Nota de leitura em forma de um bilhete-postal que aos ministros das Finanças e da Economia podia enviar se a crise esses custos não me obrigasse a ter que os poupar. Por Júlio Marques Mota – V

(Conclusão)

 

4. Tea Party e a ortodoxia alemã: o mesmo combate, os mesmos estragos

 

As disputas políticas do Verão, de parte e outra do Atlântico, tiveram o mesmo impacto negativo quanto ao nível de confiança.


De um lado, os republicanos americanos — e a sua ala direita, o Tea Party — tiveram uma enorme dificuldade em encontrarem um acordo com os democratas, no Congresso, sobre um compromisso orçamental que permitiria aumentar o tecto da dívida pública.


Esta polémica baralhou a estratégia económica do país e foi punida pela degradação da sua notação por Standard & Poor’s, a 5 de Agosto, que lhe retirou o seu triplo A, a melhor nota possível.


Os planos de resgate de Estados membros europeus tiveram também uma enorme dificuldade em ser postos em prática devido às reticências da Alemanha que não quer pagar para países que ela considera não cumpridores, na tradição da ortodoxia monetária e orçamental preconizada pelo Bundesbank, o banco central alemão.


Os seus representantes no Banco Central Europeu blindam-se a toda a força quando se trata de comprar dívida pública dos países em dificuldades.


Outros Estados, como a Finlândia, fazem papel de cavaleiro único e pedem garantias bilaterais em troca do seu apoio à Grécia. E a ideia de obrigações europeias e de orçamento federal continua a permanece nos limbos…


“Os problemas da Grécia apareceram há três anos. A Alemanha teria podido agir como Abou Dhabi agiu a respeito de Dubaï: dizer claramente que apoiava a Grécia. Em Dubaï, a confiança regressou: o consumo, o investimento e o crescimento retomaram a sua trajectória anterior. Porque todos consideraram: “o grande irmão está atrás de nós”, reage Marco Touati, director da investigação em Assya Compagnie financière Sem crescimento suficiente, a tendência para haver uma dívida pública elevada contínua. Em Atenas, há infra-estruturas, há uma verdadeira força económica; o que falta é a confiança. Mas deixou-se apodrecer a situação. O contágio era pois inevitável.”


A fraqueza das economias europeias e americana impõe no entanto que se adoptem estratégias capazes de voltar a ganhar-se confiança. Aquando do simpósio dos banqueiros centrais em Jackson Hole (Wyoming), de 26 a 27 de Agosto, o presidente da Reserva Federal Americana (FED), Ben Bernanke, indicou a direcção: a curto prazo, relançar vigorosamente o emprego e reabsorver o desemprego de longa duração que “deixa inactivos os recursos produtivos”; a mais longo prazo, reequilibrar as finanças públicas.


“O grande problema é que os dirigentes políticos e autoridades monetárias na Europa e nos Estados Unidos não estão necessariamente à altura. À parte Ben Bernanke que manteve o seu sangue-frio, não se tem a impressão que haja um piloto no avião”, lamenta Marco Touati.


A equação é de difícil resolução. “O que é pedido implicitamente pelos mercados – e explicitamente pelo FED e pelo FMI -, é que se faça ao mesmo tempo a política de austeridade e a política de estímulos à economia. Isto significa para os governos terem que assumir o compromisso de redução do défice no que diz respeito aos seus sucessores, analisa Jean-Louis Mourier, economista de Aurel BGC. As políticas são incapazes de fazer ao mesmo tempo uma política de reactivação a curto prazo da economia e uma política de rigor a médio e longo prazo. O longo prazo não terá a ver com eles e pode ser posto em questão.”


Assim, as baixas de impostos nos Estados Unidos não deveriam ser mantidas para além de 2012… excepto no caso de vitória dos republicanos à eleição presidencial! O que anularia os efeitos do acordo sobre a redução do défice.

 

5 – Pequim apoia o dólar assim como a corda apoia pendurada

 

A degradação da notação dos Estados Unidos, dada a 5 de Agosto, provocou uma reacção muito violenta do regime chinês. Se Washington não efectua cortes importantes nas suas “despesas militares gigantescas” assim como que nos seus “custos enormíssimos de ajuda social”, a decisão de S&P será apenas o “prelúdio para outras reduções devastadoras da notação” americana, afirmou, imediatamente do dia seguinte, a agência oficial a Nova China, entre os outros comentários pouco amenos. A fraqueza financeira dos Estados Unidos dá assim um argumento em Pequim para contestar a presença militar americana na Ásia: na Coreia do Sul, em Taiwan…


“Os dias em que o Tio Sam, cheio de dívidas, podia facilmente dilapidar quantidades infinitas de empréstimos do estrangeiro, parecem agora contados”, acrescentava a agência, considerando que a China tinha doravante “todos os direitos de exigir dos Estados Unidos que enfrentem o seu problema estrutural de dívida”.


