Victor Jara – a voz do povo chileno – por Carlos Loures

 

(Com algumas diferenças, este texto foi publicado antes no blogue Aventar)

 

Víctor Jara Martínez nasceu em Chillán, uma localidade da província de Ñuble, na região de Biobio, 400 km a sul da capital, Santiago, em 28 de Setembro de 1932, filho de modestos camponeses. Seu pai, Manuel Jara, trabalhava a terra e sua mãe, Amanda, era uma mulher corajosa e inteligente – cantora e tocadora de viola, oriunda do sul do país e de origem mapuche, possuía um grande conhecimento sobre a cultura popular chilena. Com a população da aldeia reunida em torno de uma fogueira, cantava para os aldeãos, trabalhadores rurais, suas mulheres e filhos.

 

Víctor recordava como sua mãe cantava e como se deitava escutando a sua voz e olhando as estrelas no céu imenso. Esta influência materna ditou, por certo, o futuro do jovem, pois trabalhando desde os seis anos no campo, ajudando seu pai, nos fins-de-semana acompanhava sua mãe, actuando em casamentos, baptizados, velórios. Apesar destas actividades, estudava e sempre foi bom estudante.

Víctor tinha quatro irmãos – María, Georgina (Coca), Eduardo (Lalo) e, o mais pequeno, Roberto. Devido a um acidente sofrido por María, a família foi morar para Santiago, em busca de melhores condições. Víctor e seu irmão Lalo foram matriculados no Liceu Ruíz-Table. Ambos obtiveram bons resultados nos estudos.

 

Entretanto, com a sua viola e a sua voz, Amanda ia permitindo que a família Jara sobrevivesse e até progredisse economicamente. Ao fim de algum tempo, os Jara mudaram-se para o bairro «Chicago Chico», onde Víctor se relacionou com outros jovens próximos do Partido Democrata Cristão. Conheceu Omar Pulgar. Em 1950, subitamente, Amanda morreu e os problemas recomeçaram.

 

Mudaram-se para Población Nogales onde Víctor reencontrou os irmãos Julio e Humberto Morgado, seus colegas do Liceu Ruíz-Table. A família Morgado acolheu Víctor que, abandonou temporariamente os estudos para ajudar Pedro Morgado, o chefe da família, no seu negócio. Foi então que o padre Rodríguez aconselhou Víctor a entrar no Seminário da Congregação dos Redentoristas, em San Bernardo. Conselho que Víctor acatou.

 

«Foi, para mim, uma decisão muito importante», dirá mais tarde, «Estava já envolvido com a Igreja e, naquele momento, procurei refúgio no seu seio». Porém, dois anos mais tarde, apercebendo-se da sua falta de vocação para o sacerdócio, abandonaria o seminário. Foi prestar serviço militar.

 

Em 1953, ingressou no grupo coral da Universidade do Chile, participando nos Carmina Burana, de Carl Orff. Começou a estudar arte dramática e direcção de actores na Escola de Teatro de Universidade do Chile. Fez parte do grupo de canto e dança popular «Cuncumén». Aí travou conhecimento com Violeta Parra, a grande folclorista chilena (1917-1967), que o incitou a prosseguir a carreira de músico.

 

Em 1959 encenou a sua primeira obra teatral. Entre as muitas peças que dirigiu, encontra-se a «Mandrágora» de Maquiavel. Com o grupo musical «Cuncumén», fez uma grande digressão pela Europa – Holanda, França, União Soviética e outros países de Leste.

 

Em 1961 compôs a sua primeira canção – «Paloma, quiero cantarte». Em 1966 gravou o seu primeiro LP. Começou a ser conhecido fora do Chile como cantor de intervenção. Em 1969, com a canção «Plegaria a un labrador», que aqui se reproduz na interpretação de Jara, venceu o I Festival da Nova Canção Chilena. Em 1970, envolveu-se activamente na campanha para a eleição de Salvador Allende.

