Visita – Ethel Feldman

 

Abriu a porta. Do lado de lá um sorriso deixava adivinhar boa gente.Abriu a janela para arejar a sala. Ofereceu a poltrona do avô.

 

Pediu que se acomodasse enquanto ia à cozinha buscar chá quente do Himalaya. Aquelo rosto era familiar. Reconhecia em seu corpo, abrigo.

 

Todos as manhãs preparava um chá para quem pudesse aparecer no fim da tarde com frio. Anos a fio, bebeu o chá sozinha.

 

Sentada em frente à poltrona vazia, aquecia as mãos na chávena de chá. Olhava o vazio. Enrolada na manta, lembrava de nada.

 

Não conheceu o dono da casa, seu avô. Inventou que a poltrona teria sido dele  e respeitou essa propriedade sem nunca lá se sentar.

 

A despensa estava cheia de bolachas de canela e gengibre. Quando saía para as compras comprava sempre um pacote, não fosse a casa ficar cheia de gente e faltarem as bolachinhas na hora do chá. Abriu um pacote, esqueceu de verificar que a data de expiração já era de há cinco anos. Pouco importa a data agora. As bolachinhas velhas ainda estavam crocantes.

 

O tempo dita o limite da vida. É tão curto o tempo de agora. Já quase nascemos fora de prazo.

 

Da janela da cozinha sentiu a brisa fria do mar. As gaivotas anunciavam peixe morto na beira-mar. A noite estava próxima e corria o risco de passar a hora do chá.

 

Numa bandeja de prata colocou o bule herdado da casa, as chavenas brancas a lembrarem papel de arroz, um pratinho sem cor repleto de bolachinhas. Umas mais doces, outras picantes.

 

Ajoelhou-se delicadamente como se seu corpo tivesse perdido o peso. Serviu o chá. Ofereceu ao visitante uma bolacha fora de prazo.

Em frente, sentou-se. Abraçou com as mãos a sua chávena. Enrolou-se na manta velha da casa. Esperou.

 

Sorriu. Largou a vontade. Notou o cansaço. Sentou-se criança. Partiu.

 

Dizem que a morte aparece sem avisar.

 

 

Ethel Feldman, nasceu em Outubro de 1954. Filha do escritor Fernando Correia da Silva e da pianista Rosa Feldman da Silva. Deixemo-la apresentar-se com palavras suas:

 

Com os pais aprendeu a viver.

Durante anos trocou as escalas e deu conta de que não herdara o talento da sua mãe.

Com ela aprendeu que o dó se toca de infinitas formas – tantas quantas a vida ensina.

 

Com o pai ficou a saber que há quem junte letras e conte uma história. E as do pai eram sempre adoráveis.

Achou que o melhor era ser pintora. Mas a vida deu-lhes as voltas e nunca foi nem uma coisa nem outra. Ficaram um desenhos no armário. Ficou a vontade de ser.

 

Hoje escreve porque não sabe fazer bem outra coisa. Nunca editou. Nem sabe como isso se faz. Tem um blog, ganhou um prémio de contos e mais não conta porque o resto adivinha-se.

 

2 Comments

  1. Que ascendência, que herança, que poesia corre nessas veias de artista! Quanta admiração transborda de mim por um ser quase perfeito, quase perfeitoAdriano

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