OS HOMENS DO REI – por José Brandão – 6

S. Teotónio (1082-1162)

 

 

Teotónio era filho de ricos e nobres Senhores do Alto Minho, onde nasceu no ano de 1082 no Lugar de Tardinhade, freguesia de Ganfei, concelho de Valença. Aos dez anos, mostrando inclinação religiosa, foi entregue ao tio, bispo de Coimbra, que assumiu a sua educação. Lá continuou a estudar até receber as sagradas ordens, e de cada vez mais crescia o brilho e a fama da sua inteligência e das suas virtudes. Sempre alegre, vivia com a maior sobriedade longe dos prazeres do mundo. Afastava-se de todos os prazeres que não fossem da mais pura ordem espiritual. Contam os cronistas que ele reduzia ao mínimo as refeições pelo gozo de passar fome e sede por amor da justiça. Não havia em sua casa nem mesa onde comer nem leito em que repousasse. Para dormir bastavam-lhe uns palmos de terra.

 

E com muito poucas horas se contentava, que todo o tempo achava pouco para rezar, consolar os aflitos, tratar carinhosamente os enfermos, e conduzir os homens pelo caminho da virtude. Para evitar ser nomeado Bispo de Viseu, foge de Portugal como um pobre e humilde peregrino a caminho da Terra Santa de Jerusalém. Ali se demora durante um ano a seguir os últimos passos da vida de Cristo desde a varanda de Pilatos até ao monte do calvário. Regressa a Portugal. Mas as saudades daqueles santos lugares não se apartam do seu coração. Abala de novo para a Terra Santa. Depois desta nova visita à Cidade Santa, regressa Teotónio à sua Pátria, que nesse tempo era ainda o condado Portucalense, com intenção de preparar as suas coisas para voltar de novo e para sempre a Jerusalém. Foi nessa altura que os cónegos de Santo Agostinho resolveram fundar uma pequena comunidade em Coimbra. Reunidos em capítulo para elegerem o seu Prior, logo por voto de todos foi D. Teotónio eleito Prior-Mor de Santa Cruz. Passa-se isto em 1131. Nessa altura andava D. Afonso Henriques nas suas grandes batalhas contra os Moiros. E tanta amizade e dedicação dedicava o jovem rei de Portugal a D. Teotónio, que o escolheu para seu conselheiro e director espiritual. Não empreendia El-Rei nenhuma das batalhas, cercos e assaltos às terras e castelos que ia conquistando para aumentar e firmar o Reino, sem que antes disso se fosse aconselhar com S. Teotónio. Só a ele confiava os segredos que não descobria a mais ninguém, porque pensava El-Rei que não podia conseguir maior ajuda para si e para os seus guerreiros do que aquela que lhe viesse da mão de Deus. E não via ninguém que mais do que o bom Santo pudesse ter valimento para conseguir o auxílio do Céu. Por isso é que à mesma hora em que o Rei tomava Leiria, Óbidos, Santarém e outros lugares fortes e bem acastelados, estava S. Teotónio com os seus religiosos no Claustro de Santa Cruz pedindo a Deus que estivesse com os Portugueses no bom combate, porque eram para grandeza do Senhor as terras que o Rei conquistava. A fé que D. Afonso Henriques tinha no valor destas orações enchia de ânimo o seu coração e dava forças de gigante às suas cutiladas. De tal maneira se sentia forte com esta capacidade espiritual de D. Teotónio que por toda a parte gostava de afirmar que o conselho e as orações do Santo valiam mais do que a força do seu braço para alcançar as suas extraordinárias vitórias. Aos setenta anos D. Teotónio renunciou ao cargo de prior, voltando a ser um simples religioso. Um ano depois o papa Anastácio IV quis consagrá-lo bispo de Coimbra, mas ele recusou, consagrando seus últimos anos à oração. Morreu em 18 de Fevereiro de 1162. A sua vida foi marcada por uma dinâmica missionária relevante durante a reconquista cristã no território português.

 

(A seguir: Geraldo Geraldes, o Sem Pavor)

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