Revoltas e rebeliões – de Fernão Lopes a Ortega y Gasset – por Carlos Loures

  

Os povos são conduzidos ao pasto, ordenhados, abatidos, como rebanhos dóceis, até ao dia em que, por qualquer equívoco, se revoltam. Têm uma força cuja magnitude desconhecem, são como um tsunami que leva tudo à frente. É uma realidade que os senhores esquecem e que, por vezes, os apanha de surpresa.

 

Com a linguagem viva, colorida e, sobretudo, arguta que caracteriza as suas crónicas, Fernão Lopes descreve-nos como, num dia de Dezembro de 1383, o Mestre de Avis e o seu partido ( liderado por Álvaro Pais – «homem honrado e de boa fazenda») – após terem morto o conde de Andeiro, tentaram manipular o povo de Lisboa: «Os outros quiseram-lhe dar mais feridas, e o Mestre disse que estivessem quedos e nenhum foi ousado de lhe mais dar. E mandou logo Fernando Álvares e Lourenço Martins que fizessem cerrar as portas que não entrasse nenhum, e disseram ao seu pajem que fosse à pressa pela cidade bradando que matavam o Mestre, e eles fizeram-no assim».

 

No plano do Mestre e seus partidários, o papel destinado aos mesteirais e à arraia-miúda na conjura era o de figurantes. Sabia-se que a multidão, supondo o Mestre em perigo, acorreria ao paço, impedindo que sobre ele se exercessem represálias pela morte do conde de Andeiro.

 

Assim foi: o povo acorreu de todos os lados, ameaçou incendiar as portas e só se aquietou quando D. João surgiu a uma janela, agradecendo as aclamações da multidão, pediu aos populares que regressassem a suas casas, pois «não havia deles mais mister». Cumprido o seu papel, podiam abandonar a cena. Foi a partir daqui que o plano urdido por Álvaro Pais falhou – a população amotinou-se, linchou o bispo de Lisboa que, recusando-se a mandar tocar a rebate os sinos da Sé, foi considerado implicado na falsa conspiração contra a vida do Mestre. A insurreição alastrou e não se conseguiu evitar o assalto às casas dos judeus e dos ricos da cidade. Como um grande incêndio começado por uma brincadeira com fósforos, a intriga palaciana deu lugar a uma incontrolável Revolução. E não se pode pedir a um tsunami que actue com justiça e ponderação – tudo o que estiver no seu caminho, é destruído.

 

La rebelión de las masas, é a obra mais conhecida do grande pensador espanhol José Ortega y Gasset (1833-1955). Foi publicada pela primeira vez em 1930 na Revista de Occidente, da qual Ortega y Gasset era fundador. É uma obra de uma extraordinária profundidade, onde surge o inovador conceito de «homem-massa». Sendo que este ser humano que recusa a originalidade, proclama a vulgaridade como valor, elevando-a mesmo a categoria suprema. Contudo, não me vou embrenhar no labirinto da sua filosofia, pois corria o risco de, como costuma acontecer nos labirintos, nele entrando, não saber como sair. A não ser que, como Teseu, usasse um novelo de Ariadne, para encontrar a saída. Pelo sim, pelo não, faltando-me o novelo, fico-me pelo sugestivo título.

 

Um dos pressupostos revolucionários que nos chegam do século XIX, é o do papel revolucionário das massas. Está por provar que essas massas proletárias, nomeadamente os operários e os camponeses, contenham a carga revolucionária que, não digo os teóricos, mas os activistas políticos lhes atribuem. Não me lembro de nenhuma das revoluções que se verificaram no século XX ser liderada por um proletário – Lenine nasceu numa família da classe alta, Estaline foi um seminarista, Mao um bibliotecário filho de camponeses abastados, Fidel um advogado proveniente de uma família importante de Havana, «Che» um médico… As massas não produzem os seus líderes, eles vêm da aristocracia ou das instituições escolares da burguesia, onde recebem a formação e ganham, inclusive, a consciência de que é necessário extinguir a injustiça social que os beneficiou. Mas as massas são sempre invocadas – Não disse usadas –(ainda). É em seu nome que as revoluções se fazem. A ideia não é nova.

 

Mais próxima de nós, a Revolução Francesa mostra-nos igualmente como a burguesia ilustrada, impaciente por tomar o lugar da moribunda aristocracia, se serviu das massas populares, envolvendo-as numa trama onde esperavam ser protagonistas, reservando ao povo o habitual lugar de figurante. Sob o barrete frígio da Liberdade, Igualdade e Fraternidade, ocultavam-se interesses económicos e ambições políticas da emergente burguesia. Sabemos o que aconteceu. O animal tomou o freio nos dentes e muitos dos que esperavam tomar o poder, ficaram com a cabeça cortada. Só Napoleão conseguiu domar a fera enraivecida. Quando se envolve o povo, as massas, numa revolução e se diz que ele é o protagonista, existe sempre o perigo de que ele acredite. Como aconteceu em Lisboa, em 1385.

 

Em Abril de 1974, os feiticeiros das tribos convocaram o grande Manitu, o povo. O povo acreditou que ia mesmo tomar o poder e durante 18 meses foi o PREC… até que em 25 de Novembro se voltou «à normalidade». Sempre que o povo acredita nos feiticeiros, avança e derruba os tronozinhos dos santos que encontra pelo caminho. Como os actores que representam sem ter estudado o papel, é gente que, não tendo lido os manuais, os teóricos, os grandes filósofos, não sabe como comportar-se em cena e às vezes até dá cabo dos cenários. Ignora o que deve fazer nas revoluções, mesmo sendo supostamente o protagonista – o papel destinado às massas tem sido o de seguir os grandes líderes.

 

E não há maneira de o povo aprender…

 

Querendo evitar-se a balbúrdia de verões quentes, a chamada «democracia representativa» foi criada para impedir que as massas intervenham na cousa pública, metendo o nariz onde não são chamadas. A democracia representativa é uma espécie de democracia asséptica – ama o povo, mas não lhe suporta o cheiro.

 

 

 

Carlos Loures nasceu em Lisboa em 1937. Entre 1958 e 1960 coordenou a revista Pirâmide, onde   

colaboraram numerosos escritores, na sua maior parte ligados ao movimento surrealista:

Mário Cesariny de Vasconcelos, Luiz Pacheco, Herberto Hélder, Pedro Oom, António José Forte, etc.

 Ali se publicaram também inéditos de Raul Leal, figura do «Orpheu», e de António Maria Lisboa.

Em 1962 publicou o primeiro livro de poemas, Arcano Solar , com visível influência surrealista.

Em 1967, foi editado, A Voz e o Sangue, violento libelo contra a ditadura que lhe valeu seis meses

de prisão. Em 1970, saiu a colectânea  A Poesia Deve Ser Feita Por Todos, também apreendido

pela polícia política. Em 1990 foi editado, O Cárcere e o Prado Luminoso, com prefácio de

Manuel Simões.

 

 

Em 1985 estreou-se como ficcionista com Talvez um Grito, novela distinguida pelo júri do Prémio Diário de Notícias. Em 1995 publicou A Mão Incendiada. Em 2008, A Sinfonia da Morte. Nas próximas semanas, será lançado um quarto romance, O Xadrez sem Mestre. Editor (diplomado pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa), dedica-se actualmente à actividade literária em tempo inteiro.

 

 

 

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A canção de hoje é de Sérgio Godinho e todos a conhecem – Que força é essa? É uma pergunta que de certo modo responde à questão que levanto no texto.

 

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