Aurora Adormecida 17 – Eva Cruz

 

Eva Cruz  Aurora Adormecida

 

 

Capítulo 17

 

 

 

(continuação)

 

A Quinta do Engenho era muito bem tratada pelo caseiro. Tudo crescia em abundância.

 

* A colheita dava para mim e para a tia Emília e ainda fazia dinheiro com as sobras. A água do merujo da presa dos meeiros regava então o linho, O linho dava muito trabalho, mas eram lindos aqueles campos cobertos de azul celeste. A flor do linho era muito azul e bonita. Depois de semeado era arrancado. A arrancada era uma festa. Em cima do linho davam-se pulos, risadas e vira-cus. As fibras eram depois postas de molho no rio, espadeladas num cortiço, secas, assedadas no sedeiro com pregos, lavadas nas barreias, fiadas e dobadas. Quanto mais corado fosse o linho mais branco se tornava. E os lençóis de linho branco eram tão lindos e frescos! Nas camas dos doentes, o melhor eram os lençóis de linho.

 

Para além da Quinta do Engenho, herança do pai, possuía Aurora ainda um carvalhal e um olival por parte da mãe, em Anissó, uma pequena aldeia semeada no coração do Minho.

 

A mãe nascera no seio de uma família simples, e em pequenina fora para casa de um tio rico, em Penafiel, onde foi educada e com quem emigrou para o Brasil.

 

Com a veíha tia Emília decidiu Aurora ir a Anissó, conhecer a família da mãe e tratar da sua herança.

 

* Entre camioneta e carro de praça levámos um dia a chegar. Aí passámos uma semana. A casa dos meus avós era toda em pedra, junto à igreja. Tinha uma varanda em madeira cheia de cravinas cor-de-rosa e cravos vermelhos. Estava toda florida e um cheirinho a cravinas perfumou a nossa chegada. Parece que estou a ver os meus avós e as minhas tias muito branquinhas e rosadas.

 

* Que linda que é, parece a nossa Raquelinha!

 

* Naquela semana ninguém trabalhou. Foi uma festa. Tocava-se viola e dançava-se. Mataram-se cabritos.

 

Era visita da casa um escrivão chamado Bernardino, que fez a escritura da venda da sua herança, um olival e um carvalhal, por dois contos de reis.

 

* O escrivão morria por mim. Os meus avós e tias viam ali um bom futuro. Um homem de bem e rico. A minha tia Emília não via o encanto com bons olhos. Não me queria perder por terras de Anissó.

 

E por lá não ficou Aurora.

 

* Vai-te embora, amor, não julgues 

que eu te fico a chorar

ainda estou em tempo

de melhores amores tomar.

Já te quis, já te não quero

já te perdi a afeição

já te deitei de rebolo

fora do meu coração.

 

Com o dinheiro da venda deu Aurora um arranjo à Casa do Engenho conforme podia e sabia. Continuava, mesmo assim, a viver com a tia lá no topo da aldeia, por baixo do miradouro, sobre o vale.

 

* Fui sempre uma mulher séria e não queria dormir sozinha na Quinta do Engenho.

 

A aldeia era linda. Ramadas cobriam as orlas dos campos verdes de milho. O linho continuava a crescer mas dava muito trabalho, e pouco a pouco Aurora foi deixando de o cultivar.

 

Ao fundo do vale corria o Caima por entre juncos, choupos e salgueiros. No açude das Remolhas, ao longe, onde o Caima recebia as águas cristali­nas do Vigues, passeavam-se em barquinhos os ricos da terra. Mais perto da Quinta do Engenho, o rio dividia-se para formar ilhas de verdura e seixos, e na furna as lavadeiras lavavam e coravam a roupa. Aí corria uma levada ao lado do rio, até à Varziela, onde taramelavam os moinhos que moíam o milho das terras, a troco da maquia, umas quartas ou um sermil de farinha.

 

* Eu ia lavar a roupa ao rio com as lavadeiras da terra. A minha roupa era a mais branca e a mais linda que por lá se estendia a corar. Tive que me adaptar mas os meus princípios eram outros. Ia às festas e às romarias. A romaria da Senhora da Saúde era a maior. Modifiquei os meus vestidos ao jeito da terra, e de farnel na cesta ia com a minha tia, juntando-me às rusgas, de manjerico à orelha, ao som das pandeiretas. Eram tempos diferentes, também lindos mas muito diferentes. Os rapazes atrás de mim eram aos montes. Não tinha ar de labrosca e era bonita e branquinha, de pele cor-de-rosa e acetinada.

 

° Eras como as outras avozinha, uma parolita armada em fina.

 

* Parolo é ele, parola nunca fui. Fui mulher de vida, isso sim. Se fosse outra vendia o que tinha e comia do ganhado. Deixei-vos muito e isto é o pago.

 

Chamá-la de parola era o pior que lhe podia acontecer.

 

* Eu, parola, a minha mãe era uma senhora muito distinta e eu fui educada em casa dos meus tios no Porto como uma princesa. Tomaras tu.

 

° Então não achas que a mamã nos educa como príncipes?

 

* Príncipes?! Só se for com orelhas de burro, a avaliar pela educação que levam!

 

Ficava arreliada com os netos mas amava-os cegamente. Eles tratavam-na como quem trata uma criança, tu cá, tu lá, uma relação afectuosa e comovedora. Gostavam de a arreliar e de a provocar até aos berros.

 

º Vou-me embora, avozinha, portas-te mal, vou-me embora.

 

* Some-te da minha vista.

 

Passados minutos perguntava aflita:

 

* Que é feito deles? Para onde foram esses marotos?

 

E já homens feitos continuavam a arreliá-la. Para ela eram sempre meninos.

 

* Vê lá que eles podem cair ao poço.

 

(continua)

 

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