De resto, a agência de notação financeira chinesa Dagong tinha baixado, desde 3 de Agosto, a notação da dívida soberana dos Estados Unidos de A+ a uma nota A com uma perspectiva negativa, o que, de acordo com a Nova China, mostrava que esta tinha, ainda antes de S&P, informado “a horrível verdade aos investidores do mundo inteiro”.


Este tom fortemente agressivo confirma a lógica não cooperativa da China, o que se acentuou claramente desde o início da crise, onde regularmente colocou em questão o papel do dólar, congelou a sua paridade com o dólar antes de proceder a algumas pequenas reavaliações, reavaliações marginais, diga-se. A mesma agência considerava ao mesmo tempo que “é necessário instaurar uma vigilância internacional sobre a questão do dólar americano”. Acrescentando: “Uma nova moeda de reserva, estável e certa, pode também ser uma opção para evitar que uma catástrofe seja provocada por só um país.”


A 8 de Agosto, em O Diário do povo, todos os países ocidentais tinham a sua nota, o órgão oficial do Partido comunista chinês acusava os Estados Unidos e a Europa de estarem a pôr em perigo a retoma económica no mundo “não assumindo a sua responsabilidade” na crise das dívidas soberanas.


Pequim é, certamente, com os 1.160 mil milhões de dólares de títulos do Tesouro americanos que detinha em Maio, o primeiro credor dos Estados Unidos. Mas as suas reservas de câmbio, as mais importantes do mundo, atingiram 3.197 mil milhões de dólares no fim de Junho (+30,3% num só ano). Tendo evitado a recessão, a China realmente não está atingida pela questão da retoma a nível mundial: a sua preocupação, nestes últimos meses, antes foi a de travar as fortes pressões inflacionistas internas.


Se a China acumula tantas reservas de câmbio, é porque a sua moeda subavaliada é uma arma temível para exportar. Controla o seu valor externo graças ao seu controlo dos câmbios — o que lhe permite acumular as divisas ganhas pelos seus exportadores.


Seguidamente, coloca-as em dólares e noutras divisas para evitar as pressões à alta sobre a sua moeda, emprestando aos seus clientes e evitando ao mesmo tempo perder a sua vantagem comercial ligada à taxa de câmbio da sua moeda subavaliada. “A China tem necessidade do mercado americano e europeu para exportar: todos se agarram à sua barbicha mas Pequim ganha vantagem, assegura o analista de d’Assya Compagnie Financière. Chegará um momento em que a China será bastante forte para fazer do yuan a moeda de reserva mundial, mas nunca antes de dez anos. Nós conheceremos então uma crise tal que não terá nada a ver com esta.”

 

6 – O sistema financeiro não é sempre controlado

 

Os valores bancários viveram um verão bem preto, no limite da inquietação que levou à baixa os índices bolsistas. No verão de 2010, uma primeira vaga “testes de stress” tinha analisado a solidez dos bancos europeus, produzindo resultados que tranquilizaram… mas rapidamente foram anulados pelo fracasso dos bancos irlandeses que tinham acabado de passar nestes testes com sucesso.


A segunda vaga, publicada em Julho de 2011, mais exigente, não impediu o desencadeamento de uma especulação desencadeada, na sequência dos rumores a circular pelos mercados sobre os valores bancários. “Os “stress tests” ainda falharam em tranquilizar os mercados sobre os bancos europeus, até porque há aí uma grande incompreensão. A solvabilidade dos bancos foi testada, ora é a liquidez que coloca hoje problemas”, explica Mourier.


A decomposição das carteiras de títulos de Estado de todos os bancos, com a sua maturidade, deveria ter reduzido as incertezas, tranquilizando sobre a sua saúde financeira. Mas outros problemas reapareceram, como a dificuldade dos bancos para emprestarem entre eles.


Estas tensões sobre as liquidezes interbancárias obstruem o financiamento da economia, o que poderá agravar o risco de recessão na Europa. Ora estas tensões “vieram dos rumores sobre a Société Générale e as suposições de perdas reveladas ou não no sector o que levou a que os bancos mantivessem a desconfiança entre eles próprios a partir da segunda semana de Agosto”, explica o economista. Esta desconfiança foi reforçada pela divulgação dos temores financeiros relativos à Itália, porque os bancos europeus detêm largas proporções desta dívida soberana.


Contudo, este risco de drenagem da liquidez interbancária permanece ainda distante do seu pico de 2008, quando o mercado tinha sido congelado após a falência do banco de americano de negócios Lehman Brothers. Os procedimentos adoptados em 2008 pelo BCE como paliativo contra o risco sistemático continuam com efeito a estar presentes.


