OS HOMENS DO REI – por José Brandão – 5

João Peculiar (1110? -1175)

 

 

D. João Peculiar, nascido em data incerta, talvez por 1110, na cidade de Coimbra, onde iniciou estudos, que

 

depois foi continuar na Universidade de Paris, pois era de origem francesa.

Em 1123 fundou o Convento de São Cristóvão de Lafões, na Beira, próximo

de São Pedro do Sul, um oratório em que fez com alguns sacerdotes

vida monástica. Foi chamado para mestre-escola da catedral de Coimbra e

em 1135 desloca-se a Roma, a fim de obter do Papa o regresso dos

cónegos regulares de Santa Cruz de Coimbra à sua primeira observância

 e, ainda, a aceitação da comunidade assim reformada sob a protecção

de S. Pedro.

 

Foi depois deste serviço a Afonso Henriques, interessado no apoio do Papa

 às suas pretensões de independência, que D. João Peculiar foi feito bispo

 do Porto e dois anos mais tarde arcebispo de Braga. Um dos seus

primeiros actos no arcebispado foi conseguir que D. Afonso

Henriques ordenasse a restituição ao hospital dos bens doados pelo

seu fundador, o bispo D. Paio. Foi D. João Peculiar uma espécie de ministro

do nosso primeiro rei para as questões eclesiásticas, ambos empenhados

na libertação da Igreja portuguesa dos laços que a subordinavam às

Sés primazes de Toledo e de Compostela.

 

D. João Peculiar foi depois eleito bispo do Porto em 1135, passando à cadeira arquiepiscopal de Braga e primaz das Espanhas, em 1139, indo outra vez a Roma para receber o palio, que o mesmo pontífice lhe entregou, ordenando-lhe que assistisse ao concilio Lateranense II, que naquele tempo se celebrava. Regressando a Braga foi recebido com as maiores demonstrações de respeito e de júbilo. Foi o organizador do encontro do rei português, com Afonso VII de Leão e Castela, em 4 e 5 de Outubro de 1143, do qual resultou o Tratado de Zamora, que marca a independência de Portugal. O arcebispo primaz de Braga D. João Peculiar foi quem coroou D. Afonso Henriques, 1.º rei de Portugal nas cortes celebradas em Lamego em 1143.

 

Acompanhou sempre o novo rei e assistiu à conquista de Lisboa em 1147, foi quem benzeu a mesquita-mor dos mouros tornada templo cristão e sagrou o 1.º bispo, D. Gilberto, varão inglês de notória virtude, que foi preferido a todos os outros, por ser considerado o mais digno dos estrangeiros que ajudaram D. Afonso Henriques na conquista de Lisboa. O novo rei; assistiu à sagração, e terminada a cerimónia D. Gilberto fez juramento de obediência ao arcebispo D. João Peculiar como primaz das Espanhas. Outras viagens, e de bem diversa natureza, além da referida, fez o activo prelado. Encarregado pelo rei de negociar com os cruzados nórdicos o seu auxílio à conquista de Lisboa, acompanhou o rei durante o cerco e sagrou o primeiro bispo olisiponense, D. Gilberto, em 1149. Mas foi a Roma que mais se deslocou. D. João Peculiar fez 14 vezes a viagem de Braga a Roma, para convencer o Papa Inocêncio II a reconhecer a D. Afonso Henriques o título de rei – o que só viria a acontecer em Maio de 1179 pelo Papa Alexandre III.

 

Numa das suas visitas à capital da cristandade, assistiu, por mando do Pontífice, ao Concílio Ecuménico de Latrão e foi o primeiro prelado português que teve tal honra. Travou então relações com o grande abade de Claraval, S. Bernardo, grato a Portugal pelo modo como os monges cistercienses aqui tinham sido recebidos. D. João Peculiar deve ser considerado como um dos fundadores de Portugal. Arcebispo de Braga de 1138 a 1175, mostrou ser um digníssimo sucessor de Paio Mendes no apoio que, ao longo de 37 anos, prestou a D. Afonso Henriques e aos seus projectos. O arcebispo faleceu em 3 de Dezembro de 1175 e foi sepultado na Sé de Braga.

 

(A seguir: S. Teotónio)

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