Aurora Adormecida 16 – Eva Cruz

 

Eva Cruz  Aurora Adormecida

 

 

Capítulo 16

 

 

(continuação)

 

Um dia, resolveu passar com a filha pela Quinta dos Castelos. Perdera o rasto da família. Laurindinha morreu, morreram tio e tia, e mais  tarde o primo, com quem pouco contacto tivera. A quinta, muito desprezada, tinha ainda tudo no seu lugar. Não faltavam os torreões, a pérgula de japoneiras, o catavento, a escadaria, os portões altos e o gradeamento de ferro e os três castelos junto à linha, guardiães altivos e imponentes da memória daquela mansão e daquela família. Vivia lá a viúva, a mulher do primo, já velha, uma sombra do que fora, senhora da alta-roda, arruinada, a queimar os últimos resquícios da ilusão. Aurora pediu licença e correu a casa toda.

 

* Aqui era o meu quarto e o da Laurindinha.

 

A saudade dessa felicidade longínqua recolhia-se nos seus olhos, que se fechavam para esconder a emoção e não deixar cair uma lágrima. Aurora nunca chorava. Nos momentos mais dramáticos nunca soltara uma lágri­ma, por pequenina que fosse. No quarto da prima viu então a fotografia de um senhor.

 

* Não é este o primo, pois não?

 

— Não, Aurorinha, é o senhor com quem vivo.

 

* Era o amante. Foi sempre uma mundana, que coragem! Nunca teve nada a ver com a minha prima Laurindinha. A minha prima tinha outra decência, muito mais recatada. De nada lhe valeu, coitadinha, não teve sorte nenhuma e bem merecia tê-la.

 

Sempre que ia ao Porto pedia para passar por Gaia, ver a Afurada, os Quatro Caminhos, e o portão alto da quinta, lá ao fundo.

 

* Deíxem-me só espreitar, foi o tempo mais lindo da minha vida, deixem-me só espreitar.

 

Um dia, entrou pelo portão aberto, com o neto mais velho pela mão, meteu-se pela casa dentro, toda esventrada e vazia. Vivia lá uma família de ciganos. Era tal a ânsia de revisitar a sua vida e a sua juventude que se deixou rodear de vários homens um tanto desconfiados, e de mulheres e crianças ciganas. Queria a todo o pano saber notícias da sua gente. Eles nada conheciam, para grande angústia sua. Tinham apenas ocupado a casa que estava em ruínas.


* O meu tio levantava-se do túmulo se visse isto!


Olhou em volta e só restava o vazio adornado de passado. Deixou-se em­balar pelo cheiro das flores que ainda se aventuravam nos restos de jardim e pela música do piano de cauda do salão grande, tocada pelas mãos singulares da prima Laurindinha.

 

* O Senhor a tenha em eterno descanso e se compadeça da sua alma.

 

Sonhava acordada. Pagou a um cigano para lhe arrancar um arbusto e uma japoneira que por lá iam morrendo à sede. Plantou-as no quinta do Engenho. A árvore morreu mas a japoneira cresceu e deu flores vermelhas e singelas.

 

* Vê lá, eram camélias dobradas e agora são singelas, como eu!

 

Um dia, já velhinha, com os olhos baços de cataratas, foi de novo es­preitar a quinta e crispou as mãos ossudas nas grades do portão fechado, olhar desterrado no vazio. Já nada existia. A casa desaparecera, os castelos esboroaram-se, as silvas cobriam árvores e japoneiras. No meio dos ferros velhos erguia ainda a crista o galo do cata-vento. As mãozitas descarnadas desprenderam-se lentamente do portão e Aurora entrou no carro, calada para o resto do dia. Nunca mais voltou à Quinta dos Castelos. Esta última visita é recordada no poema que o filho lhe fez:

 

Mãos sem poder nem domínio

sem rigor nem justiça

mãos impermanentes

demasiado abertas

para os punhos fechados que encerram.

Mãos secas

pegadas à idade das pedras

a cabeça de ontem

nas grades ferrugentas de hoje.

Olhos molhados

um olhar mendigo a tempos de outro tempo.

Dentro da quinta em ruínas

no meio de silvados

urtigas e ervas daninhas

anos e lustros a caminho de séculos.

Quinta dos Castelos

a imagem da Laurindinha

no confuso cérebro de uma velhinha

que muito amou.

Os olhos de minha mãe

cheios de outroras

mostram-me

sem lágrimas

todas as lágrimas do mundo

nas lágrimas de tudo

o que se verte em lágrimas

por dentro e por fora do tempo.

Restos de um lago seco

entulhos e restos

esqueletos de japoneiras

escadas sem fins nem degraus

portas e janelas esventradas

de foras e sombras.

Mãe

que o sol se lembre de nascer

onde o carinho é poema

onde o amor e o mar se tocam

dentro de uma gota de orvalho.

 

(continua)

 

 

1 Comment

  1. Não posso deixar de comentar a beleza de afectos desta Aurora adormecida: a escrita que nos faz voar para lá daspalavras. Parabéns Eva… e Adão, este poema que é uma sinfonia de amor e de mar.Beijos para os dois, Inês

Leave a Reply