De 5 a 11 de Setembro de 2011

 

 

 

 por Rui Oliveira

 

 

   Nota prévia: O início da temporada é ainda tímido pelo que as escolhas limitadas que faremos usarão um critério mais benévolo do que em plena saison. Por regra destacaremos os cinco acontecimentos culturais mais promissores, podendo por vezes acrescentar algumas cordas sobresselentes cujo dedilhar se vislumbre ser algo de novo no panorama artístico da cidade.

 

 

(1)  O Centro Cultural de Belém (CCB) e a Orquestra Metropolitana de Lisboa dão corpo ao Concerto Inaugural da Temporada a 10 de Setembro (Sábado) às 21h no Grande Auditório.

Na primeira parte, ouvir-se-ão obras de dois dos compositores finlandeses mais tocados hoje em dia nas salas de concerto de todo o mundo: Sibelius, com um poema sinfónico datado de 1899 (Jean Sibelius  Finlandia, op. 26) e Lindberg, com um concerto (Magnus Lindberg Concerto para clarinete) que foi estreado há menos de uma década, precisamente por Kari Kriikku, o virtuoso clarinetista finlandês que aqui se apresenta como solista. Depois do intervalo, e atravessado o Atlântico, lugar à música de mais dois grandes compositores, desta vez norte-americanos: Scott Joplin, o rei do ragtime que também se aventurou pela ópera (Scott Joplin  Abertura da ópera Treemonisha) e Gershwin, aqui com a música celebrizada no filme homónimo de Gene Kelly (George Gershwin  An American in Paris). Um programa de agrado assegurado mas sem particular originalidade.

Com a Orquestra Metropolitana de Lisboa dirigida por Cesário Costa, fica o interesse pela actuação em clarinete de Kari Kriikku  de quem reproduzimos um vídeo alusivo.

 

(2)  A segunda edição do Festival Cantabile tem lugar entre 7 e 11 de Setembro em Sintra e Lisboa, promovido pelo Goethe Institut em torno da música de câmara.

O concerto de abertura acontece, como no ano anterior, na deslumbrante Sala da Música do Palácio Monserrate, com transmissão ao vivo no parque (na Quarta, 7/9 às 21h). Os restantes concertos têm como palcos o Salão Nobre do Teatro Nacional de São Carlos, que também abriga todo o bel canto da Masterclass de Tom Krause, e o auditório do Goethe-Institut, que também se torna um “videotório”, pois abriga uma sessão do FUSO – festival anual de Vídeo Arte.

O núcleo musical do festival é constituído por um grupo de quatro solistas com excelentes carreiras internacionais. Estreiam-se, neste ano, como solistas do Festival Cantabile, dois músicos alemães, a violinista Tanja Becker-Bender, (segundo a revista Gramophone, May 2009 “Paganini would have been impressed and delighted”) e o pianista Herbert Schuch. Juntos com Alexander Chaushian (violoncelo) e Diemut Poppen (viola)  – a directora artística do Festival e uma das fundadoras da Orquestra de Câmara da Europa −, já conhecidos do último Festival Cantabile, este quarteto garante aos amantes de música de câmara em Portugal um elevado nível artístico com um programa que tem no seu centro as obras do romantismo alemão do século XIX.

    Chamamos a atenção para o Concerto de Música de Câmara no Salão Nobre do Teatro Nacional de São Carlos a 8 de Setembro (às 18h) com a presença daqueles Solistas do Festival Cantabile e um programa que inclui Johannes Brahms Sonata para violino e piano no. 2 em Lá maior op. 100 (Herbert Schuch, piano e Tanja Becker-Bender, violino) ; Ludwig van Beethoven Sonata para piano solo no. 21 („Waldstein“) em Dó major op. 53 (Herbert Schuch, piano) ; Piotr Ilitch Tchaikovsky Dois romances para viola e piano (arranjado por Diemut Poppen/Vassliy Lobanov) “Noite“, romance para voz e piano op. 73 no. 2 em Fá menor  e “Se Reina o Dia“, romance para voz e piano op. 47 no. 6 (Diemut Poppen, viola e Herbert Schuch, piano) ; Felix Mendelssohn-Bartholdy  Trio para violino, violoncelo e piano no. 1 em Ré menor op. 49  (Herbert Schuch, piano, Tanja Becker-Bender, violino e Alexander Chaushian, violoncelo).

