O primeiro 11 de Setembro – por Carlos Mesquita

 

(Publicado em 10-09-2011 em O ClariNet)

 

Até ao ataque da Al-Qaeda às “Torres Gémeas” a data “11 de Setembro” estava associada, nas efemérides dos acontecimentos políticos, ao golpe de estado de Pinochet, em 1973, contra o governo legítimo do Chile, de Salvador Allende. O golpe militar fascista no Chile foi sentido em todo o mundo e particularmente em Portugal pela minha geração, que na época e aproveitando a “abertura marcelista” lutava aqui, pela democracia.

O que se passou após o fim da ditadura no Chile, e o trajecto das forças políticas, que fazem um curioso paralelo com o que se passa em Portugal, será matéria para amanhã. Como encontrei nos meus “arquivos” o cartaz que inicia o post, vou recordar a sua história.

Estávamos em 1973, passagem do ano para 1974; eu era desenhador de máquinas numa metalurgia e estudava à noite. Foi ano de campanha eleitoral para as eleições legislativas que se realizaram em Outubro. O Movimento Democrático representando a oposição democrática ao regime de Marcelo Caetano, participou na campanha, mas desistiu de ir a votos por considerar não existirem condições para eleições livres.

No Natal de 1973, José Afonso tinha lançado o álbum “Venham Mais Cinco” (é verdade, já tem uns anitos). O Zeca esteve detido em Caxias de Abril desse ano até finais de Maio, mas tinha uma grande actividade apesar de alguns dos seus concertos terem sido proibidos pela PIDE. Os militantes da oposição aproveitavam todas as ocasiões para juntar os democratas que tinham “aparecido” na campanha eleitoral. Uma festa de passagem de ano vinha a propósito.

Cheguei mais cedo a Sintra, à “casa do Sr. Embaixador”, para com o António “Fogueteiro” preparar os “comes”, que os “bebes” era tinto de Cheleiros que ele tinha trazido. O António teria a idade que eu tenho hoje, era rijo e poeta popular, dirigente do Sindicato dos Mármores e Cantarias (penso ser este o nome), encontrava-o por vezes na cooperativa livreira Esteiros. Os convivas eram sobretudo jovens, homens e mulheres, alguns quadros políticos e oradores, lembro-me de Urbano Tavares Rodrigues ter dissertado sobre a condição da mulher.

Abreviando, após várias intervenções sobre a situação política nacional e internacional, onde se abordou a situação chilena cujo golpe tinha três meses, alguém apareceu com o cartaz (edição World Peace Council), uma raridade. Foi leiloado e o dinheiro foi para a Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos. Eu não tinha muito dinheiro, não sei como fiquei com ele, devo-o ter comprado a meias com os efeitos do tinto de Cheleiros.

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