“Os bancos podem por conseguinte encontrar sempre liquidez. É pouco provável que se encontrem na situação de não terem bastante títulos para entregar como colateral, como garantia, para obter liquidez junto do BCE, porque o BCE aceita um vasto leque de títulos, tranquiliza-nos Mourier. Devido aos instrumentos criados pelos bancos centrais, uma falência do tipo Bear Stearns ou Lehman Brothers já não é agora possível, porque os bancos teriam acesso à liquidez do BCE ou do FED.”


Sugere-se contudo impor também rácios de liquidez aos estabelecimentos financeiros como está previsto nos acordos prudenciais ditos “de Basileia III”, seja reservas de activos líquidos e em dinheiro, ou ainda de impor aos bancos de balcão que não tenham carteira de créditos superior aos depósitos.


Mas estas regras têm também os seus detractores. Para Touati, os novos regulamentos como Basileia III levam os bancos a limitar os seus riscos e a conceder antes de mais nada créditos às empresas que vão já muito bem, enquanto os outros ou os particulares encontram-se eles perante muito mais dificuldades. “A contribuição do crédito vai na verdade para onde é necessário? É esta questão que é necessário reconsiderar. Tem-se necessidade de uma finança que esteja melhor correlacionada com a economia e que não a altere”, considera Touati.


De acordo com Touati, a tempestade financeira reflecte “um grande problema de manipulação das cotações bolsistas no decorrer do Verão. É necessário interrogarmo-nos sobre quem é que ganha com o crime. Há um inquérito a fazer pelas autoridades de mercado”.


O economista sublinha que os volumes bolsistas são fracos no Verão, e os institucionais pouco activos, o que, num ambiente económico e financeiro incerto, facilita a tarefa daqueles que lançam rumores para disso se aproveitarem: “O contexto é já muito difícil na Europa, mas os rumores sobre os bancos eram, fosse o que fosse, não justificados e nada sérios; do mesmo modo, os movimentos à baixa mesmo antes da degradação da notação dos Estados Unidos podiam ter levado a interrogarmo-nos sobre esta questão.”

 

7 – O banco central europeu deve alterar de prioridade

 

Aquando da reunião do Comité de política monetária do FED, a 9 de Agosto, o banco central americano indicou que manteria as suas taxas de refinanciamento próximas de zero durante os dois anos próximos. Aquando do simpósio de Jackson Hole, o seu presidente, Ben Bernanke, considerou, com efeito, que a fraqueza da economia americana não fazia correr risco de tensões inflacionistas, apesar de um pico em Julho ligado a factores externos como o preço das matérias-primas. E não excluiu, além disso, em utilizar de novo os seus programas de resgates directos de títulos, ou seja, de monetarizar a dívida.


O FED absorveu assim desde o início da crise cerca de 1.000 milhares de milhões de títulos de dívida pública americana, depois de ter absorvido ainda mais títulos privados.


O Banco Central Europeu (BCE) tem, ele, o gatilho muito mais rápido face ao mais pequeno sinal de tensão inflacionista que se possa apenas pressentir. A 7 de Julho, em plena crise da dívida, tinha decidido subir de novo de um quarto de ponto a sua principal taxa directora, para levá-la a 1,50%, contribuindo assim para acentuar as tensões sobre as taxas dos empréstimos europeus.


Face às crises grega, irlandesa, portuguesa, espanhola e italiana, acabou por consentir comprar no mercado umas largas centenas de milhares milhões de euros em títulos.


Na Europa, não somente os governos não se entendem para mutualizar as suas dívidas e fazer progredir a integração política, mas o BCE, focalizado que está somente sobre a luta contra a inflação e cioso da sua independência, utiliza uma pistola de água para apagar o incêndio.


As reservas dos governos e dos banqueiros centrais em agir dão origem aos rumores especulativos que agravam os problemas da zona euro.


Por fim, o diferencial de taxas de juro com os Estados Unidos incentiva as operações de mercado ditas “carry trades” — endividarem-se em dólares para os colocar em euros, [isto é, levantam dinheiro onde a taxa é baixa, convertem-na em dólares aumentando o valor do euro e colocam esses valores na zona euro a taxa mais alta], o que conduz a uma sobre-avaliação da moeda única (a sua cotação de equilíbrio será em relação ao dólar de aproximadamente 1,18 dólares por euro; a sua cotação actual é de 1,43 dólares por euro) e quebra assim o crescimento dos países mais frágeis, agravando ainda mais as suas dificuldades.

 

Anne Rodier e Adrien de Tricornot, “Le retour de la récession peut-il être évité?”, Le Monde, 6 de Setembro de 2011

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