  encarar a sua saída da zona euro.

A situação de Portugal também não é  melhor, como de igual modo não o é a situação de Espanha. [2]… Mas, Mas sabemo-lo todos,  a situação da Itália ou a da França também estão elas numa situação preocupante:  de resto já se levanta a questão  da sobrevivência  do euro na medida em que aquilo a que nós chamamos  “a crise Grega” – e que é , na realidade  a crise do euro – se pode  estender, por um efeito de dominó, a Portugal, à Espanha, à Itália… e à  França; de  resto, as agências internacionais de notação degradaram fortemente, nestes últimos tempos, as notas de alguns destes países…

As políticas de austeridade das quais se pode garantidamente afirmar  que serão incapazes de resolver os problemas  que é suposto enfrentarem irão elas sim  suscitar   protestos cada vez mais vigorosos, à medida das recessões adicionais que elas  geram e em países desestabilizados   que estarão cada vez mais ingovernáveis.

 

 

(Continua)

 


[1] De lembrar que no número de credores  do Estado grego há não somente bancos alemães ou franceses ( em especial La Société Générale)   mas também…  o próprio Estado chinês.

[2] As manifestações do mês de Maio em Esspanha, mostram à evidência que a política de austeridade,  com uma taxa de desemprego a ultrapassar  os 20 % da população activa, passa com muita dificuldade.

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