Aurora Adormecida 11 – Eva Cruz

 

 

Eva Cruz  Aurora Adormecida

 

 

Capítulo 11

 

 

(continuação)

 

Aurora passou toda a mocidade na Quinta dos Três Castelos.

 

* Foram os tempos mais lindos da minha vida. Tive uma novice como nin­guém. À noite recebíamos senhoras e senhores da alta roda do Porto. Até um senhor francês, Monsieur Valladier, mais tarde professor da tua mãe. Vinha todas as noites ensinar francês à minha prima, íamos também ao cinema e ao teatro Sá da Bandeira, antes Príncipe Real. Os meus tios nunca saíam con­nosco. Acompanhavam-nos o meu primo e a esposa. Vi o Amor de Perdição, as cartas de Simão e Teresa lançadas ao mar por Mariana. A minha prima Laurindinha até chorou. Adeus! À luz da eternidade parece-me que já te vejo, Simão!…

 

Na rua Trinta e Um de janeiro havia, antes de eu estar no Porto, o teatro Baquet que ardeu por completo. Um dia, contavam os meus tios, estavam preparados uns amigos, pais e filha, para irem ao teatro. A menina mos­trou-se indisposta e foi uma desmancha-prazeres. Naquela noite, apesar da insistência dos pais, ficaram em casa, e nessa mesma noite deu-se uma das maiores tragédias da cidade do Porto. O teatro Baquet ardeu por completo e lá morreu muita gente queimada. Quando ao outro dia se soube a notícia, os pais beijaram a filha, de contentes. Vê lá tu, ela assim salvou a vida aos três. A criança adivinhou a tragédia que se ia dar.

 

° És muito tolinha, avó, a menina não adivinhou nada, calhou assim, avó, calhou assim.

 

* Há coisas que ninguém sabe explicar.

 

° E tu sabes, avó?

 

* Não sei tudo mas há coisas que tu não sabes e eu sei. Está mas é caladinho e não digas a ninguém que vais daqui!

 

O teatro Baquet, na Rua Trinta e Um de Janeiro foi construído em meados do século XIX e passados vinte anos, um terrível incêndio reduziu-o, real­mente, a cinzas e destroços. Morreram cerca de duas centenas de pessoas.

 

O incêndio começou no palco. Uma bambolina foi incendiada por uma gambiarra. Um actor ainda gritou para cortarem uma corda da bamboli­na mas a desorientação foi tal que o incêndio alastrou e tomou proporções desastrosas. No alvoroço, os espectadores correram para as portas de saída que, por azar, eram de abrir para dentro. No desespero esmagaram-se uns contra os outros. Foram dadas ordens para desligar o gás, como medida de segurança, mas o escuro aumentou o pânico e só o clarão sinistro do incêndio passou a iluminar aquele inferno. Foi um tal horror que pôs de luto a cidade inteira, e durante gerações o Porto não esqueceu a tragédia do incêndio do teatro Baquet. Aurora lembra-se de uns versos que corre­ram na época, mas lamentava não os saber de cor, ela que tanto gostava de rimas e a propósito de tudo ou nada rimava.

 

Na verdade, entre os muitos textos escritos nos jornais da época, alguns poe­mas do jornal Charivari mostram o sentimento público perante tal tragédia:

  

É triste a nossa tarefa

N’este momento de lucto

Também pagamos tributo

Á mágoa que vai lá fora.

Não pôde ter nossa penna

Zombeteiras ironias

Perante as magoas sombrias

D’uma cidade que chora.

 

Envolve a cidade inteira

Da morte o manto funerio.

As valias do cemitério

Abrem-se torvas, hiantes.

Sente-se um vento de morte

Estranho, frio, gelado,

Sobre o montão desolado

Das ruínas fumegantes.

 

Ha pranto nos nossos olhos

Tristeza infinda na alma

E tão cedo não se acalma

A magoa que nos invade.

 

Tamanha dôr e pavor

Nos punge neste momento

Que em ondas de sentimento

Choramos com a cidade.

 

(continua)

 


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