Os HOMENS DO REI – 21 – por José Brandão

Diogo Lopes Pacheco (1304-1383)

 

 

Fidalgo português, senhor de Ferreira de Aves. Foi conselheiro de D. Afonso IV, entre 1325 e 1357, com responsabilidades na sentença que conduziu à execução de D. Inês de Castro em 1355. Após o assassínio desta o seu nome e os de Pêro Coelho e de Álvaro Gonçalves foram apontados como sendo os dos executores dessa cruel sentença de morte. Diogo Lopes Pacheco foi mesmo um dos carrascos de Inês de Castro. Tendo fugido para Espanha e vivendo exilado do reino à morte daquele monarca, conseguiu escapar à vingança do rei D. Pedro I. Pacheco não esperou por ver de onde é que lhe arrancavam o coração. Primeiro, refugiou-se nas suas terras de Ferreira de Aves, mas os sinais da vingança chegaram-lhe cedo e fugiu.

 

Dessa fuga contam-se muitas lendas, uma das quais uma história de pendor bíblico em que um mendigo avisa Diogo Lopes Pacheco de que estão à espera para o prender e este se disfarça com as roupas do mendigo para, mais uma vez, escapar. D. Pedro, envolvido pela paixão e pelo secreto casamento que mantinha com Inês de Castro, colocava-se sob a influência temida dos Castros, eles próprios usando a paixão do rei para fomentar um reagrupamento do sistema de alianças que significava nova guerra com Espanha. A escolha de D. Afonso era a de evitar uma guerra externa — eliminando o principal instrumento dessa guerra, Inês — e correr o risco de uma interna. Diogo Lopes Pacheco, como aliás muitos dos mais altos homens do seu Estado, aconselharam a cortar o mal pela raiz, a executar Inês.

 

O rei ouviu-os, e aquilo que na época era a justiça ditou e executou a sentença e Inês foi degolada e não apunhalada como a lenda romântica conta. Álvaro Gonçalves e Pêro Coelho, os outros “matadores da linda Inês”, eram exactamente os oficiais maiores da justiça real, o meirinho e o seu segundo. Pacheco fugiu para Castela, depois para Aragão e por fim para as terras de Henrique de Trastâmara, que o aconselhou a refugiar-se em Avinhão.

 

Diogo Lopes Pacheco viveu muito, o dobro do que era normal na sua época – nasceu em 1304 e morreu por volta de 1393, ou seja, já com avançada idade. Isto significa que viu serem reis de Portugal D. Afonso IV, D. Pedro, D. Fernando e o início do reinado de D. João, que acompanhou a política e a guerra desde as lutas sucessórias do fim do reinado de D. Dinis até às revoltas camponesas que marcam o fim social da Idade Média. Retornou à época da Crise de 1383-1385, apoiando o Mestre de Avis, tornando-se um dos conselheiros do novo monarca. De vida longa e atribulada, acabou por ser perdoado e reintegrado na posse dos seus bens, por D. Fernando, apesar de ter pegado em armas contra a pátria, Diogo Lopes Pacheco beneficiou assim do clausulado do referido tratado de Santarém e ficou em Portugal, sabendo-se que ainda vivia, em Lisboa, no ano de 1383.

 

Diogo Lopes Pacheco não é uma personagem muito comum da história portuguesa: foi ao mesmo tempo conselheiro do rei, combatente em várias batalhas, fugitivo ilustre, disfarçado de mendigo, e servidor, embaixador, conselheiro de novo de três cortes: a portuguesa, a castelhana e a francesa. Comandou tropas portuguesas e castelhanas. Pelas necessidades do seu exílio e das suas funções viajou, um destino muito raro nos portugueses desta época: foi até França e Avinhão, uma capital de papado, e a Roma. Quando morreu, por volta de 1393, ia já a caminho dos noventa anos.

 

A seguir: Álvaro Pais

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