 

Em 1971, nomeado embaixador cultural do Governo de Unidade Popular, trabalhou com o Ballet Nacional do Chile e colaborou no Departamento de Comunicações da Universidade Técnica do Estado. Continuou a editar discos e a sua fama cresceu, dentro e fora do Chile. Entre 1972 e 1973, trabalhou como compositor na Televisão Nacional. Fez uma nova digressão, agora por Cuba e pela União Soviética. Quando, em 1971, Pablo Neruda ganhou o Prémio Nobel da Literatura, Víctor Jara dirigiu a Homenagem nacional que prestada ao grande escritor. Como podemos ver, uma carreira brilhante. Até que chegou o dia 11 de Setembro de 1973…

 

O golpe de Estado de Augusto Pinochet, surpreendeu Víctor na universidade. Com outros professores e alunos, foi preso e levado para o Estadio Chile, transformado em campo de concentração. Membro do Partido Comunista do Chile, os seus versos contra a injustiça social são conhecidos pelos assassinos. Há muitas versões sobre as torturas a que foi sujeito. Cortaram-lhe as mãos (ter-lhe-ão dito, depois de o mutilarem: «Toca agora, filho da puta!»). No dia 16, após cinco dias de martírio, mataram-no. O fascismo sempre se sentiu ultrajado pela cultura. Porque será?~

 

Aqui deixo o poema que escreveu nos primeiros dias de cativeiro e que alguns companheiros conseguiram preservar (não sei a quem se deve a tradução):

 

Somos cinco mil

 

nesta pequena parte
da cidade.

Somos cinco mil,

quantos seremos no total,

nas cidades e em todo o país?

Só aqui dez mil mãos que semeiam

e fazem andar as fábricas.

Quanta humanidade,

com fome, frio, pânico, dor

pressão moral, terror e loucura!

Seis de nós se perderam

no espaço das estrelas.

Um morto, um espancado como jamais imaginei

que se pudesse espancar um ser humano.

Os outros quatro quiseram livrar-se de todos os temores

um saltando no vazio,

outro batendo a cabeça contra a parede,

mas todos com o olhar fixo da morte.

Que espanto causa o rosto do fascismo!

Levam a cabo os seus planos com precisão fantástica,

sem que nada lhes importe.

O sangue, para eles, são medalhas.

A matança é acto de heroísmo.

É este o mundo que criaste, meu Deus?

Para isso os teus sete dias de assombro e trabalho?

Nestas quatro muralhas só existe um número

que não cresce

e que lentamente quererá mais a morte.

Mas prontamente me golpeia a consciência

e vejo esta maré sem pulsar,

mas com o pulsar das máquinas

e os militares mostrando seu rosto de matrona,

cheio de doçura.

E o México, Cuba e o mundo?

Que gritem esta ignomínia!

Somos dez mil mãos a menos

que não produzem.

Quantos somos em toda a pátria?

O sangue do companheiro Presidente

golpeia mais forte que bombas e metralhas.

Assim o nosso punho golpeará novamente.

Como me sai mal o canto

quando tenho que cantar o espanto!

Espanto como o que vivo

como o que morro, espanto.

De ver-me entre tantos e tantos

momentos do infinito

em que o silêncio e o grito

são as metas deste canto.

O que vejo nunca vi,

O que tenho sentido e o que sinto

Fará brotar o momento…”

 

_______

 Deja la vida volar, por Victor Jara

 

 

1 Comment

  1. Víctor Jara foi o cantor do povo Chileno. Tive o prazer de o ouvir e ver no Chile de Allende. Antes, eu não morava no Chile. Na nossa casa de Cambridge demos acolhimento e carinho a sua mulher inglesa, Joan Jara e a sua filha Paula, amiga da nossa Paula. Joan tinha que cumprir deveres de viúva do Víctor. Ficávamos com a filha. Entendíamos. Viviam afastados. O Víctor teve muitos amores que o seduziam. A sua morte, apesar dos esforços do rescadar do sítio de morte em que estava, não foi frutífera. As três mulheres do Víctor fizeram o impossível. Incluindo a minha antiga amiga e orientada, Penélope Pollit, também no estádio da morte certa. Nora do Presidente do PC Britânico, recolheu os papeis ensanguentados, juntou-os e fez deles o verso que CarlosLoures publicara nesta memória. Nunca soubemos onde foi enterrado. Até o dia de hoje.
    Raul Iturra
    lautaro@netcabo.pt

Leave a Reply