“Algumas considerações sobre urbanismo e saúdemental” *- João dos Santos – por Clara Castilho

 

Es relações entre o local onde vivemos e a saúde mental sempre preocuparam o psicanalista João dos Santos e, ao longo da sua obra podemos ver várias referências.No entanto, neste seu texto estão sistematizadas.

 

O autor faz, ao longo de todos os seus escritos, muitas referências à sua vida pessoal e ao locais por onde foi passando. Da infância conta o bairro onde brincava na rua, a vida no liceu, o campismo com o pai, etc. E é destas memórias de infância que parte para concluir que só um urbanismo integrado na natureza e facilitador da relação entre pessoas e grupos pode possibilitar um contacto da criança com a família e a comunidade propiciador de segurança.

 

E sobre isto diz ele:“… os homens serão mais saudáveis … se a criança tiver acesso à natureza e a escolha lhe for também acessível, se todos tiverem um local para se isolarem e muitos para se juntarem, dialogarem e conhecerem… se a urbe tiver uma estrutura e uma organização à escala do homem, se a cidade for ao mesmo tempo ou no seu conjunto a “escola pensante” e o “Templo””.

 

. Continuemos: “Das grandes cidade se diz com frequência que são a selva e, com efeito, o meio ambiente tornou-se tão hostil para o individuo, e sobretudo para as crianças e adolescentes, que alguns sentem a necessidade de retornar à Natureza, de se evadir para os campos, de se constituir em grupos familiares isolados, para se defenderem, como no passado longínquo da origem da humanidade, da violência e da agressividade dum meio ambiente ameaçador “.

 

Quanto ao desenvolvimento infantil e à segurança a ele necessária aponta 6 factores de que depende:

 

“- ruas onde se possa passear e descobrir o que é necessário para a existência; – contacto fácil com a natureza; – locais pitorescos que quebrem a monotonia das ruas; – locais para actividades colectivas; – espaço limitado e isolado para a própria intimidade; – recintos para a contemplação e manifestações artísticas” .

 

 Neste texto, João dos Santos homenageia três arquitectos – Buckminster Fuller (1895-1939), Le Corbusier (1887-1965) e Louis Khan (1901-1974). E em 1975 , no texto “Higiene mental na escola em situação revolucionária” ( não publicado), afirmou: “Saúde não é apenas medicina, saúde mental não é igual a psiquiatria”. Mais tarde, num outro documento, não publicado (“O corpo a forma e o conflito” – 1978) relembra: “O desenvolvimento da criança implica que progressivamente alargue o seu conhecimento do espaço, do mundo e das pessoas. Se o meio exterior for ameaçador e violento, isto fica comprometido. E pior, se a casa não for uma referência securizante”.

 

Chama aos construtores que só olham a lucros “patos bravos que, com a benevolência das autoridades, destroem os espaços verdes onde as crianças se podiam expandir e aprender, sobrepondo-lhes cimento sobre cimento para fazerem arranha-céus que as afastam do mundo real” .

 

No seu livro “A Caminho de uma utopia”( 1982, pg 65) define assim o urbanismo: …“ o urbanismo parece-nos ser essencialmente a organização de certos espaços geográficos onde os homens acumulam, experimentam e aperfeiçoam as coisas, instrumentos, objectos e ideias que defendem o património comunitário mais precioso: ritual e conhecimento” .

 

 *texto publicado na revista “O Tempo e o Modo, 1966

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