Para a edição portuguesa do livro: «Garcia Lorca e Manuel da Fonseca – Dois Poetas em Confronto», de Manuel Simões – (2) porAntónio Gomes Marques

 (Continuação)

 

Terá nascido da necessidade de abrir caminho aos seus alunos em Veneza a concepção do livro que hoje apresentamos e, não menos importante, também como forma de (passo a citar, da Nota Prévia) «contribuir para o estudo, que em grande parte está por fazer, da inter-relação entre a literatura espanhola e a portuguesa, analisando de perto um momento particularmente significativo de convívio fecundo entre as duas culturas ibéricas.»

 

Mas o interesse de Manuel Simões pela obra de Manuel da Fonseca não vinha e não vem seguramente apenas das razões que ele apresenta, mas também de outras que vou tentar adivinhar.

 

Embora admirador confesso de toda a obra de Manuel da Fonseca, pergunto: será possível a um professor de Literatura Portuguesa, para mais numa Universidade estrangeira, não dar a conhecer a obra do escritor de que este ano se comemora o centenário do seu nascimento? Se de mim duvidam, leiam esse admirável prefácio de Mário Dionísio a «Poemas Completos», de Manuel da Fonseca, mas não esqueçam de ler também a sua obra, que não é tão extensa como poderia sê-lo se tivesse reunido em livro muitas das histórias que contava quando rodeado de amigos, como posso testemunhá-lo, pois fui um dos ouvintes privilegiados dessas histórias. Escreve Mário Dionísio, no citado prefácio: “Eu pasmava, ao ouvi-lo contar à roda dos amigos qualquer acontecimento trivial a que ambos tínhamos assistido. Com a minha lamentável, incorrigível tendência para tentar reduzir as coisas ao que elas efectivamente são, esforçava-me por trazê-lo à sensatez: «Mas não foi nada disso!» Ele, porém, não interrompia a sua história senão para dizer, com o mais delicado dos sorrisos, os olhos quase fechados: «Foi tal, foi tal. É que não reparaste bem.» E continuava. E continuávamos todos a ouvir a sua história, que não era nunca a história, mas se animava de pormenores, de iluminações burlescas, de situações irresistíveis. Foi assim que primeiro conheci essas terras e gentes que haviam de encher os seus poemas e os seus contos, sob nomes inventados – Aldeia Nova, Cerromaior, Valmorado, Albarrã… – e de que Fonseca falava como dum mundo fabuloso que atravessara há muitos anos, de antemão sabedor que teria o dever de contá-lo um dia a toda a gente.”

 

Era de facto assim o Manuel da Fonseca, mais uma razão para o outro Manuel, o Simões, se dedicar ao estudo da sua obra, obra esta sobre que não abundam estudos, não tendo os investigadores o caminho facilitado, havendo quase como única referência a obra do autor e uma ou outra entrevista, poucas, dado que o Manuel não era muito dado a concedê-las por não se considerar assim importante, sendo esta uma posição bem sincera da sua parte. Manuel da Fonseca era um cidadão de corpo inteiro e desejoso de intervir nos destinos do seu povo, de dar o seu contributo para a emancipação dos «explorados e ofendidos», outra das boas razões para ao estudo da sua obra um professor como Manuel Simões se dedicar.

Começando por ser fiel ao que na Nota Prévia anunciou, no capítulo 1 traça um resumido historial daquilo a que chama «O convívio cultural entre Portugal e a Espanha», historial esse bem pobre na década de 70 do século passado, não muito mais rica hoje, sendo o estudo do Manuel uma das obras mais significativas para a chamada de atenção não só para as mútuas influências da inter-relação das literaturas dos dois países, mas também um marco fundamental nesse estudo, razão mais do que suficiente para dar a conhecer ao público português esta sua obra, mesmo que, em relação à edição em Itália, feita em português, note-se, não contenha o apêndice com uma pequena antologia de poemas dedicados a Federico Garcia Lorca por poetas portugueses. Que esta publicação possa também contribuir para que o conhecimento das mútuas influências destas duas literaturas se possa desenvolver com muitas outras investigações. Talvez possa ser o contributo para que outros investigadores a esta temática se dediquem, o que seria uma justa homenagem ao valor desta obra de Manuel Simões.

 

Nesta pequena história do referido convívio cultural que mantivemos e mantemos com o país vizinho, há uma referência inevitável à Guerra Civil de Espanha, passando eu por cima da notável síntese que Manuel Simões faz dos altos e baixos deste relacionamento de mútuas influências, ou momentos charneira como ele lhes chama, desde o século XV até aos nossos dias, pois é a este conflito que me interessa chegar, dado que o trágico conflito ocupou e preocupou os autores do Neo-Realismo português e é de um dos nomes mais representativos deste movimento que estamos a tratar e a comemorar o centenário do seu nascimento. Manuel Simões mostra esta preocupação quando escreve que a ‘Lisboa de 37 ou 38 tinha um centro’, passando a transcrever do prefácio de Mário Dionísio: «Um centro natural aonde toda a gente ocorria, na amarela mansidão dos eléctricos, para fazer compras, tomar café, ver gente. Para saber, hora a hora, como iam as coisas em Espanha.» ‘E, acrescenta Simões, quem não se interessaria pela sorte daqueles dias amargos, se era ali, coisa de nada, que as armas decidiam o litígio desamado, se aqui mesmo, à beira do oceano, se sentia o sangue como afronta e morte, como um espinho cravado no sonho de liberdade? A guerra havia de pesar nestes dias de enxofre como um apelo ou desamor contra o rosto, contra o corpo do homem algemado’. (fim de citação).

 

Como a história não se faz de saltos, havendo sempre um antes que ajuda a entender o presente e a construir o futuro, há que lembrar que nos anos 30 começa a manifestar-se em Espanha uma poesia muito mais comprometida com o ideológico, movimento que a Guerra Civil virá solidificar. Com o advento da República em 1931 parecem estar criadas as condições para resolver os problemas sociais. Diz Pierre Vilar, na sua «História de Espanha»: “A Ditadura governara e não transformara. A República quis transformar e governou com dificuldade. Pelo menos abordou, a partir dos seus dois primeiros anos, todos os grandes problemas.” Lembremos apenas os problemas sociais, transcrevendo o que, sobre esta matéria, escreve o mesmo Pierre Vilar: “Apesar de tudo, o fundo social das esperanças e dos temores depressa apareceu. As classes humildes acreditavam numa mudança de vida. E, desde Abril de 1931, que os capitais foram sendo exportados.

 

A reforma agrária era a única reforma de estrutura formalmente prometida. Mas o acordo sobre os princípios não estava feito. «A terra a quem a trabalha», diziam anarquistas e comunistas. Os socialistas: «A terra ao Estado, a exploração aos sindicatos camponeses». Os liberais: «Propriedade individual». Os católicos: propriedade familiar e indemnizações substanciais aos expropriados.”

 

“A república reformista e jacobina, continua o historiador, morreu (…) por se ter julgado capaz de reformar a Espanha, sem dar satisfações imediatas às massas agrárias e lutando abertamente contra o mais forte sector operário”. As consequências de tudo isto, digo eu, são de todos nós conhecidas. Desde 1931 que os generais não tinham deixado de conspirar, acontecendo o pronunciamento a 18 de Julho de 1936, seguindo-se a guerra civil.

 

(Continua)

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