O Pato algemado – 2 . coordenação de Carlos Loures

 

O Pato algemado

 

 

 

 

 

 

 Hoje, começamos com Millôr Fernandes, um grande senhor do jornalismo satírico.

 

Milton Viola Fernandes nasceu no Rio de Janeiro. Com dez anos vendeu o primeiro desenho. O Jornal do Rio de Janeiro pagou dez mil réis por ele. Em 1938 começou a trabalhar no semanário O Cruzeiro. No mesmo ano ganhou um concurso de contos .Durante algum tempo assinou com o pseudónimo “Vão Gogo“.Em 1941, ainda em O Cruzeiro, e durante 18 anos, assinando sempre “VãoGogo”, encarregou-se da coluna “Pif-Paf”. Já em 1956 esteve presente na Exposição Internacional do Museu da Caricatura de Buenos Aires com o norte-americano Saul Steinberg. Em 1957, ganhou uma exposição individual no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Em 1962, passou a assinar “Millôr” n’O Cruzeiro. Deixou a revista no ano seguinte, devido à polémica causada com a publicação de A Verdadeira História do Paraíso, considerada ofensiva pela Igreja Católica. Em 1964 passou a colaborar semanalmente no suplemento cultural do lisboeta Diário Popular e obteve o segundo prêmio do Salão Canadiano de Humor. Em 1968 começou a trabalhar na revista Veja, e em 1969 tornou-se um dos fundadores do jornal O Pasquim. Nos anos seguintes escreveu peças de teatro, textos de humor e poesia, além de voltar a expor no Museu de Arte Moderna do Rio. Traduziu, do inglês e do francês, várias obras, principalmente peças de teatro, entre estas, clássicos de Sófocles, Shakespeare, Molière, Brecht e Tennessee Williams.

 

Eis algumas frases de Millôr:

 

Como são admiráveis as pessoas que nós não conhecemos bem.

 

Viver é desenhar sem borracha.

 

Democracia é quando eu mando em você, ditadura é quando você manda em mim.

Esnobar
É exigir café fervendo
E deixar esfriar.

 

Não devemos resisitir às tentações: elas podem não voltar.

Esta é a verdade: a vida começa quando a gente compreende que ela não dura muito.

 

Chato…Indivíduo que tem mais interesse em nós do que nós temos nele.

Certas coisas só são amargas se a gente as engole.

 

O dinheiro não dá felicidade. Mas paga tudo o que ela gasta.

Jamais diga uma mentira que não possa provar.

 

 

e uma quadra (publicada no Diário Popular):

Estavas tão tétrica,

tão meditabunda,

que eu medi-te a bunda

com uma fita métrica.

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E agora, um esforço didáctico a bem da literatura: um curso acelerado de escrita criativa (tomai apontamentos):

 

O assassínio do Capitão Marvel

 

 

 – por Sérgio Madeira

 

 

 

– Boa noite! Podem ficar sentados.

 

Vamos falar de literatura e desses escritores modernos que publicam tijolos de 600 páginas : sei lá – o Dan Braun, – que deve ser neto do Braun dos foguetes, e aquele rapaz orelhudo da televisão… não me lembro do nome. Escrevem livros que vejo nas mãos de pessoas que não gostam de ler, mas têm cabedal para aguentar com literatura pesada.

 

Antigamente na época de Luís XV, dos gregos e do cinema mudo, o Hengels ou o Gota, e todos esses tipos, escreviam livros pequenos., mas de categoria. Devia haver falta de papel. Agora as celuloses produzem que se fartam e o Braun e o Rodrigues dos Santos – o tal das orelhas – não são de modas… Talvez ganhem á palavra, que a crise toca a todos.

