Louise von Salomé nasceu em São Petersburgo no ano de 1861. Era a sexta criança da família e a primeira
menina, filha de um general, oficial do czar russo, com quem tinha uma grande relação afectiva. Lou foi educada na fé em Deus, em quem via um amigo invisível, auxílio e protecção, fé, mais tarde perdida. Foi um pastor protestante que a iniciou em leituras tradicionalmente não ensinadas nem nas escolas, nem às mulheres: filosofia, lógica, teoria do conhecimento, metafísica, teologia, literatura francesa e filosofia alemã. Aconselhou-a a ler Descartes, Pascal, Voltaire, Rousseau e Kant… .Aos 19 anos, Lou deixou São Petersburgo, instalando-se em Roma. Aí conheceu Paul Rée, filósofo, que era amigo de Nietzsche. Desse convívio nasceu, por parte de Nietzsche, uma paixão. Depois de vários desencontros, Nietzsche escreveu: “Devo-lhe o sonho mais bonito de minha vida”.
Em baixo: Lou, Rée e Nietzsche (1882).
Esta fotografia dos três amigos ficou bastante famosa, pois Lou segurava um chicote, enquanto os amigos estavam presos à sua mão através de cordas.
Aos 26 anos conheceu o professor Carl Andreas, quinze anos mais velho, e com ele se casou. Em 1892 escreveu o primeiro estudo feminista sobre as mulheres da obra de Ibsen. Em 1897, foi apresentada ao poeta René-Marie Rilke, mais jovem que ela. Até então Lou mantinha com todos estes homens importantes na sua vida – inclusive o marido – uma relação que ela chamava de amizade e em que o contacto carnal não existia. Rilke casou em 1901 mas não interrompeu a correspondência com Lou. “Ninguém me conhece como tu”, escrevia ele. Esta amizade só terminou com a sua morte. Conheceu Freud em 1911, passando a estudar a psicanálise. Em 1912, já escrevia a respeito de sua importante relação com esta disciplina: (…) o estudo da psicanálise assombra-me sem cessar e quanto mais a aprofundo, mais ele me cativa” (…). Correspondeu-se e conviveu com o “pai” da psicanálise, tornando-se muito amiga de sua filha Anna. Freud apoiou-a monetariamente, em momentos difíceis da sua vida. Lou foi intervindo em congressos, reuniões sobre psicanálise, trabalhando com seus pacientes, além de escrever artigos para revistas especializadas. A chegada ao poder dos nazis em 1930 foi uma ameaça para ela, porque estes consideravam a psicanálise como uma “ciência judaica” e pretendiam a sua eliminação. Nessa altura, Lou estava doente e não podia deixar o país. Pediu ajuda ao amigo fiel da última fase da vida, Ernest Pfeiffer, a quem entregou todos os seus papéis e correspondência para que os publicasse postumamente. Analisando a sua obra, há quem se interrogue como é que foi possível ela ter convivido e influenciado homens tão importantes, sem por eles ser dominada. Ao todo, Lou escreveu 20 livros e mais de 100 ensaios e artigos.Morreu em 1937, quase a completar 76 anos. Dias depois da sua morte, os nazis confiscaram toda a sua obra e documentos pessoais. Fiquemos com o seu pensamento: “A vida humana – na verdade, toda a vida – é poesia. Nós a vivemos inconscientemente, dia a dia, fragmento a fragmento, mas, na sua totalidade inviolável, ela nos vive”.
Obras:
1892 – Personagens femininos de Ibsen;1894 – Friedrich Nietzsche em sua obra; 1895 – Ruth; 1896 – Sobre uma alma perturbada; 1898 – Fenitschka; 1899 – Os filhos dos homens; 1901 – Mamãe ; 1902 – Na zona crepuscular; 1910 – O erotismo; 1917 – Três cartas a um menino; 1919 – A casa e O diabo e sua avó; 1928 – Rainer Maria Rilke; 1931 – Carta aberta a Freud; Publicações Póstumas 1951 – Revendo minha vida; 1952 – Correspondência Lou Andreas-Salomé – Rainer Maria Rilke; 1958 – Na escola de Freud; 1982 – Cadernos íntimos dos últimos anos
A seguir:
LOU SALOMÉ E NIETZSCHE




Uma figura de mulher extraordinária. Inteligentíssima e com uma personalidade extremamente ousada para a sua época. É pena haver tão poucos livros seus traduzidos em Portugal. Espero que te lembres, Clara, do nome do filme que sobre ela foi realizado, salvo erro, pela Liliana Cavani . Não consigo lembrar-me.
Não sei o título em portugês. Mas aparece como “beyond goos and evil”Pois aqui está a cena do filme que corresponde à fotografia dos três personagens. Nãi sei enviar de outra forma…The Nietzsche, Ree, Salome Photo Scene (http://www.dailymotion.com/video/xi1pmm_the-nietzsche-ree-salome-photo-scene_creation) por Victor_Eremita (http://www.dailymotion.com/Victor_Eremita)
É isso mesmo. Em italiano, também, tem esse título, o do ensaio do Nietzsche “Para além do bem e do mal”. Cá é que, por vezes, gostam de dar títulos para chamar espectadores. E, não me recordando exactamente qual era, sei que insinuava uma relação da Lou Andreas-Salomé com dois ou três homens em simultâneo. Não me lembro se o Rilke aparecia. Obrigada, está óptimo.
“Para Além do Mal” foi o título em Portugal.. O título original é o do ensaio de Nietzsche – Al di là del bene e del male. O filme foi realizado em 1977 e estreado em Portugal em 1982.
É irónico. Quem terá imposto a eliminação de “para além do bem”? Como é que descobriste?
Oi. Sou visitante do Brasil. Tenho que concordar com você. Esta mulher foi extremamente maravilhosa. Pena que são poucos os livros publicados. Falar sobre um tipo de mulher assim naquela época, ainda assusta a muitos em nossa época.
Então não assusta?! Assusta mais do que falar da guerra :))
Não, não me assusta. Guerra me assusta. 😉