OS HOMENS DO REI – por José Brandão – 2

D. AFONSO HENRIQUES (reinou de 1139? a 1185)

 

Terá nascido em 1109. Filho de D. Teresa e do conde D. Henrique

de Borgonha era ainda neto do poderoso D. Afonso VI imperador

de Leão, Galiza e Castela. O primeiro rei de Portugal, ou seja, aquele

infante que, em dado momento do séc. XII, decidiu intitular-se a si

próprio rei e obteve pouco a pouco o reconhecimento da independência do condado que governava, é um personagem cuja história e feitos impressionaram visivelmente a imaginação dos seus

contemporâneos e sobretudo a imaginação das gerações que se

seguiram. O acto por que o jovem Afonso Henriques inicia a missão em que empenharia, não apenas energias de guerreiro, mas também

sagacidade e espírito, foi o de, em 1123, se armar cavaleiro em

Zamora. D. Afonso VII, seu primo, rei de Leão e Castela, ante as

primeiras manifestações de rebeldia do jovem príncipe dos

Portucalenses, veio cercá-lo a Guimarães, na intenção de abafar à

nascença aquela ameaça contra a sua suserania.

 

 

 

Depois deste primeiro conflito com o primo, seu soberano, ocorre o que vitoriosamente sustenta contra a mãe, no campo de S. Mamede. Como D. Teresa, depois da morte do marido, se tivesse ligado ao fidalgo galego Fernão Peres de Trava, e muitos fidalgos galegos fizessem parte do seu séquito, o que era contrário à ideia da separação da Galiza, D. Afonso Henriques resolveu combatê-los. Em 24 de Julho de 1128 dá-se a batalha de S. Mamede, junto ao castelo de Guimarães. D. Teresa e os seus companheiros de armas foram derrotados.

 

Essa derrota põe então ponto final na actividade política da buliçosa rainha, que passa o restante tempo da sua vida no seu domínio galego de Limia. Portugal tinha-se libertado da Galiza, mas continuava sujeito ao rei de Leão. Falecida a condessa D. Teresa pouco depois, em 1130, vemos o novo governante D. Afonso Henriques encetar desde logo uma política de expansão militar franca e claramente ambiciosa. Em breve começa a chamar-se rei.

 

É então que ocorre um facto de grande importância político-militar: a batalha de Ourique. Em 1139-1140, em Ourique, Afonso Henriques decidia adoptar o título de rei dos Portugueses e, em 1143, na reunião de Zamora, obtinha que o imperador Afonso VII de Leão e Castela reconhecesse o seu direito a assim se intitular. Entre 1140 e 1169, a sua história é a de toda uma série de vitórias sobre os mouros, que lhe permitiram deslocar a fronteira da reconquista da linha do rio Mondego até ao interior da província do Alentejo, ou seja até bastante ao Sul da linha do Tejo.

 

Ainda que os contra-ataques dos mouros, no fim do seu reinado, lhe tenham feito perder uma parte do território meridional já reconquistado, a linha do Tejo nunca mais foi atravessada pelos mouros. As duas grandes cidades de Lisboa e Santarém ficaram sempre portuguesas, a partir do momento em que Afonso as reconquistou em 1147. A conquista de Évora realiza-se em 1165. É Geraldo, chamado o Sem Pavor, autêntico fronteiro de Alcácer, que a prepara e com o rei a realiza, prosseguindo depois para leste e apoderando-se de Cáceres, Trujillo, Montanches, Santa Cruz, Serpa e Juromenha.

 

A vida de D. Afonso Henriques é uma batalha constante. Já no seu termo, ao atacar Badajoz, fica prisioneiro do genro, Fernando II de Leão. Este liberta-o após de ter recebido uma compensação de guerra. Depois de ter passado por algumas dificuldades que chegaram mesmo à excomunhão papal, D. Afonso Henriques aproveita as boas graças da Igreja, e, por intermédio do Arcebispo de Braga, D. João Peculiar, faz que o Papa Inocêncio II aceite a sua vassalagem contra o pagamento de um censo de quatro onças de ouro por ano. Quem era Afonso Henriques? Interroga-se Oliveira Martins na sua História de Portugal e na qual responde assim: «Era audaz, temerário até, pessoalmente bravo, qualidade nem tão comum no tempo, como a muitos casos pareça. Fraco general, ao que se vê, porque as batalhas feridas com as tropas leonesas perdeu-as sempre, era feliz guerrilheiro. Capitaneando um troço de soldados, caía de improviso sobre um lugar, e a fúria irresistível do ataque deu-lhe a maior parte das suas vitórias.

 

Nem a grandeza das empresas o assustava, nem as distâncias o impediam de acudir a um tempo, do extremo norte, quase ao extremo sul do país.». Personagem lendária, quase mítica, que atravessou o coração do século XII, D. Afonso Henriques exerceu o poder durante mais de meio século e ficou na história como político, administrador, militar e diplomata. Se a verdadeira história de Afonso é heróica e dramática em si própria, aquela que nos contam as crónicas a partir de finais do séc. XIII ainda o é muito mais.

 

Da sua vida são muitas as dúvidas que sobressaem e que se mantêm até aos dias de hoje. Não há unanimidade quanto à data do nascimento. Não há certezas quanto ao local do nascimento. Duvida-se de quem foi o verdadeiro aio que tratou da sua educação. Há quem diga que o rei D. Afonso Henriques não era o franzino filho de D. Teresa e do conde D. Henrique de Borgonha, mas sim um filho de Egas Moniz, mais saudável e capaz de carregar a espada de quinze quilos com que batalhava. Egas Moniz tinha vários filhos. O mais velho, Lourenço, era da idade de Afonso Henriques.