 

Ouvi dizer que são livros de aeroporto. Devem ter que dar para o engarrafamento na segunda circular, para a bicha do chequine, para a espera na sala de embarque, para a viagem e por aí fora. É para gente que faz viagens à Austrália que, como sabem, fica nos antífonas e demoram mais de vinte horas. Para mim, que leio pouco e devagar, dava-me para uma viagem de circunvalação, como fez aquele rapaz, Magalhães…, mas não deve ter sido o mesmo o que jogou no Porto que esse era do tempo do André, grande aliado dos serviços de ortopedia, e do Chalana Gusmão, um tipo que jogou no Benfica e depois foi para Tomar ou para Timor… Já não é do meu tempo. Esqueçam. Esta minha cabeça é um verdadeiro repositório de conhecimento. É talvez mais um supositório, pois a maior parte do meu saber são suposições – só sei que nada sei, como disse…o coiso – depois lembro-me

 

Mas vamos ao que interessa – um romance de aeroporto nada tem que saber. No primeiro capítulo engendra-se um granel do caraças – por exemplo, um bacano com uma mascarilha à capitão Marvel  entra na igreja durante a missa do meio-dia e grita: – Deus não existe, seus totós! – gera-se porrada de criar bicho. Um cão ladra. Ouvem-se dois tiros .Vem a bófia com aqueles capacetes à Darth Vader , as coisas acalmam… mas (suspense) – há dois cadáveres no chão – o tipo da mascarilha e um pitbull (não falo do que joga no Vitória de Setúbal). Tiros de arma de guerra. Tira-se a mascarilha ao morto e quem é…Uma senhora dá um grito agudo… O detective privado que estava ali por acaso aproxima-se.

 

 – Foi Deus! – diz um padre holandês com uma pronúncia arrevesada.

 

O detective, que percebeu outra coisa, diz – Não ponha dúvida, padre…

 

No capítulo seguinte, não se fala no morto. Passa para um flaxebéque, ou seja uma cena passada tempos antes – tanto pode ser um baile nos Amigos de Apolo, com uma data de pintas de smóquingue e umas senhoras com vestidos a armar ao pingarelho, comprados na loja do chinês, ou, se queremos dar um ar mais internacional, pode ser uns velhos da Amareleja numa excursão a Badajoz, com bonés oferecidos pela junta e a cantar aquela canção interminável – « às quatro da madrugada»… Ou as duas coisas.

 

Terceiro capítulo. Moita. Contenção é a principal qualidade de um escritor de tijolos – nada de falar no crime do primeiro capítulo – Crime? Qual crime? O escritor não pode saber tudo e talvez ainda não saiba quem é que vai ser o morto, quanto mais quem foi o assassino. Até porque só vamos na página cento e trinta. Mas aparece outro morto, Mandrake, um arrumador de automóveis. Nessa altura começa a suspeitar-se de Olívia, a secretária do detective. O rapaz riscara-lhe o carro porque ela nunca lhe dava os dois euros da ordem. Por alturas da página 200 , sabe-se quem era o Marvel – é um rapaz da Amareleja que frequentava os Amigos de Apolo e andava metido com Titânia a empregada brasileira da loja de Man chu, o chinês onde as dançarinas compraram os vestidos. Além disso, era primo da secretária do detective. O mundo é uma aldeia, como disse aquele sujeito… chopsuoy, chopsky, chomski. Não interessa, isto não é um curso de linguística.

 

Estão a ver a subtileza? Tudo parecia nada ter a ver fosse com o que fosse, e tudo começa a ligar-se. O chamado nexo, que deve ser o contrário de sexo, ou seja “nega” em linguagem simples. Por isso é que escrever literatura de aeroporto não é para todos.  Conhecimentos de grego, de latim, de etipologia, de onoplástica… Até eu fico banzado com o que sei! Continuemos.

 

A secretária do detective, afinal não era a criminosa… Digo era, porque levou um balázio na mona à saída da discoteca. O suspeito passa a ser o chinês, filho do dono da loja, que andava a treinar na Academia de Alcochete e era uma das armas secretas do Futre. Anda metido com a brasileira e não levou a bem o envolvimento dela com o Mandrake…

 

