Sobre rumores, sobre tremores, sobre tumores, uma análise do capitalismo moderno, por Júlio Marques Mota

Numa série de três posts recentes quanto à ditadura dos mercados mostramos como é absurdo viver-se dos humores dos mercados sobretudo quando se está em plena crise. Deu-se o exemplo das vendas a descoberto, falou-se dos operadores neste tipo de operações que geram apenas transferência de rendimentos, sem nenhuma contrapartida produtiva, portanto sem nenhum acréscimo de riqueza a nível nacional e com razoável utilização de recursos materiais e humanos.


Nesta série de artigos mostrámos ainda que de passagem como a economia real ao ficar dependente dos mercados financeiros fica dependente dos jogos dos casinos dispersos à escala mundial e ligados por cabos de fibras ópticas durante 24 sobre 24 horas, com cabos que qualquer dia serão apenas de produção chinesa.


A irracionalidade, como se mostrou pode ser total. Mas um estudante saído das Universidades portuguesas onde o ensino neoliberal é ensinado disciplina por disciplina, um aluno saído da Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa, por exemplo, dirá do alto da importância e da arrogância que lhe confere o diploma alcançado que o que aí é contado nesses posts é pura demagogia, pois os mercados são perfeitos, estão eventualmente a ser vítimas de intervenções estatais e deixem-nos livres destes Estados que a situação de equilíbrio será de novo alcançada. É assim o mundo dos neoliberais. Mas a estes estudantes sugiro-lhes, o mais simples possível, sugiro-lhes os diversos artigos do Financial Times, de 12 de Agosto, sobre o tema. E estamos por aqui conversados, pois o universo de quem aprendeu a economia apenas pelo equilíbrio de Walras e congéneres da teoria neoclássica não tem nada a ver connosco e direi mesmo que não tem nada a ver com o mundo real. Deixem-me aqui reproduzir a este respeito uma nota de pé de página do livro Freefall de Stiglitz: “Quando era Presidente do Comité de Conselheiros Económicos Clinton, um dos problemas que eu tive foi o de ter que recrutar um economista bom em macroeconomia. A macroeconomia preocupa-se com as grandes evoluções da produção e do emprego. Os modelos dominantes ensinados nas Universidades eram modelos económicos neoclássicos. Eu questionava-me como o Presidente, que tinha sido eleito com o slogan Empregos, Empregos, Empregos, iria reagir quando um dos melhores e mais inteligentes dos nossos economistas lhe explicasse que o desemprego não existia”, exactamente porque os mercados são perfeitos. Mas Stiglitz na desmontagem dos quadros mentais dos neoliberais vai ainda mais longe num dos capítulos da sua obra Freefall, num capítulo que deveria ser material obrigatórioem qualquer Universidade que se preze, sobre a lavagem ao cérebro que neste tipo de Universidades é feita, e onde se lê:

 

Os seus modelos [de análise] não têm nada a dizer sobre os grandes desafios da crise actual. O que é que eles podem fazer, o que é que eles podem dizer, quando se dá milhares de milhões aos bancos a mais? Nos seus modelos os banqueiros e os trabalhadores são as mesmas pessoas. Os debates políticos essenciais são pura e simplesmente eliminados. Por exemplo, o modelo de agente representativo exclui toda e qualquer reflexão sobre a repartição do rendimento. Num certo sentido, certos juízos de valor (entre os quais o que nega que a repartição do rendimento seja importante) estão integrados no próprio quadro de análise.


Um enorme número de conclusões (manifestamente absurdas) ao qual chega esta Escola de pensamento é devido às suas simplificações extremas e a outras do mesmo género nos seus modelos, como por exemplo, a ideia de que os défices públicos não estimulam a economia. Esta conclusão deriva de hipóteses ainda mais irrealistas que a dos mercados perfeitos. Supõe-se que o “agente representativo” sabe que para financiar as despesas públicas o Estado levantará mais tarde os impostos equivalentes. Este “agente representativo” põe-se imediatamente a poupar para os pagar. Por consequência, a baixa de despesas de consumo que daí derivam compensa o aumento das despesas públicas. Além disso supõem que as despesas públicas não têm nenhum efeito positivo directo sobre a sociedade. Por exemplo, a construção de uma estrada cria rendimentos de imediato mas ela pode também estimular uma empresa a aumentar a sua dimensão pois que o custo de transportes dos seus produtos até ao mercado, até ao seu utilizador final mesmo, podem por esta via estar a descer. Outro exemplo: os economistas neoliberais defendem que indemnizar o desemprego não é necessário pois os trabalhadores nunca estão no desemprego (gozam de uns tempos de lazer). Mais grave ainda: os subsídios de desemprego são prejudiciais porque o problema não é uma penúria de empregos para aqueles que os quiserem, é uma falta de esforço para os procurar, e a segurança de emprego só faz exacerbar este “risco moral”. Esta é a linha teórica  que vemos claramente posta em prática  e com que cinismo por este governo e, sendo assim,  se não nos opusermos seremos levados à situação de cidadãos do século XIX, seremos levados pelas mãos do menino de Massamá em primeiro-ministro transformado, pelas mãos de Durão Barroso e de outros altos servidores dos mercados financeiros e das grandes fortunas que deles vivem .

