Quando as agências de rating vêm em socorro dos países atacados. Do nunca visto na zona euro, por Sean Farrell, The Independent de 11 de Agosto de 2011. Selecção e tradução por Júlio Marques Mota.

Depois da série Rumores, Tremores e Tumores, os visitantes, os leitores de A Viagem dos Argonautas que não tenham formação em Economia poderão pensar que nesta peça haveria algum exagero, exageros de um homem de esquerda, de mal com o mundo actual mas não consigo próprio, e que, como sabe que outro mundo não tem, procura neste fazer o melhor que lhe é possível. Exagero, então? Já depois de ter a série escrita e em fim de publicação fiquei a saber que nessa série ficámos muito aquém do que na verdade se terá passado em Agosto, e é essa informação que hoje aqui vos trazemos. Estivemos à beira de mais uma crise dentro da crise, à beira de mais um colapso do sistema pelos nossos políticos bem escondido, porque mostra mais uma vez e no limite a incompetência destes mesmos políticos face aos mercados que estão em pura espiral de loucura. Mas pelos seus gestos, pelas suas aspirações que não são as nossas, pelas violência das suas apostas, é o mundo real que é vítima sucessivamente das apostas destes loucos e não há quem os coloque num manicómio com muitos políticos que ao seu serviço estiveram.


Como dizem os Indignados em Espanha, mijam para cima de nós e convencem-nos de que está a chover e tudo enquanto nós neles andamos a votar. É tempo de mudança.


Um artigo de The Independent, de 11 de Agosto de 2011. Boa leitura

Júlio Marques Mota

 

Texto

 

O sistema bancário europeu em queda livre à medida que o medo invade os mercados novamente.

 

Sean Farrell

The Independent, 11 de Agosto de 2011

 

O medo dominou os bancos da Europa ontem com as acções dos credores franceses e italianos mergulhados em preocupações que estavam ligadas à perda de valor dos seus títulos devido à crise da zona euro.

A Société Générale levou à descida dos valores dos bancos franceses dado que os rumores de mercado sobre a sua situação financeira levaram à descida das suas acções em mais de 20 por cento durante a sessão de bolsa. A Société Générale, o segundo maior banco francês, foi forçado a emitir um comunicado negando que estivesse em dificuldades, e que se tratava de um ataque especulativo.


A cotação das acções da Unicredit e de Intesa, dois dos maiores bancos de Itália, foram suspensas por causa da volatilidade a que estavam sujeitas. Os receios acerca da dívida soberana da Itália levaram à descida da cotação destes bancos, respectivamente em 9,4 e 13,7%.


Os bancos franceses foram atingidos por rumores de que a França iria ter a mesma sorte que os Estados Unidos e ia pois perder o seu triplo A de notação de crédito. As acções da SocGen fecharam com uma descida de 15 por cento, e quase metade nas últimas quatro semanas. O banco BNP Paribas, o maior banco de França, desceu 9,5 por cento.


A SocGen também foi vítima de um erro tipográfico num gráfico da Reuters que foi difundido e que desencadeou preocupações e interesses sobre o banco, um grande trader, e que estaria a tentar levantar dinheiro vendendo futuros sobre o ouro mais baratos a 12 meses do que a um mês.


Mais tarde, o mercado foi varrido pelo boato de que um segurador francês não identificado estava em dificuldades financeiras e tinha vendido as suas posições, as suas acções, sobre a SocGen.


A SocGen revelou na semana passada uma queda nos lucros do segundo trimestre dado que o banco tinha sido atingido pela sua grande exposição ao risco sobre a dívida soberana grega. O banco também admitiu que é improvável cumprir as suas perspectivas de lucros para 2012.


Um porta-voz da SocGen disse que não tinha havido nenhuma mudança a partir do comunicado anterior sobre os lucros, acrescentando: “A SocGen nega categoricamente todos os rumores do mercado”.


A zona do euro está em perigo de contágio da crise com origem nos países ditos periféricos como a Grécia e Portugal e também nos países de economias importantes, como a Itália, a Espanha ou mesmo a França. Os medos acerca de se saber quais os bancos atingidos pelo facto de deterem títulos emitidos pelos países em dificuldades provocaram uma crise nos mercados inter-bancários fazendo disparar os custos dos empréstimos aí contraídos. Simon Maughan, analista da MFGlobal, disse: “Basicamente, os bancos deixaram de emprestar uns aos outros por causa das histórias que de novo um ou outro destes bancos possa estar a ir ao fundo e foi assim que se criou um outro problema, o problema de liquidez”.


A situação lembra a turbulência dos mercados interbancários depois da falência de Lehman Brothers em Setembro de 2008, fazendo descer a pique os valores das acções e fazendo igualmente disparar os custos de financiamento e da dívida conduzindo o sector financeiro ao colapso total.

Na semana passada o Banco Central Europeu começou a comprar títulos dos Governos italiano e espanhol para conter a crise mas os mercados duvidam que a sua vontade ou a sua capacidade seja suficiente para barrar o caminho para a queda.


Segundo Maughan, as tentativas ditas dos bancos centrais em atenuar ou eliminar os medos dos mercados consistiam de facto em hastear “bandeiras vermelhas” ao mercado. “Tudo o que eles fizeram foi só de boca, foram só palavras e não acções, o que eles disseram foi que “nós estamos extremamente preocupados com a situação”, e isto deu a justificação para as pessoas começarem de novo a vender.


Os bancos britânicos eram também vítimas da venda ao desbarato. Barclays caíu 8,7 por cento, seguido pelo bancos Standard Chartered and Royal Bank of Scotland em que ambos desceram mais de 7 por cento. O banco Santander, o maior banco de Espanha, caiu 8,3 por cento. Pelo lado americano aconteceu o mesmo movimento de descida ao longo da sessão de bolsa.


Sarkozy interrompe as suas férias para enfrentar os temores de que a França possa perder o seu triplo A de notação de crédito


As principais agências de rating estariam alinhadas para retirar a sua notação, a da França, no meio de uma enorme especulação de que a França, a segunda maior economia da zona euro, teria o mesmo destino que os Estados Unidos, a descida do seu rating, do seu triplo A.


As agências Moody e Fitch repetiram que mantinham a sua avaliação da qualidade de crédito da França, o triplo A, procurando combater rumores que Paris estava já na calha para uma redução da sua notação quanto à qualidade de crédito. Os seus comentários vieram um dia depois de Standard & Poors -a agência que esteve por detrás do corte do rating dos EUA- dizendo que a França continuava a merecer uma classificação AAA, uma posição reiterada ainda ontem pelo analista N. Swann da S & P, que disse que o país tinha sido mais sério que os Estados Unidos em lidar com as suas questões orçamentais.


O presidente francês, Nicolas Sarkozy tentou acalmar o nervosismo também, interrompendo as suas férias para falar com os seus ministrosem Paris. Sarkozypediu ao ministro do Orçamento, Valérie Pécresse, e ao ministro das Finanças, François Baroin, para estabelecerem os planos que acelerem o processo de redução do serviço da dívida da França, o maior país da Europa com a notação de triplo A.

Os planos devem ser entregues a Sarkozy, que voltou de férias na noite passada, e ao primeiro-ministro, François Fillon, na próxima semana, com os mecanismos formais para serem aprovados mais tarde mas ainda este mês.

Leave a Reply