A arte pela mudança social – Carlos Loures

 

 

O Congresso Europeu da Cultura, iniciado na passada  quinta-feira, foi encerrado, Domingo, dia 11, na cidade polaca de Wroclaw, capital da Baixa Silésia. A organização esteve a cargo do ministério da Cultura e do Património Nacional, do Ministério dos Negócios Estrangeiros e do Instituto Nacional do Audiovisual – e apresentou uma  ampla programação com debates, cinema, música, dança, ópera, teatro e artes visuais. Participaram cerca de 300 agentes culturais (programadores culturais, jornalistas,  economistas)  e artistas de várias áreas, polacos e estrangeiros.  Portugal foi representado por Joana Cardoso, do Gabinete de Planeamento, Estratégia, Avaliação e Relações Internacionais. Um dos focos de debate, foi  a Arte pela Mudança Social (Art for Social Change).

 

No editorial de ontem destacámos a intervenção do pensador polaco Zygmunt Bauman na sessão de abertura, quando afirmou que os principais recursos económicos europeus, são os recursos culturais. Afirmação que permite aos que sempre defenderam a indissociável ligação da arte à vida, ao real quotidiano, um sorriso de vitória. Artistas, a gente da cultura em geral, têm sido olhados como adornos sociais por uns e como deuses por outros. Na minha opinião (minha, porque a compartilho com todos os que assim pensam), nem uma coisa nem outra – o artista, o escritor, o pensador, é um trabalhador e cumpre uma função social específica – a de, baseado na experiência do dia a dia, sonhar o futuro. O artista, não se evade da realidade –  mergulha profundamente nela. Um bom poema, pode dizer-nos mais sobre a natureza de uma crise económica, política, social, do que as análises de especialistas. Necessárias, na perspectiva do imediato, mas sempre superficiais, prisioneiras da sua linguagem técnica e até de códigos deontológicos. Tudo factores circunstanciais que podem nada ter a ver a com  a realidade. Mas, debrucemo-nos um pouco mais sobre algumas das intervenções deste Congresso.

 

“O futuro da Europa depende da cultura”, disse Zygmunt Bauman. Pedindo aos congressistas que durante os quatro días das sessões não vissem televisão para não serem contagiados pelo pessimismo, acrescentou que “o mundo está a transformar-se num mosaico de diásporas, num arquipélago de culturas”. Situação que podendo ser benéfica por trazer riqueza, pode também criar uma incomunicabilidade babélica. Por isso o escritor e pensador polaco defendeu o investimento em sistemas de tradução que permitam edificar uma «nova biblioteca de Alexandria».

 

Indo no mesmo sentido, Philippe Kern, advogado e lobbista cultural, afirmou: “Temos de deixar de pensar a cultura como uma ilha autónoma no seio do quadro social” (…)  “Em alturas como esta, devemos situá-la no centro do discurso social e económico da nova sociedade”(…) “e não só porque actualmente a industria cultural proporciona milhões de empregos e representa uma parte importante do PIB, nem tampouco porque a China querendo desenvolver uma economia criativa vem à Europa em busca de talento, mas também porque, embora não nos apercebamos, ela é o nosso principal recurso económico, tal como o petróleo o é para outros”.”Quando falamos de inovação”, acrescentou “supomos que ela apenas pode vir do campo da tecnologia, quando na realidade é o campo da tecnologia que vem beber nas ideias e tendências que surgem no campo da cultura”. “Há que atrair artistas para as empresas, para que com o seu olhar possam encontrar alternativas”.

 

Para o professor de Economía da Cultura da Universidade de Veneza, Pier Luigi Sacco, as novas tecnologias permitem-nos trazer um completo estúdio cinematográfico num computador portátil, o que não só nos dá a possibilidade de criar, mas a de dispensarmos a figura do intermediário e – mais importante – a de produzir arte sem necessidade de financiamentos económicos.

 

Não pensa da mesma maneira o director da Kunsthalle de Viena, Gerald Matt, para o qual uma coisa é a cultura e outra, muito diferente, a arte que, a  título individual, alguém realiza. Matt colocou um interessante paradoxo para estes tempos de crise e de dívida, quando a fiscalidade está de rastos e as grandes fortunas apontam para um reforço dos mecenatos segundo o modelo dos Estados Unidos. “O dinheiro que vem das instituições é igualmente público, quer provenha do Estado através dos impostos, quer seja procedente de doações privadas que, em última análise, são deduções fiscais e, por conseguinte, são impostos.».

 

O fotógrafo Oliviero Toscani, mestre da provocação, saiu-se com esta: “O Estado é um estorvo” (…) “uma máquina de mediocridade gerida por burocratas para os quais a criação artística, que por definição é subversiva, lhes surge como um un anátema”.

 

A diversidade cultural foi também apontada como uma fonte de enriquecimento e de revitalização. Na sua intervenção o presidente do município de Wroclaw contou um episódio interessante: Em meados do século XIII, os invasores mongóis destruiram e saquearam a cidade. Recentemente o embaixador da Mongólia na Polónia visitou  Wroclaw e num acto oficial ouviu descrever as barbaridades praticadas pelos seus antepassados. Ao usar da palavra, sem se ofender, disse “Quem importa quem ganhou ou quem perdeu? O importante foi que nessa altura nos conhecemos pela primeira vez”.

 

Uma maneira de interpretar a história sob uma perspectiva cultural.

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