OS HOMENS DO REI – 18 – por José Brandão

Afonso Sanches (1288? -1329?)

Em 1290, à data do nascimento do herdeiro de D. Dinis, infante real D. Afonso, eram já nascidos este bastardo D.

Afonso Sanches, um outro que foi o conde D. Pedro e uma D. Maria Afonso. Reconhecidos e recolhidos na Corte, foram os três bastardos confiados à guarda e tutela da própria rainha, ao passo que o rei subtraía o infante real D. Afonso à educação e influência de sua mãe, para que o ânimo viril lhe não enfraquecesse em tal ambiente de mística devoção. De muito novo, porém, o bastardo D. Afonso Sanches se tornou o filho preferido de D. Dinis, quer pela progenitura, quer por se ter dedicado também à poesia trovadoresca, como era então requinte da Corte.

 

Foi essa preferência de seu pai a causa do violento ódio do príncipe herdeiro, especialmente a esse irmão bastardo, e que, enfurecendo-o de ciúmes, começou a ameaçar a paz pública desde 1314, depois que seu pai deu a D. Afonso Sanches o cargo de mordomo-mor do Reino, o de maior convivência com o monarca no despacho dos negócios do Estado. Alguns nobres partidários do infante real convenceram-no então de que seu pai intentava esbulhá-lo da coroa, por secretas negociações com a cúria da Santa Sé para legitimação do primogénito bastardo. D. Afonso Sanches tinha entretanto casado com D. Teresa Martins, filha de Martim Gil de Sousa, segundo conde de Barcelos, de quem era a vila de Codiceira, perto de Albuquerque.

 

Parecia ter-se feito a paz., mas, em 1319, os maus conselheiros do infante real, acirrando-lhe mais o ânimo contra o bastardo, em rebeldia aberta o lançaram contra seu pai, provocando uma verdadeira guerra civil que se prolongou, sanguinária e feroz, por 1320 e 1321. Nesta luta teve intervenção apaziguadora a Rainha Santa Isabel que, em Alvalade se interpôs entre as hostes inimigas já postas em ordem de batalha. Negociadas tréguas em 1322, por intervenção da Rainha Santa, Afonso Sanches, no ano seguinte, pediu de Costela e conseguiu do seu pai que o deixasse voltar ao Reino. Por esse motivo o bravio infante, apesar das juras feitas a sua mãe, reacendeu a guerra civil, e Afonso Sanches voltou à sua forte vila de Albuquerque, onde em Janeiro de 1325 o surpreendeu a morte de D. Dinis.

 

O primeiro acto de Afonso IV, quando já rei, foi o confisco dos bens de seu irmão D. Afonso Sanches, não obstante o bastardo lhe ter feito preito de submissão e oferecer-se para o servir lealmente. Afonso IV não cedeu, e recomeçou a guerra fratricida, a que Afonso Sanches, pela revoltante injustiça, ripostou, reunindo vassalos e tropas suas em Castela e, ajudado pelo infante castelhano D. Filipe, invadindo Portugal por Bragança em nova guerra que se prolongou a 1326.

 

Ninguém no Reino aprovava tal ferocidade; e por isso a rainha viúva, Santa Isabel, já recolhida no mosteiro de Santa Clara, em Coimbra, de novo interveio na sua missão de paz, conciliando os dois irmãos e conseguindo mesmo que o filho legítimo restituísse ao enteado bastardo os bens confiscados e o autorizasse a voltar ao país, instalando-se com sua mulher, D. Teresa, em Vila do Conde, onde viveram em paz os últimos anos duma vida tormentosa, fundando o imponente mosteiro de Santa Clara, fazendo muitas esmolas, socorrendo a gente humilde. Falecido em 1329, D. Afonso Sanches ficou sepultado na igreja do seu mosteiro de Santa Clara.

 

A seguir: Conde D. Pedro (1282-1354)

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