Ainda a questão do integrismo islâmico – por Carlos Loures

 

Estamos nas vésperas do 11 de Setembro e vamos ser bombardeados com evocações do ataque às torres gémeas. Não tenciono falar no assunto nesse dia, pois não faltará quem o faça. Embora o 11 de Setembro tenha outras efemérides, como é por exemplo o Dia da Catalunha lembrando a tomada de Barcelona em 1714 pelas forças bourbónicas durante a Guerra da Secessão, o golpe de Pinochet no Chile, em 1973. É o dia do aniversário do grande D.H. Lawrence (1885); mas as torres gémeas vão, ser o prato do dia.

 

Morreram 3000 pessoas inocentes – compreenda-se ou não a raiva islâmica, não há volta a dar – foi um crime horroroso e não há desculpa para quem ordenou a sua execução. Porém, para retaliar e evitar novos atentados, os Estados Unidos provocaram centenas de milhares de mortos e já morreram mais de seis mil soldados norte-americanos. Matar três mil pessoas em Nova Iorque é criminoso; só um fanático não estará de acordo. No entanto, desde que em 2003 os americanos invadiram o Iraque, o número de mortos provocados pela invasão ultrapassa já amplamente o milhão. O mínimo que se pode dizer é que é desproporcionado.

 

O tema do fanatismo religioso só me interessa pelas repercussões históricas, sociais e políticas que assume desde, pelo menos, a época das Cruzadas. Num comentário ao texto de ontem, um leitor dizia que não se devia confundir islamismo com cristianismo e que eu só podia estar mal informado ou ser mal intencionado. Sou ateu e como tal as religiões para mim valem todas o mesmo – zero. Encaro todas por igual, a todas considero como disfunções do raciocínio lógico. Os integrismos, então, considero-os pura intoxicação ou actos de estupidez colectiva.

 

Durante as Cruzadas, foi o integrismo cristão que espalhou o terror entre os muçulmanos, com base em princípios religiosos de duvidosa limpidez. Nessa altura, os muçulmanos demonstraram uma maior tolerância. Como é possível, pelo menos aparentemente e para quem, como eu, quase nada sabe sobre religiões, que quatro ou cinco séculos depois de Maomé ter divulgado a sua palavra, houvesse uma compreensão «do outro» muito mais moderna por parte dos islamitas do que acontece agora, um milénio depois.

 

A nós, ocidentais, a visão do mundo actualmente revelada pela cleresia islâmica é semelhante à da cristandade medieval. O que se terá passado para os muçulmanos terem regredido? Passou-se o colonialismo europeu e a prepotência ianque. Derrubado o imenso império otomano, britânicos, franceses, e não só, caíram como abutres sobre os imensos territórios onde, para piorar as coisas, se descobriu petróleo. Já o disse, o terrorismo é uma prática política inaceitável. Mas é o resultado de inomináveis prepotências que se têm exercido sobre os muçulmanos Ultimamente, do Norte de África ao Próximo Oriente, os norte-americanos só querem democracias. E vai de derrubar regimes que não respeitam o figurino.

 

A democracia não se impõe do exterior, o amor por ela nasce no interior das sociedades. Temos, passados todos estes anos sobre a Revolução Francesa, de reconhecer que nem todos os povos querem ser governados de forma democrática. Obrigar africanos e asiáticos a reger-se por esse sistema, é profundamente antidemocrático.

 

Não gosto dos talibãs, nem aprovo as acções da Al-Qaeda. O fanatismo dos islamistas é intolerável. Como ousam querer impor a outros povos a sua crença, por mais verdadeira que entendam que ela é? O que temos nós a ver com o que Maomé disse ou dizem que disse? Os clérigos islamitas são uma caricatura dos padres cristãos da Idade Média. Porém, apesar desta visceral antipatia por essa religiosidade fanática e tacanha, simpatizo muito menos com o terrorismo levado a cabo pelos governos norte-americanos, que, por exemplo, movem uma guerra económica a um pequeno estado das Caraíbas porque tem um regime ditatorial, mas protegem, por esse mundo fora, ditadores, criminosos de toda a espécie, incluindo barões da droga. A prepotência praticada pelos Estados Unidos gera monstros como o do terrorismo islâmico. Criaturas que, por vezes, mordem os criadores.

 

Como aconteceu em 11 de Setembro de 2001.

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