Das boas intenções – Marcos Cruz

(Adão Cruz)

 

A escrita, como qualquer actividade criativa, deixa um lastro vivo que se vai desenvolvendo dentro e/ou fora do criador. Eu, por regra, escrevo e sigo em frente, mas excepcionalmente posso encontrar no processo de escrita uma centelha solta, deslocada do contexto, e então comprometo-me com ela a resgatá-la ao corpo estranho em que se encontra e a dar-lhe nova casa. Aconteceu-me isso a meio de um dos últimos textos que escrevi, a respeito da violência do pensar, quando ressalvava, antes de abordar uma reflexão publicada por um amigo, que “a aventura interpretativa pousa sobre alguns dos ramos mais finos da árvore intencional”. Dei-me então conta, e desculpem desde já, primeiro, o autoconvencimento (quem sabe, cabotino) e, depois, o aparente narcisismo, de que tinha criado uma metáfora de raro brilho, pelo menos no meu universo metafórico. De facto, a intenção é uma árvore, há toda uma raiz na sua base e um tronco denso que se expõe numa ramagem diferenciada e mais sensível à medida que se estende, que o seu alcance é mais subtil, mais delicado, mais profundo. Já a interpretação é um pássaro que provoca efeitos distintos consoante a resistência da parte do ramo em que pousa e a intensidade com que o faz. Se esta for maior do que aquela, o pássaro quebra o ramo, magoa a árvore, mutila-a, e ele próprio não sai ileso, já que se assusta e tende a cair, embora possa recuperar o equilíbrio no voo. Mais do que a eventual beleza da metáfora, interessou-me, porém, a sua utilidade, num tempo em que nos atiramos uns aos outros munidos das mais incendiadas certezas, como quem come sopa em prato raso, e com a nossa fome de imediato, de explicação, nos elefantizamos, nas patas e na memória, devastando o que falta da porcelana do mundo. Podem interpretar este texto como arrogante, mas não era essa a minha intenção.

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