
Geraldo Geraldes – O Sem Pavor (? -1170)
Homem descendente de uma família nobre, de apelido Pestana, oriunda da Beira, combateu por vezes com a maior heroicidade nas hostes de D. Afonso Henriques que lhe chamou Sem Pavor em virtude da sua comprovada coragem e bravura, tendo fama de atleta. Tendo tido questões com um fidalgo da corte, matou-o em desafio, fugindo com receio da cólera do rei, amigo do fidalgo morto que era seu valido. Internando-se na Serra de Montemuro, aí construiu um Castelo, aonde reuniu uma quadrilha de salteadores que, sob as suas ordens, foi o terror de cristãos e moiros, em toda aquela região.
A fama das suas proezas foi tal, que conseguiu formar em torno de si um numeroso bando, composto de algumas centenas de cavaleiros e peões. de modo que fazia uma guerra mais de guerrilheiro e conquistador do que de salteador. Sendo, porém, de carácter nobre e não se conformando com uma vida de aventuras que o não honrava procurou maneira de obter o perdão do rei, e para isso pôs no seu pensamento levar a efeito a conquista de Évora. Geraldo acompanhado de cinco dos seus companheiros encaminhou-se à cidade alentejana e combinou com o alcaide moiro, aliarem-se para derrotarem Afonso Henriques, ficando ele, a convite do sarraceno como seu hóspede, durante dois dias, tempo que ele aproveitou para reconhecer a fortaleza.
Voltando ao Castelo, disse aos seus soldados que tinham, de com ele, levar a cabo uma grande façanha, em serviço do rei e da Pátria, da qual resultaria o perdão para todos, honras e terras. Reunindo a sua hoste no maior segredo, com ela saiu do Castelo, ao anoitecer, e por atalhos e sítios desertos encaminhou-se na direcção de Évora. Fazendo alto a dois quilómetros da cidade, aí dispôs a sua tropa, abrigada no maior silêncio, dando-lhe nessa ocasião conhecimento do seu projecto, e partindo a seguir sozinho para Évora.
Uma vez próximo do Castelo, cobriu-se de ramos de árvores, para não ser conhecido o seu vulto e trepou à torre, reconhecendo que as sentinelas dormiam. A torre não tinha comunicação alguma com os outros baluartes, nem porta por onde se entrasse e apenas uma janela, por onde se subia por uma escada de mão, que se recolhia, logo que não era precisa; aí encontrou uma moura que precipitou abaixo da torre, matando um mouro que dormia junto dela, levando a cabeça dos dois aos seus soldados em sinal de bom anúncio.
Dispôs então as suas forças para o combate, e em silêncio, partiu a seguir com 120 cavaleiros escolhidos para o primeiro lance. Subiu à torre da Atalaia e aí acendeu o fogo como sinal de que havia ataque dos cristãos, o que alarmou os da cidade. O alcaide, com a maior força, saiu da cidade em direcção à torre, deixando abertas as portas, por onde Geraldo entrou com os seus homens, protegido pela escuridão, matando quantos inimigos o embaraçavam e trancando as portas.
Esta descrição é um pouco complicada, e o que seria talvez certo, é que ele, introduzindo-se na torre, matasse as atalaias e abrindo uma das portas, por ela entrasse logo um troço dos seus homens, dando ingresso a outros, caindo todos como demónios sobre a guarnição desprevenida. A lenda diz ainda que ele se valeu do amor que lhe votara uma moura gentil, a qual julgando abrir a câmara ao amante, abriu a cidade ao inimigo. A história escrita, porém, diz que foi o próprio rei quem se apoderou de Évora. Évora sucumbiu sem dúvida a um ataque de surpresa, imprevisto pelos seus defensores, como de resto sucedeu a Santarém e a Beja. Tomada pois Évora, por assalto inesperado, mandou Geraldo Sem Pavor, um quinto do saque a Afonso Henriques, como era praxe naqueles tempos, com a noticia da façanha e o pedido de perdão para ele e para os seus homens, pedindo-lhe para mandar tomar posse da cidade, onde já flutuava o pendão de Portugal.
D. Afonso Henriques mandou imediatamente guarnecer a cidade pelos seus soldados e dando o perdão a todos os conquistadores, nomeou Geraldo Geraldes alcaide-mor de Évora. O brasão de armas de Évora comemora o facto da conquista por Geraldo Sem Pavor, apresentando em campo aberto um cavaleiro com a espada erguida na mão direita e duas cabeças na outra: alusão à degolação da moura e do mouro, no acto da escalada à torre de Atalaia. A fase final da sua vida está narrada em fontes históricas diferentes, apresentando pelo menos duas versões. Segundo uma, depois de aprisionado num dos últimos combates, teria sido levado para Suz, decidindo-se por uma falsa conversão à religião muçulmana. Porém, uma tentativa de fuga por mar, para regressar a Portugal, ter-lhe-ia custado a vida (1170).
A outra versão difere desta na data da morte (1174) e na causa da morte que teria sido o facto de se ter descoberto que enviara a D. Afonso Henriques uma carta, mostrando que se lhe mantinha fiel. Afinal, parece que Geraldo Sem Pavor tanto combatia ao lado de Afonso Henriques como ao lado dos muçulmanos. Para muitos este Sem Pavor não passava de um autêntico mercenário que depois foi transformado em herói da luta contra o Islão. Fosse como fosse, D. Afonso Henriques sabia aproveitar as boas oportunidades e esta era sem dúvida uma das melhores com que podia contar. As suas batalhas, as batalhas da época, não tinham regra e nelas qualquer Sem Pavor era uma mais-valia que não podia ser dispensada.
(A seguir: Mestre Julião)