 

 

Compreende-se assim o modelo de referência dos estrangeiros que o nosso programa de política económica vieram impor e compreende-se a coerência das políticas da Troika que está portanto bem conforme ao modelo que acabamos de expor, compreendem-se pois os passos de gigante do menino de Massamá, agora em primeiro-ministro transformado, em querer ir mais longe nos cortes sociais que a própria Troika, como acto de vassalagem e de bem a querer servir. Este é pois o modelo neoliberal e é na base destas hipóteses que nada têm a ver com o mundo real que a Troika, a Comissão Europeia, o Banco central Europeu, o FMI e os Governos nacionais nos querem governar, perdão, desgovernar. E os nossos alunos, os das escolas neoliberais como a Faculdade de Economia da Universidade Nova, poderão saber muito de matemática, e nisso invejo que os outros alunos não sejam assim, mas sabem sobretudo de equações de um modelo representativo de um mundo que não tem nada a ver com o nosso, não tem nada a ver com o universo real em que vivemos, sabem de um mundo que nos querem impor e que nada tem a ver com todos aqueles que trabalham, esses estudantes da Faculdade de Economia da Universidade Nova ou equivalentes, poderão saber muito sobre um mundo que não existe mas muito pouco do mundo real em que vivemos, como a realidade no-lo mostra à evidência com as políticas de resposta à crise, que estes alunos mais velhos estão tenazmente a defender e a aplicar.


Mas os nossos três posts iam mais longe do que isso, pois mostravam que os Estados, os povos, todos os que trabalham e do seu trabalho vivem estavam a ficar dependentes dos mercados, que os nossos dirigentes políticos na ânsia de lhes satisfazer a ganância até a Constituição dos seus respectivos países aos mercados lhes estavam a querer vender.


Depois da crise que estes mesmos mercados criaram é lamentável que a Democracia seja assim verdadeiramente suspensa e entregue como prisioneira a operadores que ganham fortunas a gerar rumores, a criar tremores e a fabricar, depois, verdadeiros tumores sociais. No presente trabalho damos como exemplo o caso da especulação sobre a Societé Générale, sobre BNP-Paribas, sobre o Crédit Agricole que levou a França, a Bélgica, a Espanha, a Itália e a Grécia a proibirem as vendas a descoberto, e tudo isto a partir ao que parece de um artigo de ficção política sobre acontecimentos acontecidos em 2012 publicado pelo Le Monde a 3 de Agosto passado, incluído numa série de doze artigos. O artigo desse dia tinha como título O fiscal de olhos vendados e este regulador era aí e no plano real também, hoje, Jean-Pierre Jouyet.


Desse texto ressalto uma passagem sobre uma das ferramentas mais poderosas que a engenharia financeira de matriz neoliberal criou, os CDS, a arma de destruição maciça a que se refere Warren Buffet, e que esteve na base da falência da AIG, a maior seguradora mundial assim como do banco Lehman Brothers:

 

Os dados do Depository Trust & Clearing Corporation confirmam o que se sente. O volume dos CDS soberanos da zona euro explodiu. Sobre a Grécia, passou-se de 50 mil milhões de euros contra 10 no início do ano e contra dez vezes menos há um ano. Sessenta mil milhões na Espanha, 25 em Portugal.

– E a França?

– O volume triplicou durante doze meses, para 150 mil milhões. A actividade é bastante forte, aparentemente.

– Quem está por trás disto?

– Fundos. Ilhas Caïman, Delaware, Luxemburgo.

– Bancos?

– Talvez. Seria necessário pedir mais informações aos Americanos e trabalhar os dados.

– E na venda? Quem assume o risco?[1]

– Nada mal quanto aos institucionais europeus. Os preços subiram tanto, estes deixam-se tentar.

– Idiotas!

 

Enfim, um mercado poderoso de muitíssimos milhares de milhões em que ninguém sabe quem é quem, nem quem compra e nem quem vende, sem qualquer regulação e relembro aqui que os CDS são o equivalente das vendas a descoberto de que falamos anteriormente de forma extensiva. Percebe-se pois o título dado por Warren Buffet. A citação aqui está a mostrar a opacidade deste mercado. E que fizeram as autoridades até aqui? Praticamente nada. Percebe-se pois, e mais uma vez a nossa agressividade para com os dirigentes políticos europeus que até agora verdadeiramente nada regularam.


(Continua)


[1] Num CDS, temos o comprador que com o pagamento do prémio “compra” a segurança sobre os seus títulos e temos o vendedor que ao receber o prémio, garante o valor estipulado no contrato. Um compra a segurança, o comprador, buyer, o outro vende a segurança, o vendedor, o seller. O risco é assumido pelo vendedor do CDS.

 

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