Qualidade ou quantidade – I – por Manuela Degerine

 

Em Sarzedas do Vasco, concelho de Castanheira de Pêra, encontra-se a base da minha identidade. Os avós maternos ensinaram-me o gosto pela liberdade, o orgulho do trabalho bem feito, o respeito pelos outros e pelo meio ambiente, a responsabilidade em relação ao futuro… Não desperdiçar água nem energia nem nada com utilidade, para mim ou para outrem, não eram ali recomendações da Quercus.

 

O contraste entre a qualidade de vida dos meus avós e a pobre abundância em que vivo, protegeu-me sempre, mesmo na adolescência, do deslumbramento por hipermercados ou centros comerciais e ainda me guia através da sociedade de consumo. Certo, posso comprar mais numa semana do que eles na vida inteira, mas a verdade é que tudo quanto os meus avós comiam e bebiam se venderia no meu mundo em lojas gourmet – e só nas melhores. Eu tenho que me contentar, na maior parte do tempo, com fruta pouco saborosa e, não raro, com propriedades nocivas, da qual posso comprar uma tonelada – para quê? Jacinto, no conto “Civilização” de Eça de Queirós, tem em Paris acesso à quantidade mas opta pela qualidade e fica na serra. Em 2011 alastrou até às serras a civilização da quantidade – a das ambulâncias e da fisioterapia igualmente.

 

Os meus avós eram proprietários de terras situadas na encosta da serra. Estes terraços, hoje em ruínas, haviam sido construídos com pedra, força e paciência: os meus antepassados criaram até a terra que os nutriu. Durante a sua vida, os meus avós compraram uma telefonia e uma máquina de costura, algum vestuário e calçado, algumas ferramentas, alguns potes de barro que, quando se partiam, eram remendados com “gatos”, muitos metros de corda, meia dúzia livros preciosos, raros quilos de arroz, o Borda d’Água, a electricidade, muito poupada, o sal e o açúcar, este aliás escasso, por terem colmeias.

 

(Continua)

 

 

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