Entre o Eden e o Inferno I – Carlos Loures

 

 

Carlos Loures  Entre o Eden e o Inferno I

 

 

Como num bizarro parque temático, entre o Paraíso e o Inferno, fica o Jardim das Delícias Terrenas. No entanto, o título do famoso tríptico de Hieronymus Bosch, que podemos apreciar no Museu do Prado, em Madrid, não foi por ele atribuído à obra. Ter-lhe-á talvez chamado “Uma pintura sobre a variedade do mundo”. A seguir, foi designado pelo monge José de Sigüenza como o “Cuadro de las fresas” – Quadro dos morangos –  alusão aos frutos que enxameiam a tábua central – mais do que agora, os frutos sugeriam imagens libidinosas. «Comer fruta» na linguagem medieval, além da acepção mais imediata e inocente, tinha um sentido de comércio carnal. Só em 1912 um catalogador lhe dá um nome próximo do actual – tríptico dos “Deleites Carnais”. Daí sai a sua denominação actual de “Jardim das delícias” ou “Das delícias terrenas”.

 

Durante a Guerra Civil foi transferido para o Museu do Prado em 1936, ficando depois da vitória franquista integrado no espólio do museu sob a actual designação – Jardim das Delícias Terrenas. É uma obra maravilhosa e fascinante. Quando vou ao Prado, fico em frente deste prodígio da arte e descubro sempre pormenores novos.

 

Diga-se que  o termo “delícias” ou “deleites” deve aqui ser assumido num registo irónico, condenatório talvez – por “delícias” o religioso e o funcionário do museu que crismaram a obra deviam entender os pecados e as tentações que permitem viajar do paraíso, representado no postigo da esquerda, onde reina a inocência, para um inferno que, no postigo da direita, Bosch pintou com imagens que parecem ter sido arrancadas a horríveis pesadelos, mas que nas caves do Santo Ofício em breve se tornariam realidade. Antes de vos falar no quadro, gostava de vos alertar para uma constante da condição humana – a de que a ignorância é quase sempre arrogante.

 

Quando nos rimos dos trajes arrebicados da aristocracia europeia do século XVIII ou dos saltinhos que as personagens dos filmes de há cem anos pareciam dar (porque só em 1929 se passou dos 16 fotogramas por segundo para os 24 que permitem reproduzir com mais rigor os movimentos), estamos a dar largas a essa arrogante ignorância. Não nos ocorre que daqui por umas décadas tudo o que fazemos e usamos provocará gargalhadas aos vindouros – telemóveis, computadores, DVDs, as roupas, os comportamentos, tudo isso fará rir os arrogantes estúpidos, bisnetos ou trinetos, dos actuais pobres de espírito. Na verdade, a natureza humana é imutável e a «evolução das mentalidades» é uma falácia introduzida por sociólogos respeitáveis (mas que nem por isso não deixa de ser uma falácia).  As mentalidades não evoluem, adaptam-se. Evolução significaria pessoas mais inteligentes de geração para geração. «Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades» – Neste simples verso, Camões descreveu melhor essa mudança comportamental do que os sábios sociólogos.

 

 

Onde quero chegar é à conclusão de que ao longo da História da humanidade, tempos houve tão ou mais complicados e traumáticos do que o nosso. A passagem do século XV para o XVI, da Idade Média para o Renascimento, foi uma dessas transições dolorosas. Um mundo que se supunha ter o umbigo no Mediterrâneo e umas adjacências para lá da Europa, do Norte de África, das Índias, começara subitamente a crescer. Os Descobrimentos alargavam-no de viagem para viagem, de mapa para mapa. A relação dos homens com Deus era posta em causa. A imprensa, com incunábulos substituindo os códices, começava a expandir-se – a palavra de Deus, que até então sempre fora divulgada pelos padres, podia agora chegar, graças ao milagre da «imprimissão» directamente do produtor ao consumidor, sem intermediários.

 

Tanta mudança assustava as pessoas. Até porque, à mistura com estas fascinantes e, ao mesmo tempo,  aterradoras novidades, apareciam as profecias de que o mundo acabaria em 1500. Porque quando se fala em transposição da Idade Média para o Renascimento, sabemos que ela não se fez simultaneamente em todos os estratos da sociedade – nos campos a medievalidade prolongou-se, em alguns aspectos quase até aos nosso dias. O advento da Nova Idade foi fenómeno de elites intelectuais, sendo que esses mundos paralelos interagiam, intercomunicavam – um camponês analfabeto, se por ignorância incorresse numa heresia, poderia ser entregue ao inquisidor – saltando do seu mundo feito de rotinas ancestrais para uma modernidade onde deixava de ser um homem para passar à condição de insecto dissecado por entomólogos. Este terror que se colava ao quotidiano dos homens comuns, não podia deixar de ter reflexos nas artes e na literatura. Dito isto, falemos então de Hieronymus Bosch e do seu Jardim das Delícias Terrenas.

 

Hieronymus Bosch foi o pseudónimo de Jeroen van Aeken, pintor e gravador neerlandês nascido cerca de 1450 e que viveu até 1516. Terá a sua obra sido influenciada por pintores como Albrecht Dürer ou Matthias Grünewald.   Diz-se que, por seu turno, a sua pintura terá sido uma das fontes de inspiração para alguns pintores surrealistas – talvez do ponto de vista formal, Max Ernst e o frívolo Salvador Dalí tenham colhido alguma inspiração em Bosch. Talvez haja ainda outro ponto de contacto, pois o sonho assume um papel central na dinâmica do surrealismo e, em Bosch, os mecanismos inconscientes do sono, conduzindo a pesadelos, constituem também um fulcro temático recorrente. Disse-se que o pintor flamengo pertencia a uma das proliferantes seitas que se dedicavam às ciências ocultas, ao satanismo,  nelas adquirindo conhecimentos sobre os sonhos. Diz-se também que se interessou pelo estudo da alquimia. Foram rumores como este que o levaram aos cárceres da Inquisição.

 

Na realidade, é intrigante como é que há quinhentos anos um artista pintou com tamanha fantasia e ironia. Um prodigioso poder de observação e uma capacidade técnica inexcedível, permitiram-lhe retratar com um rigor que podemos considerar científico as esperanças e sobretudo o medo dos seus coevos. E não podemos recusar a hipótese de uma obra como o Jardim das Delícias Terrenas funcionar como elemento dissuasor da libertinagem. Um derradeiro bastião da moral reinante, um aviso à navegação – quem não se portar bem…

Em seguida, iremos analisar o tríptico e procurar descodificar algumas das suas mensagens.

 

(Continua)

 

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