A esquerda voltou de férias? – por Carlos Mesquita

 

A Festa do Avante e o comício de Guimarães de Louçã, indiciam que alguns vão querer arregaçar as mangas, todavia esta forma burocratizada de fazer oposição, com intervalos para férias, para almoço e coffee break, não serve para combater um adversário que está a tempo inteiro e sem pausas a exercer o poder. Há 7 dias fiz o texto abaixo, publicado no blogue “O ClariNet”, continua actual. Não é com discursos que matam a mosca do sono, ou se cria algo alargado a todos os que estão contra as medidas neo-liberais, incluindo o PS, ou podem voltar para férias.

 

 

O texto:

 

– O secretário-geral do PS tem ar de não fazer mal a uma mosca, talvez por isso tenha atraído alguma, do tipo tsé-tsé; não parece ser caso único pois os partidos da oposição para além de sonolentos foram dormir longe. Estão a ser tomadas medidas lesivas para quase todos os portugueses (não chegam aos mais ricos) e a oposição partiu para parte incerta.

 

Na Madeira, António José Seguro resolveu pedir esclarecimentos a Passos Coelho sobre “quem paga a irresponsabilidade” da dívida da Madeira. Disse, “O PSD – Madeira pôs a Madeira na bancarrota, tem um buraco colossal, gaba-se disso e pede que sejam todos a pagar a factura da sua irresponsabilidade.” O tom do discurso surpreendeu e deve ter acordado o próprio António José Seguro.

 

O problema é que na Madeira estes discursos são fáceis, até Paulo Portas foi lá arranjar uns pontinhos para negociar a “diplomacia económica” que está a fugir do seu ministério.

 

A Madeira é a ilha da ameaça, do agarrem-me senão faço isto ou aquilo, é o PS a ameaçar fazer oposição, Portas a ameaçar desestabilizar a coligação governamental, e João Jardim a ameaçar com a independência da Madeira, fanfarronices.

 

A ausência, inexistência de facto, de partidos de oposição, embora os contribuintes paguem para que eles exerçam oposição (é a verdade), está a deixar o governo de mãos livres para fazer o que lhe apetece sem critica ou denúncia. Quando os cidadãos resolverem contestar as medidas que os afectam, não faltarão partidos solidários a colarem-se aos protestos.

 

O sistema partidário e a democracia representativa tal como ela é praticada no nosso país não são sequer satisfatórios, há que inventar novas formas de participação cívica e fortalecer organizações sociais e de defesa dos direitos dos cidadãos, não só os sindicatos, (que precisam ser mais independentes dos interesses partidárias) que os problemas não são apenas no trabalho, mas outros interesses comuns.

 

Um desses interesses comuns é por exemplo a privatização das águas já agendada pelo governo. Urge uma grande organização unitária e sem controlo partidário, que junte população de todas as origens contra a intenção do governo. É necessário reunir os embriões numa frente comum pelo bem público. Não é de esquerda nem de direita, há portugueses de todo o lado dispostos a defender a água pública. O mais difícil é começar a agregar essas vontades, falta o pontapé de saída – matar a mosca do sono!

1 Comment

  1. Quantas opiniões, quantas iniciativas morrem à nascença porque não se discutem pelo seu valor intrínseco mas na base do rótulo (partidário) que lhes é associado? Então se não houver um a apor é enorme a barreira que os vários ‘clubes’ levantam. É preciso ultrapassar esse sectarismo e oligarquias.

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