UM CAFÉ NA INTERNET – Tempo com Espectador (Ensaios de literatura portuguesa), de Manuel G. Simões. Resenha Crítica por Sílvio Castro.

Um café na Internet


 

 


 

                                     

 

 

 

 

 

 

 

Em boa hora, Manuel G. Simões decidiu de colocar uma boa parte de seus estudos literários dispersos por diversas publicações e sedes num volume. São dezenove ensaios que, partindo da herança medieval, cobrem a fase moderna, a partir do século XVI ao XX°, da literatura portuguesa e que mostram a constante presença de um verdadeiro scholar.


                       O novo livro do autor de Garcia Lorca e Manuel da Fonseca. Dois poetas em confronto (1979) é uma demonstração da presença internacional de um dos mais finos estudiosos portugueses, bem como grande exemplo da chamada, muitas vezes com certo desprezo esnobe, “crítica universitária“. Esta se manifesta nos estudos de Manuel G. Simões por uma formação filológico-linguística de clara profundidade; de uma consciência metodológica, correspondente, que dá sempre um grande equilíbrio às análises realizadas; de uma erudição ampla, mas que jamais se desequilibra em elaborações de predominantes valores gratuitos, rejeitando dessa maneira qualquer forma de manifestação crítica impressionista. Tudo, praticamente, vem questionado pelo autor. Por isso, deve ser notada a importância da vasta gama de notas que acompanham o volume, 383, elaboradas para alargar o texto analisado, porém sem abandonar o sentido mais consciente de uma verdadeira erudição.


Simões percorre mais de cinco séculos da produção literária portuguesa com base na sua formação metodológica. Por isso mesmo, para cada período a adequação entre linguagem e sistema analítico se cumpre em maneira visível, dando-nos, mesmo em matérias muito tratadas, como aquela referente ao universo camoniano, a sensação de novidade crítica. Isto acontece igualmente com a literatura contemporânea quando, por exemplo nos temas dedicados a Pessoa, a dita sensação de novidade crítica se afirma com serenidade. E mais ainda, quando na conclusão do volume nos defrontamos com os ensaios de total contemporaneidade, tal serenidade crítica alarga a força da argumentação da análise.


                    Desta maneira, os 19 ensaios, antecipados por uma “Nota prévia“ que nos mostra o autor na plena posse de todas as suas qualidades de crítico moderno, esses 19 ensaios percorrem valores marcantes da modernidade literária portuguesa.

        

Para uma maior clareza analítica, iniciamos a nossa consideração do volume a partir dos trabalhos que se referem diretamente à matéria literária portuguesa produzida por autores dos séculos XV, XVI e XVII. Esta parte do volume principia com o singular ensaio, “O panegírico de Portugal nas ‘Cartas de Itália’ de Lopo de Almeida“, no qual Simões aborda com grande modernidade o texto que simbolisa o momento de maior ufanismo lusitano, presente no texto do embaixador português que acompanha a infanta D. Leonor, segunda filha de D. Duarte e irmã de D. Afonso V, para a confirmação de seu casamento com o imperador Frederico III.  A esse estudo segue aquele outro que aborda um tema de particular importância e significado na economia da produção de Gil Vicente, a do judeu: “A crítica e o ‘tipo’ do judeu em Gil Vicente“, com o qual vem ainda uma vez, mas com nova clareza, estudada a importante questão. O universo camoniano encontra em Simões um significativo analista, com o ensaio que trata de uma das temáticas gratas ao também poeta Manuel Simões, o da errância: “Sôbolos rios: a poesia da diáspora“. Concluímos este primeiro grupo de estudos do volume de Simões com o ensaio dedicado a um dos séculos mais ricos da literatura portuguesa, o século XVII, aqui representado pelo erudito trabalho “Subsídios para o estudo da poesia de Violante do Céu: a poesia profana”.


Um segundo grupo de estudos, segundo um nosso exclusivo critério de análise, o vemos referido em particular ao Brasil, numa confirmação do também brasilianista que é Manuel Simões. A partir dessa angulação, englobamos três ensaios do volume, ambos de grande qualidade e de clara independência crítica do autor: “O Padre António Vieira e o Brasil“, “Matias Aires: Subsídios para a História do Iluminismo em Portugal“ e “Percursos do Iluminismo em Portugal: Matias Aires e o ‘O Problema da Arquitetura Civil’ “. Esses estudos se inscrevem entre os melhores trabalhos realizados em Portugal e por estudiosos portugueses sobre a cultura literária brasileira, bem como sobre a questão, muitas vezes tratada com dúbia isenção, sobre as relações entre a mesma e aquela portuguesa.


                      Um terceiro grupo de estudos, eu os identifico nos reveladores ensaios “A função intertextual de Carlos Fradique Mendes“ e “As metamorfoses de Don Juan na poesia portuguesa da ‘Geração de 70‘ “. Com o primeiro, a invenção de rara modernidade do poeta-heterônimo realizada por Eça de Queirós e companheiros de Geração encontra uma iluminante análise, assim como a temática provocatória do donjuanismo no mesmo grupo recebe magnífica definição por parte do ensaísta e comparatista que convivemem Manuel G.Simões.


Um possível quarto grupo penetra diretamente na grande produção literária portuguesa do século XX através da figura de Fernando Pessoa. Ao excelso poeta são dedicados quatro estudos, todos de grande importância para a melhor compreensão da modernidade pessoana, em modo especial aquele, também muito integrado na poética tratada, de “As metamorfoses do ‘eu’ em ‘Ode Marítima’ de Fernando Pessoa“.


Ainda referidos à modernidade novecentista são os estudos dedicados à ficção moderna de dois autores de particular significado no quadro literário do Portugal contemporâneo, José Rodrigues Miguéis e José Saramago. Ao primeiro é dedicado o ensaio “Memória de uma errância na ficção de José Rodrigues Miguéis“, enquanto a Saramago, Manuel G. Simões vai buscar no primeiro romance do grande romancista as razões essenciais da formação ideológico-literária do Prêmio Nobel da literatura portuguesa: “Formas da cultura popular e irradiação semântica em ‘Levantado do Chão‘ “.


Conclui essa possível penúltima parte dos estudos do volume, aquele que o autor dedica com grande e renovada erudição a um tema de constante atração dos estudiosos literários: “A Bíblia na poesia portuguesa contemporânea“.


Compondo um último grupo de minha arbitrária criação, encontramos dois ensaios que se referem mais diretamente á formação política e cultural de Manuel G. Simões, o primeiro referido a dois eventos internacionais de profundo significado formativo, “ ‘Hiroxima’ e ‘Vietname’: memória poética e consciência ética“; o segundo, àquele momento histórico da modernidade portuguesa que conduz o país a novos tempos, porém tratado pelo autor com a sua conhecida capacidade de isenção crítica: “ ‘Poemabril’: memória e desencanto da “Revolução dos Cravos”.


Com este volume, o estudioso e professor titular de literatura portuguesa da universidade italiana Ca’ Foscari, de Veneza, reafirma as excelsas qualidades que fazem dele uma das figuras mais significativas da literatura portuguesa contemporânea, tanto no plano da poesia, quanto naquele da crítica e dos estudos literários.

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