   Também suscita interesse o Concerto de encerramento com a Lisbon Chamber Orchestra (em estreia mundial) no mesmo TNSão Carlos no Domingo 11 de Setembro (às 18h).

Recém-criada e dirigida pelo maestro arménio Samuel Barsegian, abrirá com Johann Sebastian Bach Concerto duplo para violino, oboé e orquestra em Re menor, BWV 1060 (Otto Pereira, violino e Pedro Ribeiro, oboé), seguindo-se Joseph Haydn  Concerto para violoncelo e orquestra no. 1 em Dó maior, Hob VIIb:1 (Alexander Chaushian, violoncelo) e concluindo com a estreia em Portugal de Arvo Pärt “Fratres“ para viola com orquestra de cordas e percussão (Diemut Poppen, viola) e ainda Piotr Ilitch Tchaikovsky Serenata para cordas em Dó maior op. 48.

 

Diemut Poppen (ao centro) e Alexander Chaushian (à direita) no 9º Festival Internacional de Música de Câmara

de Pharos (Chipre) em 2009 tocando o Quarteto para Piano em Dó menor Op.60 “Werther” de Brahms

 

 

 

(3) O Teatro Nacional de São Carlos realiza o Concerto de Abertura da sua temporada sinfónica no Sábado 10 de Setembro às 21h com a Orquestra Sinfónica Portuguesa (sob a direcção musical de Martin André) com os cantores solistas Dora Rodrigues, soprano,
Maria Luísa de Freitas, meio-soprano,  Mário João Alves, tenor e Luís Rodrigues,  barítono  acompanhando o Coro do Teatro Nacional de São Carlos.

   O programa inclui Also sprach Zarathustra de Richard Strauss, Mephisto Walzer n.º 1, S. 110/2 de Franz Liszt e o Te Deum de Anton Bruckner.

   (Poderão aguardar-se da nossa Orquestra actuações próximas das da Filarmónica de Viena para Liszt ou ainda em Bruckner de Barenboim ou Celibidache – que pessoalmente preferimos – e que para contraste reproduzimos ? É o que ouviremos… É entretanto curioso observar o “abandono” pelas grandes orquestras do “sucesso” de Kubrick na Odisseia no Espaço com o tema de Strauss! )

  

 

 

 

(4) O Festival  Música Viva 2011, habitualmente realizado em Setembro, tem nesta semana (pelo menos) dois espectáculos importantes: o concerto inaugural a 9 de Setembro e o do Quarteto de Matosinhos no Domingo 11, sempre sediados no CCB.

   Sob o lema Mind Over Matter, pretende segundo o seu director artístico Miguel Azguime “cativar públicos para músicas de criação, de pesquisa”, sendo “um desafio aos criadores e aos intérpretes”. Veremos se o consegue.

   Projecta-se no primeiro dia, às 21h no Pequeno Auditório, que o Sound’Arte Electric Ensemble sob a direcção de Laurent Cuniot apresente duas obras (em estreia absoluta) da compositora chinesa Leilei Tian e do irlandês John McLachlan, a par de peças dos lusófonos Tiago Cutileiro, José Luis Ferreira e Flo Menezes (esta de homenagem ao irmão poeta do Brasil Philadelpho Menezes que designou o espectáculo global por O incerto bate as asas contra as leis da escrita).

   No Domingo 11, às 17h no Pequeno Auditório, o Quarteto de Cordas de Matosinhos (cuja actuação é complementada tecnologicamente pela Orquestra de Altifalantes do Miso Studio) toca obras de Sébastien Béranger, Pedro Rebelo, Miguel Azguime, Fernanda Lapa e, a encerrar, o Quarteto de Cordas nº2 de György Ligeti.

 

Quarteto de Cordas de Matosinhos na Semana Internacional de Piano de Óbidos

executando um Quarteto de Cordas de Haydn

 

 

   O programa prossegue até 14 de Setembro com a obra Nara de Bertrand Dubedout (um dos melhores compositores franceses actuais) e concertos vários de Alex Nowitz e Barbara Lüneburg, de Pierre-Yves Artaud & Ana Telles, entre outros (ver em http://www.misomusic.com/ ).

