A propósito de um texto de Stiglitz, a propósito de um texto de Delors, a propósito de um texto de Martine Aubry e de muitos outros também, por Júlio Marques Mota

Leiam amanhã, dia 31, n’A Viagem dos Argonautas, também às 12 horas, o texto de Joseph Stiglitz, “Como evitar uma longa letargia da economia?”

 

Aos visitantes, aos leitores de A viagem dos Argonautas aqui vos deixo um texto de Joseph Stiglitz, prémio Nobel da Economia, antigo Conselheiro-Chefe de Clinton, ex-Vice-presidente do Banco Mundial, de que foi demitido por pressão da ala direita da equipa de Clinton. Um telefonema ao Presidente do Banco Mundial de então e a seguir a saída de Stiglitz. Curiosamente, e cito de memória, a pressão ia ao detalhe de um secretário de Estado, Lawrence Summers, mais tarde conselheiro chefe de Obama, ter ele próprio manifestado o seu forte desagrado porque Stiglitz em dois cartazes sobre conferências a realizar nesta Instituição de Bretton Woods, a realizar no Banco Mundial estava em maior destaque de que o responsável mor de então pela liberalização forçada que se realizou na zona ex-comunista, Jeffrey Sachs. Por curiosidade é agora a Europa Ocidental que por via da crise da dívida soberana está a ser sujeita também ela a uma privatização apressada, em saldo mesmo, das jóias da sua coroa e para isso veja-se a Grécia, veja-se Portugal. Curiosa coincidência, diremos.


Peço antecipadamente desculpa se há por aqui alguma imprecisão, pois estou de férias, algures à procura de ver e ler uma boa notícia sobre esta Europa que um conjunto de políticos que, de tanta ignorância, de tanta incompetência, de tanta inconsciência, de tanta subserviência aos mercados financeiros e aos que deles vivem, para nada mais sobre eles dizer, me parecem estarem a deixar destruir e que assim estão a conduzir à destruição todo um trabalho de construção europeia que levou décadas a realizar. Por isso mesmo devem ser julgados e bem condenados pelo único tribunal aceitável, o das eleições, mas para isso é necessário o empenho de todos nós sobre o muito mau trabalho que têm andado a fazer. Aliás, sobre estes nossos dirigentes pelo voto de toda a gente nessa situação colocados, julgamos claramente poder afirmar que à custa de tanto se quererem curvar em frente das agências de rating à procura do tão almejado triplo A, se poderá dizer que nada mais merecem que um triplo ZERO, como muito bem o sublinhou Cohen-Bendit. Um exemplo bem recente vem-nos de Espanha, de onde, segundo o provérbio não vem nem bom vento nem bom casamento. Bom vento todos o sabemos que não, vento suão, vento da meseta e quanto ao bom casamento, Zapatero na corrida à submissão aos capitais corre mais depressa do que corria Sócrates, corre talvez à mesma velocidade de Passos Coelho. Veja-se a proposta de revisão constitucional a querer colocar o limite do défice do Estado espanhol em 0,26% em 2020. Um projecto destes quando a Espanha se debate com uma fortíssima taxa de desemprego, de 21% em Junho de 2011, é rigorosamente querer manietar o Estado espanhol, privá-lo de toda a capacidade política, ou será que assim deixa de poder ser criticado, porque de gastador, argumento de direita, passa a não poder chamado? Acalmar os mercados é a resposta: nós pedimos à Europa para darem pequenos passos, e nós devemos dá-los também, dizem-nos os seus líderes, dizem à direita, Rajoy, dizem-nos os socialistas espanhóis que à esquerda querem continuar a ser considerados. E, porque não, procurarem acalmar antes os milhões de desempregados, os milhões em situação de precariato? E porque não preocuparem antes com a elevada taxa de trabalho precário, na casa dos 40%, creio. Não, isso não, e a prová-lo suspende-se uma lei de 2006 que impunha às empresas que passassem a contratos de duração indeterminada os contratos de duração determinada com que tinham empregado os seus trabalhadores durante vinte e quatro meses dos últimos trinta meses. Lei suspensa, em nome dos mercados. Justificação dada pelo ministro do trabalho Valeriano Gomez: “nós preferimos um contrato temporário ao desemprego”, mas a questão está aqui claramente deslocada, porque não se deve tratar de optar entre trabalho precário ou desemprego, mas sim de se poder optar entre trabalho de duração indeterminada ou trabalho a duração determinada, o trabalho precário. Mas o governo espanhol, na urgência prefere a reforma constitucional no sentido acima dita. Bom vento de Espanha não vem e agora, pela mão de Zapatero ou Rubalcaba, seu sucessor no PSOE, bom casamento também não virá com o nosso ministro que ignora até o que é ser-se neoliberal!

 

Aqui vos deixo um texto bem claro de Joseph Stiglitz sobre a crise actual e que sem forçar a nota me parece este texto mostrar que os nossos comentários feitos aos nossos políticos de hoje, que os adjectivos que lhes colocámos, quer no texto de Jacques Delors quer na espécie de bilhete-postal que enviado não será ao Álvaro Santos Pereira, ao nosso Ministro da Economia, só aparentemente são termos muito duros e que não estão nada desajustados, antes pelo contrário, pecam por defeito, face ao drama que aos olhos de todos nós se está a desenrolar e com uma fortíssima factura que, essa, seremos também todos, e não eles, que a iremos pagar. 

 

Leiam-no e digam-me se não tenho razão.

 

Faro, 28 de Agosto de 2011

 

Júlio Marques Mota

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