 Mas o chinês tem um colibri do caraças, à hora do crime, estava a festejar o Ano do Coelho em companhia de muitos patrícios. Por volta da página 480, o detective descobre que é sonâmbulo e pode ter sido ele a cometer os crimes todos e vai assim, tomando xanax, e bebendo meios-uísques até á página 520 – grande revelação, o Marvel vivia em união de facto com o arrumador de automóveis. Foi o Mandrake que ciumento do caso com a brazuca fez a folha ao Marvel. A prima do detective sabia de tudo e já tinha dito que ia à Judite desabafar… Aí descobre-se – página 599 – que afinal o criminoso era o padre… Qual padre? O padre holandês, que quis atirar com as culpas para cima de Deus. Porquê? Ora, é óbvio – porque andava metido com a prima do Mandrake e na confissão soube que o Mandrake e a prima praticavam aquela coisa o… in cesto. Deve ser latim, qualquer modernice romana, pois já li o camasutra de ponta a ponta e não encontrei nada que se pudesse fazer dentro de um cesto. Só se for o Plastic Man, o Homam de Borracha. Ou então o Luís de Matos… Ehehehe … in cesto, o que eles inventam… Continuemos.

 

A cena final – Quando o padre é preso ainda diz com a sua pronúncia arrevesada: – Fu o Manchu!

 

 – Homem, não seja chinófobo – recomenda-lhe o detective, com superinspecção.

 

Convém acabar os romances com uma frase seca que revele toda a inteligência e espírito aberto do investigador privado. Depois, dita a frase, modestamente, sai de cena e perde-se na neblina… Lindo! …perde-se na neblina…c’um camandro! Até estou comovido – Como é que eu sei tanto? São coisas do forno íntimo, como disse aquele… o…Bem, depois lembro-me do nome. Vocês sabem do que estou a falar.

 

Para a semana continuamos com o nosso curso. A próxima lição é sobre um tema muito em volga nos romances políticos – a teoria da constipação e como encontrar o chamado bode respiratório, o artolas que fica com a culpa, quase até a meio. Tomaram apontamentos? Eu vou tomar uma bujeca, porque estas dissecações fazem-me uma sede que vocês nem calculam.

 

Até para a semana – portai-vos bem, na minha ausência.

 

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Neste mesmo anfiteatro, a aula a seguir é dada pelo Gato Fedorento:

 

 

 

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O Pato algemado traz hoje até vós um autor pouco conhecido em Portugal – o escritor de língua castelhana Max Aub, com alguns dos seus

 

CRIMES EXEMPLARES

 

Max Aub, escritor nascido em 1903, em Paris. Filho de uma francesa e de um judeu alemão, emigrou com a família em 1914 para Valência, vindo a adoptar a nacionalidade espanhola. Durante a Guerra Civil, combateu no Exército republicano, exilando-se, em 1942, no México. Autor de uma obra vasta, entre a qual se destacam o romance «Las buenas intenciones» (1954) e os seis volumes de «El laberinto mágico» (1943-1968).

 

Morreu na cidade do México em 1972.

 

Esta selecção de micro-contos foi extraída de «Crímenes ejemplares» (1956). Segundo o autor diz no prefácio da primeira edição, este é material que «passou da boca ao papel, aflorando o ouvido» – confissões de crimes recolhidas em Espanha, em França e no México. Vamos deixar que aflorem aos vossos olhos, ressoando depois aos ouvidos da vossa imaginação. E vamos reincidir – traremos mais microcontos – hoje serão apenas oito.

 

Meus amigos – Max Aub e alguns dos seus CRIMES EXEMPLARES

 

 1 – « – Antes morta! – disse-me. E eu só quis fazer-lhe a vontade!»

  

2 – «Sou barbeiro. É uma coisa que pode acontecer a qualquer um. Até me atrevo a dizer que sou um bom barbeiro. Cada um tem as suas manias. A mim, incomodam-me as borbulhas.

Foi assim: comecei a barbeá-lo calmamente, ensaboei-lhe o rosto com destreza, afiei a navalha no assentador, experimentei a suavidade do fio na palma da minha mão. Sou um bom barbeiro! Nunca desiludi ninguém. Além disso, aquele homem não tinha a barba muito cerrada. Mas tinha borbulhas. Reconheço que aquelas espinhazitas nada tinham de especial. Mas incomodam-me, põem-me nervoso, revolvem-me o sangue. Fiz a primeira passagem, sem problemas; na segunda sangrou um pouco. Não sei o que então me deu, mas acho que foi uma coisa natural, aumentei a ferida e depois, não pude resistir e, de um golpe, decepei-lhe a cabeça.»