 

 

 

(5)  No Teatro Nacional Dª Maria II estreia a 8 de Setembro  Amadeus de Peter Shaffer em encenação de Tim Carroll com interpretação de Ivo Canelas, Diogo Infante, Carla Chambel, João Lagarto, Rogério Vieira, Manuel Coelho, Luís Lucas, José Neves e Martinho Silva.

   Aguarda-se com alguma expectativa esta nova encenação de Carroll, vindo da English Shakespeare Company e do Shakespeare Globe. Segundo o autor, em 1992, “A origem de Amadeus esteve num desejo antigo de celebrar Mozart, mas a peça não é, na verdade, apenas sobre Mozart. É também sobre Salieri. É sobre a natureza do sentido de injustiça de um homem”e ter-se-á inspirado na rivalidade que Pushkin criou entre os dois compositores na sua obra Mozart e Sallieri (1831) entre a mediocridade virtuosa e o génio fútil.

 

 

 

 

 

Algumas cordas sobresselentes em outras áreas e com interesse potencial justificam uma adenda. Assim :

 

   Na dança, o Museu do Oriente apresenta a 8 de Setembro no seu Auditório (às 21h30) o espectáculo La Place Mysterieuse da  Companhia de Dança Mademoiselle Cinema (Japão) fundada em 1993 pela coreógrafa Naoko Ito que, partindo da premissa de que a era moderna pertence às mulheres, decidiu contar apenas com um elenco de bailarinas.

                                       

   Conta uma história, passada no interior de uma casa onde fragmentos de memórias são revisitados, cujo ponto de partida  é o ano de 1989, o ano da queda do Muro de Berlim. As bailarinas pertencem a diferentes gerações e são originárias de diferentes cidades e países. Contudo, cada uma delas desempenha o seu papel de residente na casa (neste caso, a esfera do palco) à medida que vão seguindo a história da vida de uma mulher num país estrangeiro e longe do seu país de origem. Imagens gravadas, imagens em tempo real e bailado combinam-se de forma a criar uma fantasia de rotina doméstica e familiar.

 

   No teatro experimental/cinema, a Culturgest traz duas obras de Zachary Oberzan, um dos elementos originais do Nature Theater of Oklahoma de Nova Iorque.

   Your brother. Remember? combina vídeos caseiros, excertos de filmes de Hollywood e representação ao vivo, numa elaborada experiência a partir do conceito das fotografias antes e depois. “Espectáculo ousado, cru e pessoal; é hilariante, absurdo e um pouco sombrio…uma peça comovente de teatro experimental” diz Aaron Grunfeld (New York Theater Review).

                                         

 

   Flooding with Love for the Kid , do mesmo autor, é um filme de baixo orçamento (96 dólares) onde este interpreta duas dúzias de personagens, fruto duma meticulosa adaptação do romance First Blood de David Morrell que retrata a guerra de um só homem Rambo contra um xerife e uma pequena cidade. Dizem “totalmente transgressor e, ao mesmo tempo, pleno de acção e comovente”. 

 

   Na divulgação científica, o Institut Français (Portugal) organiza a partir de 8 de Setembro (até 7 de Outubro) a exposição “Science / Fiction : Voyage au coeur du vivant”, uma viagem entre o real e o imaginário com 29 fotografias científicas valorizadas em gravuras antigas que ilustram os romances de Jules Verne (1828-1905), fotografias que  abrangem todas as temáticas de investigação do INSERM, tais como neurociências, oncologia e imunologia entre outras.

   No dia da inauguração, Bernard Werber, autor das legendas das imagens da exposição, proferirá a conferência “De Júlio Verne aos nossos dias, um século de literatura de imaginação”. Reconhecido sobretudo no género do romance científico, o autor enriquece-o com considerações filosóficas relacionadas com a organização das nossas sociedades, tendo conseguido um sucesso mundial nos anos 90 com “A trilogia das formigas” em que se propôs  observar a humanidade sob o ponto de vista das formigas.

 

                                         

5 Comments

  1. Este formato da secção é muito interessante. Não a podemos comparar com o anterior, são coisas diferentes – uma informação menos dispersa e que, ao concentrar-se em cinco propostas, define melhor as preferências do autor da rubrica. Muito bem, Rui. Este modelo é excelente.

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