O saudoso tempo do fascismo – 7 – por Hèlder Costa

Meu primeiro amor II

 

 Felizmente que havia raparigas que diziam logo que sim, mas havia outras, terríveis, que sorriam angelicamente para nos aterrorizarem: “se vier convidar-me em primeiro lugar”. Era desafio que não se podia perder, e que norrnalmenre era compensado por um olhar tímido, um bilhete secreto, um encontro furtivo que significava uma marca inesquecível de um amor ou paixão, profundamente sinceros e ingénuos.

 

E depois surgiam os inesquecíveis sambas brasiJeiros

 

Você passa por mim e não olha

Como coisa que fosse ninguém

Com certeza você se esqueceu

Que em meus braços já chorou também

 

Eu não ligo porém a seu modo

Isso é próprio de quem é infeliz

Quer mostrar que não sente saudades

De um passado que foi não feliz

 

A malta gozava e dizia que estas canções eram tudo “larnientos de cabrones”, mas eram as tais que eles e elas gostavam de dançar. E eram as que afligiam mais o arame farpado, senhoras que só ficavam felicíssimas quando nos viam a dançar o vira ou um corridinho do Algarve.

 

Se eu quisesse eu podia contar

Tudo, tudo que houve entre nós

Mas pr!a quê destruir seu orgulho

Se eu até já esqueci sua voz?

 

De uma coisa eu tenho a certeza

Foi a vida que me confirmou

Seus melhores momentos na vida

Nos meus braços você desfrutou

 

Claro que de vez em quando havia escândalo: uma bofetada num atrevido (ou pouco hábil, o que era pior), cenas de ciúmes, ameaças de proteccores de ingénuas donzelas, pancadaria entre rivais do mesmo ofício, bebedeiras horríveis por mal de amor, enfim, as tragédias habituais de toda a literatura mais as que se criavam no saudoso tempo do fascismo.

 

 

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