 

 3 – «Começou a mexer o café com leite com a colherzinha. O líquido aflorava o bordo do copo, levado pela acção violenta do utensílio de alumínio. (O copo era ordinário, o lugar barato, a colherzinha gasta, roída de tanto utilizada.) Ouvia-se o ruído do metal contra o vidro. Riz, riz, riz, riz. E o café com leite dando voltas e mais voltas, com uma concavidade no centro. Maelstrom. Turbilhão. Eu estava sentado na sua frente. O café estava cheio. O homem continuava a mexer e a remexer, imóvel, sorridente, olhando-me. Algo crescia dentro de mim. Olhei-o de tal maneira que se sentiu na obrigação de explicar:

 

  – O açúcar ainda não se dissolveu.

 

Para mo provar, deu umas pancadinhas no fundo do copo. Voltou depois com energia redobrada a mexer metodicamente a beberagem. Voltas e mais voltas, sem descanso, e o ruído da colher no bordo do vidro. Raz, raz, raz. Sempre, sempre, sempre sem parar, eternamente. Volta e revolta e volta. Olhava-me sorrindo. Então, puxei da pistola e disparei.»

 

 4 – «Abri-a de alto a baixo, como se fosse uma rês, pois olhava indiferente o tecto enquanto fazíamos amor».

 

 5 – «Íamos como sardinhas em lata e aquele homem era um porco. Cheirava mal. Todo ele cheirava mal, sobretudo os pés. Garanto-lhe que não se podia suportar. Além disso tinha o colarinho da camisa negro de sujidade e o pescoço ensebado. E olhava-me. Uma coisa asquerosa. Ainda quis mudar de lugar. Pode não acreditar, mas aquele indivíduo seguiu-me. Era um cheiro a demónios e pareceu-me ver sair bichos da sua boca. Talvez o tenha empurrado com um pouco de força a mais. Agora não me culpem pelas rodas do autocarro lhe terem passado por cima!»

6 – «Matei-o porque julguei que ninguém estava a ver.»

 

7 –  «Era tão feio, o pobre tipo que, cada vez que o encontrava, era como que um insulto. E tudo tem um limite.»

 

 

 8 «Penso, logo existo, disse o tal homem famoso. As árvores do meu jardim existem, mas não creio que pensem, pelo que fica demonstrado que o senhor René não estava bom do juízo e que o mesmo acontece com outros seres: o meu sogro, por exemplo – existe, mas não pensa. Ou o meu editor, que pensa, mas não existe. E se pomos isto ao contrário, também não fica certo. Não existo porque penso ou penso porque existo. Pensar, pensa-se, existir é um mito. Eu não existo, sobrevivo, porque viver – aquilo a que se chama viver – só os que não pensam. Os que se metem a pensar, não vivem. A injustiça é por demais evidente. Bastaria que pensássemos para nos suicidarmos. Não; senhor Descartes: vivo, logo não penso, se pensasse não vivia, se vivesse não pensava, senhor… etc., etc. Se para viver fosse necessário pensar, estaríamos lúcidos. Mas, enfim, se os senhores estão convencidos de que assim é, estou inocente, completamente inocente, pois não penso nem quero pensar. Logo, se não penso não existo e, se não existo, como diabo posso ser responsável por essa morte?»

 

 

(Traduções de Carlos Loures, feitas a partir da edição da Espasa Calpe, Madrid, 1999.)

 

 O Pato e os seus amigos despedem-se – Até para a semana!

 

Mas não sem antes apresentar uma última lição, esta de anatomia – sabem o que é o risorius de Santorini ?

 

É o nome dos músculos que têm de trabalhar para nos rirmos – sempre dentro do nosso espírito didáctico, explicamos por imagens:

 

 

 

O risorius de Santorini numa autópsia e em acção num… cadáver vivo!

                                                                     

                                                                             

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