Sobre rumores, sobre tremores, sobre tumores, uma análise do capitalismo moderno, por Júlio Marques Mota

 (Conclusão)

 

Comentário Final

 

Júlio Marques Mota

 

Esta história dá pois uma boa imagem do mundo actual completamente minado por múltiplas bombas e de vários  níveis de destruição, sensíveis a tudo o que se ouve ou que se imagina que se ouviu, sensíveis,  as bombas,  a todos os erros de tradução, a todos os rumores que se possam inventar, bombas estas de que são responsáveis os homens que nos dirigem e a quem responsabilidades devem colectivamente ser exigidas. E são estes os homens que por cobardia por ignorância ou por  malvadez  estão a levar o mundo a esta situação. Lembro-me eu de ter lido algures num jornal imaginário qualquer e passível de estar  escrito, gravado, no coração de milhões dos desempregados de hoje e à escala da Europa,  sobre um pai que terá tido muita dificuldade, muita dificuldade mesmo em responder às perguntas de  filho seu com 9  a 10 anos, e que até há dois anos terá vivido bem, mas  que, de repente, tem um ou mesmo os dois pais desempregados e tem fome e tem frio  e tem necessidade de dinheiro para ir para comprar o passe escolar para ir para a escola e tem necessidade de dinheiro para ir ao médico e  tem necessidade de dinheiro para comprar livros e  tem necessidade de comprar óculos,  porque estavam sujeitos à precariedade mais absoluta. Esse pai teve muita  dificuldade em  explicar a essa criança, ao seu filho,  que se virou para ele, para o pai, com os olhos grandes e belos como os de  todas as crianças que querem ver, querem compreender e na mão  o mundo querem ter:

 

 

 

– Pai, porque é que agora não tens dinheiro?

 

Porque não trabalho desde há  muitos meses.

Porque é que não trabalhas?

Porque a fábrica fechou.

Porque é que a fábrica fechou?

Porque o patrão não vende o que se fabrica?

Porque é que o patrão não vende?

Porque as pessoas não têm dinheiro.

Porque é que as pessoas de repente não têm dinheiro?

Porque, de repente, as pessoas  deixaram de trabalhar.

E, de repente,  não trabalham, porquê? O que é que aconteceu de repente às fábricas, aos campos, aos escritórios ?

Nada.

Então porque é que de repente não há trabalho se nenhum terramoto destruiu a nossa cidade, nenhum tsunami invadiu a nossa cidade, quando nada a fábrica destruiu, quando nada disto aconteceu?

Porque …porque…porque…não há dinheiro.

Então para onde foi, de repente, o dinheiro que antes havia?

Não sei, não sei, gritou.

 

E a criança com tudo isto se assustou, e mais ainda quando para o pai olhou e no seu rosto viu também que a dor nele se estampou , e com tudo isto essa criança muito chorou. Tentou, de novo, mas agora as perguntas da criança e as respostas do pai sucediam-se em círculo,  repetiam-se até que a criança, de cansada, fechou os olhos, sem perceber nada do que lhe estava a acontecer mas a perceber também que este mundo não era para ela entender. Assim  se  deixou  dormir enquanto  o  pai, triste,  a olhar para ele ficou  e ficou   sem saber o que da vida devia fazer, assim parado a olhar para o seu filho ficou.. O resto de uma lágrima do canto do olho lhe limpou e sentiu que também ele de lágrimas estava cheio, de lágrimas que não lhe corriam pela cara, que lhe corriam pelo corpo dentro, que faziam dele um rio, um rio que caminharia talvez apenas silenciosamente  para o mar.  Lembrou-se de Marrocos, da Tunísia, do Cairo, de Tripoli, de Londres, de Madrid, de Atenas, do Chile, de Telavive, de todos estes revoltados ou indignados, lembrou-se que todos estes rios interiores, como os nossos de há  muito já adultos, lembrou-se que todos os rios exteriores como os de todos os jovens que esta realidade sofrem, irão todos em conjunto criar, irão todos eles em conjunto desaguar no mar da revolta que se transformará em mar da esperança e sonhou…

 

Sonhou também que um dia a resposta, a solução, ao filho havia de poder oferecer.  E assim se  lembrou  de uma frase do artigo ”maldito”: acabe-se com a incerteza nos mercados  e 80 % dos nossos problemas estão resolvidos. Tão simples, tão difícil, afinal.

 

Sonhou. Sonhou simplesmente acabar a com incerteza  significa acabar com o actual sistema financeiro, significa deixar de estar perante um sistema que ao mínimo engano de um financeiro qualquer, de um  jornalista que uma outra língua mal sabe ler pode fazer todo um sistema explodir, acabar com a incerteza  significa uma outra regulação,   significa acabar com a base da alimentação dos mercados financeiros actuais, significa  abrir as vias para um outro capitalismo. E a este respeito sonhou ter lido algures, e mais uma vez o  prémio Nobel Joseph  Stiglitz, neste caso, do final do seu livro Freefall, onde afirma: “ tornou-se banal lembrar que os caracteres com que se escreve a palavra crise em chinês significam chinês perigo ou coisas boas.  O perigo já o vimos bem. Agarremos então  a ocasião para reencontrar o nosso equilíbrio entre o mercado e o Estado, entre o individual e o colectivo, entre o homem e a natureza, entre os meios e os fins. É-nos hoje possível criar um  novo sistema financeiro que fará na verdade o que os seres humanos  esperam de um verdadeiro sistema financeiro.

 

Sonhou que nos é  hoje possível criar um novo sistema económico  capaz de criar empregos  que tenham sentido, capaz de assegurar um trabalho decente a todos aqueles que querem trabalharm capaz de fazer com que  a fractura  entre os ricos e os pobres se venha a reduzir em vez de se estar a expandir.

 

Sonhou que nos  é hoje  possível criar uma  sociedade nova onde cada um terá os meios de realizar as suas aspirações e seja possível viver ao nível das suas potencialidades  onde haverá cidadãos capazes de estar à altura dos valores partilhados (estes que se enunciaram), é-nos hoje possível criar uma colectividade que tratará dos nosso planeta com o respeito que o longo prazo vai certamente exigir.  Todas as possibilidades estão à nossa frente. O perigo real, hoje, é o de não as agarrarmos”.

 

Sonhou com tudo isto e sonhou  ainda que a Avenida da Liberdade em Lisboa, que a Avenida dos Aliados no Porto,  que as fábricas, as Universidades  e os  campos deste país   de gente a protestar se haviam de novo encher,  encher  com  todos aqueles que um outro Abril haveriam de fazer porque outro mundo querem ter que não este que vive e se alimenta de rumores, de tremores, de tumores diariamente a refazer. E percebeu que também ele não percebia a resposta que ao filho não deu, pois também se cansava a pensar  porque anda afinal  tanta gente a emprego  não ter, porque é que tanta gente diariamente está o seu emprego a perder, também ele se cansava, afinal, da resposta não  conseguir encontrar. Mas continuou a sonhar  também que um dia a resposta e a verdadeira solução, ao filho havia de poder oferecer. 

 

Coimbra, 4 de Setembro de 2011

 

Júlio Marques Mota

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