O saudoso tempo do fascismo – 5 – por Hélder Costa

 

Grândola III

 

Talvez seja por isso que as minhas primeiras memórias têm a ver com ouvir gritos pelas ruas: Acabou a guerra! Acabou a guerra! e minutos depois andarmos a correr pela vila com umas bandeiras brancas onde tinham pintado a verde a palavra PAZ. E de me recordar, pouco tempo depois, de um dos jovens da rua, o Manuel Vieira, gritar no barbeiro contra a constituição da ONU. Dizia ele, e deve ter sido a minha primeira lição de política, que não deixarem entrar a China e outros países na ONU era uma vigarice, porque só ficava a ONA, a Organização das Nações Americanas.

 

E tenho a agradecer ao meu barbeiro da rua, o Álvaro Mariani, as primeiras lições de xadrez, e ao Zé Rafael, empregado de balcão do Valentim, a taberna da esquina, o abrir-me o gosto pelo desenho, pela pintura, pelo mundo da Arte, através dos desenhos que rabiscava com incrível habilidade no papel de embrulho da taberna. (Mais tarde, fazia esculturas com um pau de giz e um alfinete!).

 

E viviam na rua os meus primos Malhadais, a mãe a quem eu chamava a Mal é, o marido o ferreiro Miguel, os filhos, o bom gigante Caetano, o Jorge, a Felicidade que me lembro de ter querido ensinar-me a dançar (o que, pelos vistos, conseguiu), a minha prima e colega de primeiros escudos Maria Carnila … e os PUtos da rua, o Carlos da Luz e o Zé Carlos Milharadas …

 

Ainda renho viva a recordação da campanha à presidência da República de Norton de Matos. O Zé Rafael, a partir de uma pequena fotografia fez um grande cartaz do General que foi pregado numa parede às escondidas, durante a noite. Muito bem, mas que parede era essa? pois o cartaz foi posto precisamente por cima da porta da família Malhadais!

 

Pouca prudência, pois claro. Mas a verdade é que o cartaz ficava ali muito bem porque se podia ver de muito longe …

 

E tenho a agradecer a todos as conversas e as posições contra a guerra, que alguns pagaram com meses de cadeia por se insurgirem contra a formação da Nato, con­siderando que se tratava de um organismo para a guerra e não para a Paz. Parece que não estavam enganados, o que é lisonjeiro para quem nem talvez tivesse a 4a classe.

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