 

Terá sido, provavelmente em 1122, que se armou a si próprio cavaleiro na catedral de Zamora. Diz-se que mandou acorrentar a mãe num castelo em Portugal ou então que D. Teresa foi exilada para a Galiza, onde viria a morrer em 1130. Desconhece-se com exactidão o local da Batalha de Ourique e o número real de Mouros que Afonso Henriques enfrentou nessa contenda histórica. Fala-se de 4 000, 40 000 ou 400 000. Dividem-se as opiniões quanto à data precisa da sua passagem a Rei e assim ao início do seu reinado: (1128, S. Mamede; 1139, Ourique; 1143, Zamora; 1179, com a bula do papa Alexandre III).

 

Não se sabe da data exacta do seu casamento com Mafalda ou Matilde. A lenda épica de Afonso Henriques, essa lenda que o apresenta como um herói valente mas rebelde, irrespeitoso para com a sua mãe e irreverente para com a Igreja, transmitiu-se de crónica em crónica como se se tratasse da verdadeira história do primeiro soberano português. Pouco antes de falecer, temendo o «dia» que se aproximava, mandou lavrar o seu testamento para descarrego da alma, acto no qual se sintetiza bem toda a obra do seu reinado. Afonso Henriques faleceu em 1185. Fundou, governou, aumentou e consolidou Portugal durante 57 anos. Jaz na igreja de Santa Cruz de Coimbra. Egas Moniz, Paio Mendes, Gonçalo Mendes da Maia, João Peculiar, S. Teotónio e Geraldo Sem Pavor foram alguns dos homens do rei que estiveram presentes na vida do primeiro monarca de Portugal.

 

Egas Moniz (1080? -1146)

 

 

Segundo nobiliários medievais e as inquirições do século XIII, Egas Moniz foi o aio de Afonso Henriques. Casado com D. Teresa Afonso, filha do conde das Astúrias, é-lhe confiado, para o educar, o futuro rei D. Afonso Henriques. Egas Moniz tinha ao seu serviço cavaleiros vassalos. É Egas Moniz que dá apoio a D. Afonso Henriques, na luta contra sua mãe e os Travas que a dominam.

 

Quando, em 1128, durante o cerco de Guimarães, dele se afasta, é para ir a seus domínios de Riba Douro alistar gente de luta, com que se apresenta em S. Mamede a reforçar o ânimo e a tropa de D. Afonso, quando já este vinha em retirada, dando-lhe, assim, a possibilidade de triunfo. E, a 24 de Junho de 1128, nos Campos de S. Mamede, travam-se em batalha as forças de D. Teresa e as forças do Infante. Ao lado do infante, estavam Egas Moniz, estavam os Sousas, estavam os da Maia – estava D. Paio Mendes, muito possivelmente, um dos grandes promotores da revolta contra D. Teresa e a «facção galega». A comandar as forças do Infante segue, o que se sagraria vitorioso, Gonçalo Mendes da Maia, cognominado O Lidador. Pelo esforço, vontade e bravura do Infante e dos dois irmãos, Paio Mendes «O Arcebispo» e Gonçalo Mendes O Lidador, nasce então o Reino de Portugal. É neste cerco, ou no que se terá repetido a seguir ao reencontro em Arcos de Valdevez, que se deverá situar o lance de lealdade de Egas Moniz. Afonso Henriques, de quem foi desde 1132 o escudeiro e mordomo, e a quem talvez tivesse acompanhado a Ourique e certamente à reconquista de Trancoso, recompensou-lhe largamente a prudência dos conselhos e as forças de apoio, com doações e domínios, honras e regalengos ou reguengos.

 

A sua actuação causou em Afonso Henriques a mais justificada admiração e o mais alto reconhecimento, levando-o a nomeá-lo mordomo-mor e vedor. Egas Moniz terá vivido em Bertiande, onde se aponta uma casa que parece ter sido por ele habitada, assim como o terão sido os paços que a tradição diz ter construído junto do mosteiro de Paço de Sousa, numa de cujas capelas está sepultado, como o mais generoso dos seus beneméritos protectores. São as figuras dos altos-relevos do sarcófago com um fragmento de baraço ao pescoço, que se invocam, para justificar a lenda célebre que descreve Egas Moniz, acompanhado pela sua esposa e seus dois filhos, todos os quatro com uma corda ao pescoço, oferecer as suas próprias vidas ao rei de Leão. Quando em 1127 o rei de Leão, Afonso VII, veio cercar D. Afonso Henriques na cidade de Guimarães, com forças muito superiores, reconheceram os cavaleiros Portugueses que o seu “rei” não poderia resistir-lhe. Foram por isso ter com o rei de Leão, e pediram-lhe que levantasse o cerco, prometendo que D. Afonso Henriques lhe prestaria vassalagem. Por essa promessa ficou responsável Egas Moniz.

 

Como D. Afonso Henriques, por vários motivos, esquecesse a promessa feita pelo seu aio, Egas Moniz foi a Toledo acompanhado pela sua esposa e seus dois filhos pôr as suas vidas nas mãos do rei de Leão. Esta lenda que descreve Egas Moniz, com a família, a resgatar a promessa de Afonso Henriques junto do rei de Leão carece totalmente de fundamento histórico. É incerto que tenha ido, com a família, todos de corda ao pescoço, oferecer a sua vida ao rei de Leão por o infante português ter quebrado a palavra dada, de que ele seria o garante. E mais incerto ainda que tenha sido ele o aio de D. Afonso Henriques. Em todo o caso, sabe-se que foi um dos mais poderosos nobres portugueses da sua época e que deu a Afonso Henriques um precioso apoio na sua tomada do poder.

 

Morreu em 1146.

 

A seguir: Paio Mendes

Leave a Reply