Cândido Rondon – 1 – por Fernando Correia da Silva

Por ter saído com graves erros, repetimos hoje a publicação do texto de Fernando Correia da Silva sobre Cândido Rondon. Das anomalias verificadas, pedimos desculpa ao autor.

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MORRER, SE FOR PRECISO; MATAR, NUNCA!

 

QUANDO TUDO ACONTECEU…

 

1865: Nascimento de Cândido Mariano da Silva Rondon, em Mato Grosso, Brasil. – 1881: Ingressa na Escola Militar do Rio de Janeiro. – 1888: É promovido a alferes. – 1889, 15 de Novembro: participa na implantação da República. – 1890: Bacharel em Ciências Físicas e Naturais; promovido a tenente; professor de Astronomia, Mecânica Racional e Matemática Superior; abandona o ensino e passa a servir no sector do Exército dedicado à construção de linhas telegráficas pela vastidão do interior brasileiro. – 1892: Casa com Francisca Xavier. – 1898: Ingressa na Igreja da Religião da Humanidade (positivista). – 1901: Pacifica os índios Bororo. – 1906: Estabelece as ligações telegráficas de Corumbá e Cuiabá com o Paraguai e a Bolívia – 1907: Pacifica os índios Nambikuára. – 1910: É nomeado 1º director do Serviço de Protecção aos Índios. – 1911: Pacificação dos Botocudo, do Vale do Rio Doce (entre Minas Gerais e Espírito Santo). – 1912: Pacificação dos Kaingáng, de São Paulo. – 1913: Acompanha e orienta o ex-presidente americano Theodore Roosevelt na sua expedição ao Amazonas. – 1914: Pacificação dos Xokleng, de Sta. Catarina; recebe o Prémio Livingstone, concedido pela Sociedade de Geografia de Nova Iorque. – 1918: Pacificação dos Umotina, dos rios Sepotuba e Paraguai; começa a levantar a Carta de Mato Grosso. – 1919: É nomeado Director de Engenharia do Exército. – 1922: Pacificação dos Parintintim, do rio Madeira. – 1927/30: Inspecciona toda a fronteira brasileira desde as Guianas à Argentina – 1928: Pacificação dos Urubu, do vale do rio Gurupi, entre o Pará e o Maranhão. – 1930: Revolução no Brasil; Getúlio Vargas, o novo presidente, hostiliza Rondon que, para evitar perseguições ao Serviço de Protecção aos Índios, logo se demite da sua direcção. – 1938: Promove a paz entre a Colômbia e o Peru que disputavam o território de Letícia. – 1939: Reassume a direcção do Serviço de Protecção aos Índios. – 1946: Pacificação dos Xavante, do vale do rio das Mortes. – 1952: Propõe a fundação do Parque Indígena do Xingu. – 1953: Inaugura o Museu Nacional do Índio. – 1955: O Congresso Nacional brasileiro promove-o a Marechal e dá o nome de Rondónia ao território do Guaporé. – 1958: Morte de Cândido Rondon.

 

Entrevista que o brasileiro Diaí Nambikuára concedeu à jornalista portuguesa Aurora Matos

 

É um índio brasileiro, homem culto, licenciado em Sociologia. Entroncado, rosto redondo, olhos negros e repuxados, tez acobreada, cabelos escorridos, terá talvez uns sessenta anos. Apoiado pelos Verdes e outros grupos ecologistas, também pelo S.O.S. Racismo, pela Amnistia Internacional e por múltiplas organizações de defesa dos direitos humanos, há seis meses que anda pelas capitais da Europa a tentar mobilizar a opinião pública do Velho Continente contra o extermínio dos povos indígenas da América Latina.

 

Fala perfeitamente a nossa língua. Mas, do seu discurso, por vezes irrompem inesperadas palavras em tupi-guarani que nos laçam e arrastam para a vastidão do Amazonas e Mato Grosso. E é justamente aí que ele nos revela um outro Ghandi do século XX, que a soberba europeia tentou sempre ignorar. Esta é a segunda entrevista que Diaí Nambikuára nos concede:

 

– Senhor Dr. Diaí, por favor esclareça-me: quem foi esse Rondon de quem está sempre a falar?

 

– Aurora, tenha dó, nem senhor, nem doutor…

 

– Mas devo tratá-lo como? – Por Você, como normalmente os brasileiros se tratam uns aos outros.

 

– Seja então! Apesar do morticínio, Você ainda se considera brasileiro?

 

– Aurora, quando portugueses e outros europeus arribaram ao Brasil, nós já ali vivíamos há muitos e muitos séculos. Por isso os índios são os mais brasileiros dos brasileiros. Quem o disse foi Rondon.

 

– Mas afinal quem é, ou quem foi, esse Rondon?

 

– Não posso crer, Você não sabe mesmo? Ao menos sabe o que é Rondónia?

 

– É um Estado brasileiro, não é? – Sim, é o antigo Território do Guaporé crismado de Rondónia em homenagem a Rondon. É um pequeno Estado, apenas com a dimensão da Itália…

 

– Fico na mesma.

 

– Estou vendo que o Curupira continua soprando as neblinas do Esquecimento, forma nova de confundir os viajantes… Não só em Portugal, não só na Europa, até mesmo no Brasil…

 

– Curupira? Mas o que é isso?

 

 (Continua)

 

Fernando Correia da Silva, escritor, nasceu em Lisboa no ano de 1931. Frequentou o curso Ciências Económicas e Financeiras e, ainda estudante, foi apoiante do general Norton de Matos nas eleições presidenciais de 1949. Militante do MUD Juvenil, foi preso pela polícia política. Foi amigo de outros escritores, tais como António José Saraiva, Mário Henrique Leiria, Alexandre O’Neill, Orlando Costa e muitos outros. Conviveu com políticos como Agostinho Neto, Marcelino dos Santos, Vasco Cabral.

 

Em 1954, perseguido pela PIDE foi para o Brasil como exilado político. Ali colaborou na Folha de São Paulo, tendo sido um dos fundadores do jornal antifascista Portugal Democrático. Com Jorge de Sena, Casais Monteiro, Sidónio Muralha, Fernando Lemos e escritores e artistas brasileiros como Maria Bonomi, Guilherme Figueiredo e Cecília Meireles, fundou em S. Paulo a GIROFLÉ, editora infantil. Em 1964 após o golpe militar no Brasil empregou-se numa indústria em Fortaleza do Ceará. Durante dois anos, viveu o Nordeste, onde a ostentação e a miséria viviam paredes meias.. Regressou a Portugal em 1974.

 

Tem uma obra essencialmente constituída por romances. Referimos os mais importantes: Mata-Cães (1986),, Lord Canibal (1989) Querença, (1996), Maresia, (1998) e Lianor (2000). Querença, o mais autobiográfico dos seus romances, foi passado ao cinema em 2004, com realização de Edgar Feldman. Desde 1998, Fernando Correia da Silva coordena Vidas Lusófonas, um site na Internet que já quase atingiu os 20 milhões de visitas.

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