Um café na Internet
Num jornal do Norte do país, “disseram-me” uma vez que os meus artigos não deviam ultrapassar os 1 800 carateres.
Levei a imposição tão a sério que, a partir daí, limei-os, poli-os, rebarbei-os de tal modo que quando os enviava, eles tinham exatamente 1 800 carateres.
Isso me levou a escrever um trabalho – que li em público – intitulado AS MINHAS DORES DE PARTO – (OU “DE QUANTO ME CUSTA DAR À LUZ UM ARTIGO …” ). Talvez por o ter lido em público, é que a rubrica acabou sem me darem quaisquer satisfações…
Em Coimbra tive o proveito de ser aluno do Prof. Doutor Manuel de Paiva Boléo. Não tive – infelizmente para mim – a honra de ser seu discípulo.
Acerca dessa ilustre personagem, leio na INTERNET: Manuel de Paiva Boléo foi um dos mais importantes, eminentes e destacados linguistas portugueses do século XX”.
Distinguiu-se especialmente como dialetologista. “Contactou e conviveu com Leite de Vasconcellos, de quem foi amigo. Este contacto foi decisivo para a atividade posterior de Paiva Boléo na renovação da Dialetologia portuguesa”.
Foi nas suas aulas – ou a estudar para elas – que soube de como Leite de Vasconcelos tinha iniciado o seu “aprendizado” de Mirandês.
Segundo leio no próprio Leite de Vasconcelos (e transcrevo salteado):
Em 1882, disseram-lhe que andava matriculado na Academia Politécnica um rapaz de Miranda do Douro, que sabia com perfeição a língua dessa terra, pois a falava desde criança. Era Branco de Castro.”
E num domingo que ficou como uma das mais luminosas recordações do enorme Filólogo que foi J. L. V…
“Branco de Castro, reclinado sobre a cama, no seu pequeno quarto de estudante, recitava vocábulos, conjugava verbos, declinava nomes; eu, sentado numa cadeira ao pé, ia apontando fervoroso tudo o que lhe ouvia”.
“Subia então ao auge o seu espanto, quando, não se lembrando casualmente de um vocábulo, ou não lhe acudindo logo à memória a flexão de um verbo, eu lhos indicava teoricamente, apenas baseado nas leis que pouco a pouco ia deduzindo dos factos observados.
Assim, ao cabo de algumas horas, e com mais uma ou outra notícia que colhi posteriormente, obtive materiais que me bastaram para caracterizar nas suas feições mais gerais o mirandês.”
Acredito-desejo que estas não tão breves palavras – já vou em 1873 carateres… – tenham algum interesse para os meus Companheiros de viagem.
Magalhães dos Santos
10 de setembro de 2011
(2002 carateres)
(ou 1563)

