Diário de Bordo de 23 de Setembro de 2011


 

Passam hoje 38 anos sobre a morte de Pablo Neruda, um homem que através da sua poesia nos deixou um antídoto contra a maldade e a ignomínia. Noutro espaço, referimo-nos a essa triste efeméride. Morreu poucos dias após o golpe, porque estava doente, mas também de profunda tristeza de ver o seu país nas mãos de criminosos, de militares miseráveis, sem o sentido da honra e do dever, como Augusto Pinochet que traiu o seu povo e o seu juramento, para servir os interesses dos grandes grupos financeiros internacionais, preocupados com o rumo que as coisas estavam a levar.

 

O Bem e o Mal é o título de um romance de Camilo Castelo Branco, um romance tranquilo do nosso mais caudaloso romancista – mas Camilo é taxativo: «O homem foi sempre mau: será mau até ao fim.» É um axioma perigoso, pois coloca a maldade como algo a que se não pode fugir. Dizia ontem, em entrevista ao El Pais, o romancista catalão Jaume Cabré que o mal não existe em abstracto, é preciso que alguém o cometa para que exista. Estou muito de acordo com Cabré, pois a aceitação do mal como entidade pré-existente é um sofisma para desculpar criminosos. O mal não existe se não houver quem o pratique – os assassinos, os verdugos, os torcionários, os déspotas, são responsáveis pelos seus actos e pelo mal. Sabe-se que Nietzsche dedicou ao estudo destes dois conceitos, desta dicotomia,  o que é talvez o mais  fascinante dos seu ensaios e o que retira legimitidade aos nazis para invocarem a obra do grande filósofo com suporte do pesadelo em que mergulharam o mundo – Para além do bem e do Mal. Mas não queria entrar em águas tão profundas. Voltando à frase de Cabré, diria que o bem também só existe quando é praticado. Tal como o mal, também não existe em abstracto. É preciso haver quem o pratique. Afinal todo o edifício conceptual onde se abrigam a filosofia, sobretudo a ética, só existe através de nós.

 

A questão que se levanta é – ao cabo de tantos milhares de anos de civilização, por que não se consegue orientar os seres humanos no sentido de erradicarem o mal. Chama-se “evolução das mentalidades” ao que mais não é do que modificação de comportamentos ao sabor de avanços tecnológicos e de recuos éticos. A educação e o ensino continuam a ser orientados para a formação de indivíduos que se movimentem com agilidade. Tipos espertos, assertivos, como se diz. Pessoas que ponham o ter acima do ser, porque é a ânsia de ter que faz movimentar os mercados – o ser, o saber apenas interessam na medida em que proporcionem riqueza e poder. Vemos a televisão e aparecem-nos figuras públicas – políticos, gente medíocre e desprezível na sua maior parte e os seus patrões – arrogantes e dizendo enormidades com ar sapiente e descarado.

 

Depois, todos ficamos surpreendidos quando Obama desmente na prática tudo o que prometeu na campanha, quando Sarkozy faz as suas piruetas torcendo a lógica, quando Angela, sem holocaustos visíveis, tenta impor o seu IV Reich ou quando Barroso, com ar solene, cumpre o seu papel de contínuo… Ou ainda mais rasteiramente, quando Jardim gasta o nosso dinheiro como lhe apetece e nos insulta como agradecimento.

 

São pessoas assertivas.

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