Aurora Adormecida 3 e 4 – Eva Cruz

 

 

Eva Cruz  Aurora Adormecida

 

 

 

Capítulo 3

 

 

 

 (continuação)

 

De regresso à terra, à aldeia pequenina empoleirada na encosta, escor­regando até ao rio, procura o pai o enxerto para os seus filhos na raiz materna. Aurora fica aos cuidados da tia mais velha e é amamentada por todas as mães que então deram à luz e tinham leite em abundância. Com cem anos, não conheceu qualquer remédio para além do chá de ervas que atalha a tudo. Bênção, sabe-se lá, da imunidade vinda do leite de mães variadas. Por obra e graça, fora buscar a cada uma o seu melhor. Aurora foi crescendo, loirinha e branca, com olhos cor da flor do linho que cobria os campos da Quinta do Engenho, a quinta que pertencia à avó, viúva e entrevada por causa de uma queda de um combro abaixo. Tinha por tarefa enxotar as moscas da cama da avó. Por vezes, fugia para brincar na calçada e levava do pai com a palmatória, não por falta de aviso do papagaio, empoleirado à porta da sala:

 

– Aurora enxota as moscas à avó. Aurora, a palmatória.

 

Não era fácil a vida na Quinta do Engenho. A avó, doente, três crian­ças para criar e os campos de linho para semear, colher e espadelar. O dinheiro, vindo de além dos mares, ia-se consumindo e o baú de couro começava a ficar vazio.

 

* Lá só restavam os fatinhos e os vestidinhos de seda com fitas de veludo azul e rosa feitos pela minha mãe, um pedantife em ouro, um alfinete de gravata com o morro do pão de açúcar cravejado de brilhantes, as correntes do relógio do meu pai e algumas jóias da minha mãezinha.

 

Aurora e os irmãos passaram então a vestir-se de linho e burel. Deixou o berço de princesa onde nascera do outro lado do oceano, para crescer plebeia no meio dos campos que a acolheram. Pela vida fora sempre este du­alismo a moldou, ora empertigando-a de realeza ora traindo-a de plebeia. Hoje, velhinha, de novo no seu trono de princesa, as fitas cor-de-rosa que lhe enfeitaram o berço enfeitam-lhe agora a fantasia, transportando-a para um paraíso de paz e alegria bem longe do mundo real. Pena é que a lucidez desta vida desvitalizada não nos deixe, ainda que por momentos, recuperar esse paraíso perdido, rumo ao céu, feito de alma ou matéria, de crença ou de descrença, céu de intemporalidade e silêncio, céu do tudo ou nada.

 

 

 Capítulo 4

 

 

O pai decidiu então casar, de novo, com mulher do campo, tão diferente da sua primeira rainha. A vida era outra. Seria preciso alguém que ajudasse e soubesse da faina do linho.

 

* A minha, tia vestiu-nos de lavado e colocou-nos no braço um cesto cheio de pé­talas de rosas e bagos de arroz, para saudarmos, ao portão da entrada, os noivos, o nosso pai e a nossa madrasta que não conhecíamos de lado nenhum.

 

Assim se foram passando os anos. Os irmãos, por serem mais velhos, não gostavam da madrasta, mas Aurora, como não conhecera o amor de mãe, foi-se afeiçoando a ela e dela recebia também um afecto diferente. O criar faz amar. O Brasil continuava a sorrir aos olhos do pai.

 

* Os olhos mais negros e mais bonitos do lugar do engenho!

 

O baú estava vazio. Acabaram-se as economias. Era preciso compor a casa e dar um futuro às crianças. Da segunda mulher tivera mais três filhos. Aumentava a razão que o fez voltar ao Brasil.

 

* O meu paizinho mandava, dinheiro mas a madrasta não nos tratava bem, muito especialmente o meu Mário.

 

* O teu paizinho esqueceu-se de ti e dos teus irmãos, avozinha. O teu pai era um tratante!

 

* Cala-te, rapaz, o meu pai era o melhor pai do mundo inteiro, não digas blasfémias.

 

Virgolino manteve-se ainda uns anos no Brasil. Aí, no cemitério que recolhera a primeira mulher e o filho, matou deles a saudade. Mas para a morte não há remédio e a vida do lado de cá chamou-o de novo à terra. Constara também que a madrasta lhe maltratava os filhos. Volta numa noite de Inverno.

 

– Vai ver quem é, já te disse, Mário! Se não vais, levas com a vergasta.

 

* Lá fora ouvia-se uma música muito baixinho. Abriu-se a porta e o meu pai apareceu na luz da soleira com um capote pelos ombros, um banjolim numa das mãos e um papagaio na outra.

 

O Brasil inteiro, o Brasil real e sonhado ficou para sempre gravado na alma da menina branca e de olhos azuis que de brasileira só tinha a nascença.

 

O mesmo baú de couro, mala de porão que acompanhou pai e meninos na primeira viagem, recebia agora no escaninho as notas brasileiras para compor a Casa do Engenho. O baú era o cofre, o relicário de recordações que pela vida fora ligou Aurora ao Brasil, como uma canção de mar entre lá e cá.

 

(continua)

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