UM CAFÉ NA INTERNET – O CRÍTICO, SEGUNDO PAULINO VIOTA*. NÓTULA SOBRE O TEXTO ‘EL VAMPIRO Y EL CRIPTÓLOGO’. POR JOSÉ DE BRITO GUERREIRO

Um café na Internet

 

 

 

 

 

Paulino Viota classifica os críticos como vampiros ou como criptólogos. 


O vampiro é um tradutor, que pode ser autor, e que tem uma linguagem própria. Para o crítico tradutor as imagens e os sons convertem-se em significantes de uma linguagem que ele previamente conhece.


O crítico criptólogo é mais refinado, menos apriorístico e mais escrupuloso que o crítico tradutor. Para ele, a linguagem do objecto em análise está num idioma que à partida nos é desconhecido. O crítico criptólogo tem de descobrir, na mesma materialidade do filme, qual é o idioma particular, próprio de cada filme, em que este está escrito.


Contudo, de qualquer modo, ambos os tipos de críticos têm em comum o fundamental: para os dois, cada imagem e cada som de um filme é um significante de um significado; cada imagem conecta-se num sistema de significação com as demais. E a tarefa do crítico é contribuir para tornar legível esse sentido.


O cineasta vampiro não está interessado em especial no sentido, na decifração do filme que tem pela frente, mas apropria-se das suas formas e da sua materialidade imediata. Não lhe interessa tanto os recursos técnicos tal como são apresentados, quanto como alguns desses elementos, ou um conjunto particular, uma conjunção deles, ressoam no seu próprio estilo, ajustam-se ao seu próprio gosto pessoal, ou desenvolvem esse gosto numa determinada direcção, modificando-o e enriquecendo-o. Da mesma forma que isto acontece conscientemente ou não, também se pode ser um vampiro inconsciente, pois nem sempre sabemos quais são as coisas que verdadeiramente nos influíram.

 

O vampiro é um ladrão de formas, todavia não é um ladrão plagiário, mas alguém que ao apoderar-se de formas alheias as torna próprias, transformando-as, ainda que seja sem querer, por sua própria intensidade criativa: o grande artista, mesmo que queira ser plagiário, não consegue sê-lo.


O criptólogo, pelo contrário, seria o polícia. A função deste crítico é muito semelhante à do investigador policial. Nas imagens e sons do filme o crítico tem de procurar mais “marcas de significação”, mais “provas de convicção”, em que possa fundamentar as suas interpretações afirmativas. Mas o criptólogo além de polícia é também juiz: tem de avaliar. Inclusive na mera análise, na descrição, é impossível evitar que continuamente surjam avaliações, por implícitas que sejam. Estas avaliações dos críticos juízes aparecem, na sua mais impudica nudez, nas revistas, nas quais atribuem aos filmes mais ou menos estrelas, como se de hierarquizações militares se tratassem (um filme coronel, ou um filme capitão).


O que importa é que qualquer filme, por mais simples que seja, será sempre mais complexo que uma afirmação ou uma negação. O bom crítico vê-se no prazer de investigar, no prazer de descobrir e de estabelecer conexões.


Além de polícia e juiz, o criptólogo também é médico. Ao menos, se não cura, faz por meio dos filmes diagnósticos psicológicos ou sociais. As significações que extrai do filme são os sintomas de uma doença. De uma doença ou de saúde, claro, mas na prática muito poucos serão os casos de saúde, tanto psicológica como social, que o crítico possa discernir.


O crítico tem de estabelecer e asseverar um sentido.

 

 

* Realizador e professor de cinema.

 

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