Aurora Adormecida 5 e 6 – Eva Cruz

 

 

Eva Cruz  Aurora Adormecida

 

 

Capítulo 5

 

 

(continuação)

 

 

 

Com o pai de novo em casa, reinava agora a paz no seio da família. Mas, à volta, o mundo estava em guerra.

 

Rebentou a Primeira Grande Guerra. Partiram as primeiras tropas portu­guesas do CEP, Corpo Expedicionário Português, a caminho da Bretanha, local de concentração dessa divisão.

 

Virgolino não foi incorporado por ser casado e pai de filhos, mas da pe­quena aldeia das Figueiras onde ficava a Quinta do Engenho, partiram nesse contingente dois soldados, um deles seu parente chegado. Esse morreu algures numa trincheira perto de Paris, o outro regressou sem uma perna. A noiva esperou-o até ao fim da guerra, e, apesar de mutilado, casou com ele e tiveram treze filhos. Não lhe fez falta a perna. Foi este casal mais tarde homenageado com um prémio, por Salazar.

 

Era tempo,então, da Segunda Guerra Mundial, tempo de muita miséria, e tal prémio tornava-se ridículo perante a fome de tanto filho. Mas pobre não olha a esmola.

 

Com a guerra, aumentou consideravelmente a exploração do volfrâmio. Este minério tornara-se precioso para a fabricação de material bélico. Ha­via várias jazidas em Portugal.

 

Em terras de Arouca, desterrada no meio dos montes, aninhada no estrei­to vale do rio Paivô erguia-se uma pequena aldeia, Rio de Frades, onde se arrancava ao solo pedregoso o minério preto.

 

Virgolino partiu com mulher e filhos para Rio de Frades. Seu irmão, Ber­nardo Soares de Almeida, homem rico, monárquico, influente, dono de grande comércio na Rua Mouzinho da Silveira, no Porto, residia na bela Quinta dos Três Castelos, em Gaia, hoje completamente desaparecida. Bernardo Soares de Almeida possuía então vários filões de volfrâmio em Rio de Frades e entregou ao irmão Virgolino a chefia das minas.

 

* O meu paizinho era um grande senhor, foi capataz das minas de volfrâmio de Rio de Frades. Mandava em tudo e todos lhe obedeciam. A nossa casa era grande, a maior de todas, via-se a serra, as minas, as casas dos mineiros e a lavaria onde se lavava e peneirava o minério. Vivia lá também um senhor alemão, a mulher e a filha.

 

* Pois é, avozinha, o teu paizinho era nazi e ajudava os alemães na guerra.

 

* Sei lá que é isso de nazi. Nazi, merda pra ti.

 

Aurora recorda o tempo das minas, os serões com o pai a tocar banjo e as brincadeiras com os irmãos e a filha do alemão.

 

* A minha irmã Maria, muito bonita, era alta como a minha mãe, com um leve trocar de olhos que lhe dava graça. O meu irmão Mário, baixinho, era muito triste. Dos três, fora o que melhor conhecera a mãe, e a saudade era tan­ta que não queria viver. Sempre pelos cantos, lia a Bíblia e ensinava a dou­trina aos outros meninos. Repetia vezes sem conta que a vida não valia nada, que a vida desaparecia como fumo. O meu pai não sabia o que fazer dele.

 

Tinha então Aurora à volta de dez anos. O Mário dezanove e a Maria dezassete. Rio de Frades ficava num desfiladeiro, desterrado no meio dos montes onde só se chegava por caminhos de cabra e de carro de bois.

 

* Quando alguém morria, dizia-se que se gritava do alto dos montes para o vale: ó d’além, dizei ó d’aquém que traga a croz e o pau da croz e a água que cheira mal ao demo para levar o engerido à cova. E a voz passava de monte em monte até chegar à aldeia com padre. Demorava, por vezes, mais que um dia a chegar o morto ao cemitério. Pelo caminho levava-se uma cadeira para o padre se sentar, broa de milho e vinho para aguentar a caminhada.

 

 

Capítulo 6

 

 

Rio de Frades, freguesia serrana, empoleirava-se em terras de volfrâmio, junto ao rio Paivô que serpenteava por entre montanhas a pique.

 

Muitas gerações ali foram atraídas pelo minério. A Companhia Mineira do Norte de Portugal estava ligada ao Couto Mineiro de Rio de Frades, explorado essencialmente por alemães. A pouca distância dali, em Regoufe, empresas detentoras de várias concessões, como a Companhia Portuguesa de Minas, exploravam juntamente com os ingleses os filões do minério. As minas ocupavam milhares de pessoas a perfurar as montanhas. Mui­tos lá morreram e lá sepultaram os corpos e os sonhos em busca do ouro negro. Com brocas e martelos arrancavam ao subsolo o filão do interior da montanha. Levavam dias, semanas ou meses a esventrar a terra em galerias e túneis, à procura desse tesouro branco de quartzo, normalmente prenhe de volfrâmio.

 

Para ali se deslocaram mineiros, capatazes e exploradores, por caminhos de cabra, a cavalo ou de carro de bois. Não havia electricidade. Geradores forneciam a energia necessária às minas e à povoação.

 

Mais tarde, com a segunda Guerra Mundial, foi aberta uma estrada de macadame pelos alemães e levada a electricidade às minas. A iluminação era tal que Rio de Frades e Regoufe pareciam cidades.

 

O minério extraído do interior da montanha era transportado em vagonetas sobre carris até à lavaria, muitas vezes atravessando rio e vale com recurso a roldanas e cabos de aço.

 

* A lavaria ficava junto ao rio e aí separavam o minério do resto que não prestava. Nas mesas crivava-se o minério até ficar cada vez mais puro.

 

Havia empresas pequenas na exploração, para além das inglesas e alemãs. Havia também aventureiros.

 

* Os pilhas, sem contrato, tentavam a sorte a pilhar o minério. Andavam pela serra na Primavera e no Verão a viver e a dormir ao relento, e recolhiam à terra no Inverno por falta de abrigo ou segurança.

 

Sempre as minas e as guerras foram motivo de conversa nas suas singelas considerações épicas e poéticas. Confundia primeira e segunda. Apesar dos horrores da Guerra, achava que a simpatia das autoridades, dos mi­neiros e da população ia mais para os alemães do que para os ingleses. Impunham-se aqueles pelo seu porte atlético, sendo mais comunicativos e melhores técnicos.

 

Os portugueses também não tinham informação sobre a monstruosidade da Guerra. A maior parte da população era analfabeta, não havia rádios e a informação escrita era pouca e para muito poucos. Os primeiros aparelhos de rádio por altura da Segunda Guerra Mundial eram raros, contavam-se pelos dedos, e as condições de recepção eram más. Contri­buíram ainda para esse desconhecimento a censura e o comportamento da astuciosa diplomacia de Salazar.

 

(continua)

 

Leave a Reply